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Um golpe de mestre

Com sua renúncia, Bóris Yeltsin deve fazer o sucessor e livrar-se de ser preso por corrupção

Bóris Nicholaievich Yeltsin sempre soube surpreender. E esta sua qualidade atingiu o paroxismo no derradeiro dia de 1999. Primeiro o presidente da Rússia, num comunicado que deixou boquiabertos não apenas seus concidadãos, mas também o resto do planeta – inclusive a dita inteligência do Pentágono americano – renunciou ao cargo a que tanto deu mostras de apego desde 1991. Com isso, Yeltsin, que nunca foi tido como homem de letras, também demonstrou, ao menos instintivamente, conhecimento de um dos clássicos da literatura internacional. Sua manobra seguiu à risca passagens do genial escritor italiano Giusep-pe di Lampedusa (1896-1957), na obra-prima Il Gattopardo (O Leopardo), onde o senhorial personagem principal declara que era preciso mudar para tudo permanecer como sempre. E assim, o maquiavélico Yeltsin entregou seu cargo para o primeiro-ministro Vladimir Putin, seu protegido e delfim.

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O consenso geral é de que este súbito desapego ao poder não chegou sem choro e ranger de dentes para este czar pós-soviético. A professora Catherine Akolovsky, especialista em Kremlin da Universidade de Cambridge, disse a ISTOÉ que os conchavos nos bastidores palacianos russos foram longos e difíceis. “Gleb Pavlovsky, o arquiteto eleitoral e consultor político de Yeltsin, vinha tentando uma saída como esta desde o verão passado”. A entourage do presidente, conhecida como A Família, da qual uma das cabeças é sua filha Tatiana, tentava evitar um futuro nas masmorras depois que a era Yeltsin terminasse. Tiveram um antecipado gosto amargo do que poderia lhes acontecer já no começo do ano passado, quando o então premiê Yevgeni Primakov desencadeou uma investigação criminal sobre a rede de corrupção montada pelo grupo palaciano. Nesse arrastão, os peixes gordos como o bilionário proto-mafioso Bóris Berezovsky, financiador da família Yeltsin, seriam agarrados. Primakov acabou demitido em maio, em mais um bem-sucedido golpe de mão do presidente, e a investigação terminou em vodca. O susto, porém, valeu como alerta.

Em 19 de dezembro entra em cena Vladimir Putin, 47 anos. Ex-funcionário do KGB, ex-eminência parda da importante prefeitura de sua cidade natal São Petersburgo no governo Anatoli Sobchak, Putin seguiu uma trajetória meteórica no governo Yeltsin de modo frio e calculista. Ele também contou com boa sorte: os atentados terroristas em Moscou, com a demolição à bomba de vários prédios de apartamento no ano passado, uniram os preconceitos e ódios públicos contra os rebeldes separatistas muçulmanos da Chechênia. A brutal ofensiva russa contra aquela região assegurou 65% de aprovação ao premiê. Tanto que é dada como favas contadas a sua vitória nas eleições presidenciais que foram antecipadas de agosto para 26 de março.

Seu primeiro ato como presidente em exercício foi a decretação do fornecimento vitalício de guarda-costas e pensão para Bóris Yeltsin e família, além de total imunidade em investigações sobre corrupção. Deste modo, o ex-presidente poderá gozar tranquilamente a aposentadoria que tem como respaldo, segundo o diário americano The Daily News, de uma poupança em torno de US$ 2 bilhões. Boris Yeltsin pode ser, como o acusam, bêbado e louco, mas provou que não rasga dinheiro.

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