Cultura

O príncipe do Egito

O francês Christian Jacq se consagra como autor de cinco romances históricos sobre a saga do faraó Ramsés II

As descrições são esfuziantes, as palavras fluem fácil, as construções das frases mais ainda, mas o tema impõe a diferença – e que diferença! Natural, então, seria o escritor e egiptólogo francês Christian Jacq alcançar o topo da lista dos livros mais vendidos, como o fez. Sua missão foi esculpir o exotismo cheio de mistério, que cerca vida e obra de Ramsés II, um dos faraós mais famosos da história do Egito. Como trenó de uma onda que oscila, mas nunca deixa de provocar curiosidade, Jacq chega ao quinto volume da saga do personagem de milê-nios atrás rebocando hordas de leitores ao redor do mundo. O primeiro volume, Ramsés – o filho da luz saiu na França em 1995. De lá para cá, a exemplo do que aconteceu com Paulo Coelho e suas alquimias e Marion Zimmer Bradley e suas bruxas, Christian Jacq galgou a fama e reacendeu a febre da egiptomania. Só na França vendeu três milhões de exemplares. No mundo inteiro, cinco milhões, 180 mil dos quais em terras tupiniquins em lançamentos trimestrais pela Bertrand Brasil. O quinto volume, Ramsés – sob a acácia do Ocidente (364 págs., R$ 30) foi publicado aqui em dezembro e já figura entre os cinco mais consumidos. “Com um largo colar de ouro, vestido num saiote branco e calçado com sandálias brancas (…), aos cinquenta e cinco anos, Ramsés era um atleta de um metro e oitenta, de cabeça alongada (…), testa larga, arcadas superciliares salientes, olhos penetrantes, nariz longo, fino e arqueado, orelhas redondas e finamente desenhadas”, diz um dos trechos no estilo que vem arrebatando os fãs.

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Como todo fenômeno, Christian Jacq não é o que pode ser considerado um sucesso de crítica. O jornal francês Libération, por exemplo, disse que sua série não passa de uma mistura de Dallas com Dinastia no Egito, numa referência às séries televisivas americanas. A fórmula empregada por Jacq não constitui exatamente novidade. Seu jeito de escrever torna palatáveis os fatos que conhecíamos como uma mera cronologia ou, pior, um estudo acadêmico. Um dos trunfos está no fato de ele ter novamente despertado a paixão dos franceses pelo Egito – afinal foi um deles, Jean François Champollion, quem decifrou os misteriosos hieróglifos que cobrem os monumentos daquele país, descortinando para o Ocidente uma cultura riquíssima e sofisticada.

Cem filhos – Ramsés II, cuja múmia está no Museu do Cairo, reinou, segundo Jacq, durante 67 anos entre 1279 e 1212 a.C. – as enciclopédias registram 1304–1237 a.C. Casou-se três vezes e, além dos três herdeiros oficiais, tornou-se pai de mais de 100 filhos espalhados pelo vale do Nilo. No primeiro volume, O filho da luz, Ramsés surge, aos 14 anos, sem ter sido apresentado ao pai, o poderoso faraó Sethi, como era costume entre os nobres herdeiros. Na visão romanceada da história, Jacq provocou o encontro do futuro monarca com Moisés, com o poeta grego Homero – uma impropriedade histórica, já que este nasceu no século IX –, criou um irmão mais velho, o príncipe Chenar, cuja inveja e cobiça atravessa a saga, além de dar vida a figuras mitológicas como Menelau e Helena de Tróia. Sedutor desde a adolescência, Ramsés se apaixonou por Iset, a Bela, que lhe deu dois filhos e se tornaria uma espécie de esposa secundária. Depois, casou-se com Nefertari, mãe de sua filha e para quem ergueria os templos de Karnak e Luxor, em Abu-Simbel.

No segundo volume, O templo de milhões de anos, lê-se sobre a coroação de Ramsés e a formação das tramas que irão atormentá-lo até o fim. Em A batalha de Kadesh surgem os hititas e as ameaças externas a seu governo, enquanto em A dama de Abu-Simbel o leitor fica sabendo do laborioso cotidiano das construções dos templos e das complexas negociações com estrangeiros, que culminam em Sob a acácia do ocidente no casamento do faraó com a princesa hitita, rebatizada Mat-Hor, o que significa: a que vê Hórus e a perfeição da luz divina. A narrativa de Jacq é fluente e cheia de passagens eróticas, como o amor selvagem vivido pelo brutal hitita Uri-Techup e Tanit, uma fogosa fenícia. Como doutor em estudos egípcios pela universidade francesa de Sorbonne, o escritor, em que pese a licença poética, cuidou para não cometer disparates.

De acordo com o engenheiro naval Aderbal Caminada Netto, professor da Escola Politécnica da USP e que tem como hobby a leitura sobre arqueologia, a série é interessante porque promove uma recuperação do Egito. “Afasta a visão deturpada a que fomos acostumados pelas produções de Hollywood.” Caminada Netto chegou à série Ramsés quase por acaso. Ganhou o primeiro deles de presente de um dos filhos, que o escolheu na lista de best sellers. Quando falou a ISTOÉ ainda estava no final do quarto volume e aguardava com curiosidade o destino que Moisés teria na história. “Considero a leitura de Ramsés um bom entretenimento, mas enquanto não saía o terceiro volume eu comecei a ler História do cerco de Lisboa, de José Saramago e, para falar a verdade, depois de passar algum tempo me deliciando com o texto do escritor português, foi muito difícil retomar a leitura de Ramsés.”

O engenheiro e professor, porém, aponta qualidades em Jacq. “Ele inclui algumas conclusões recentes sobre a mão-de-obra empregada na construção dos monumentos colossais.” É que alguns arqueólogos descobriram inscrições registrando o soldo pago a funcionários construtores, o que em tese desmente aquela história da utilização exclusiva de escravos. Outro fator positivo lembrado pelo professor é o profundo conhecimento do autor da mitologia egípcia, de seus cultos e rituais com-plicadíssimos, cheios de uma simbologia muito peculiar.

Hieróglifos – Tal esmero só pode ser atribuído à já mencionada paixão dos franceses pelo tema. Há tanta gente escrevendo sobre o assunto que Christian Jacq teria de se destacar. Vários outros livros do gênero foram e estão sendo lançados. Acaba de chegar às livrarias brasileiras Memó-rias de Ramsés, o grande (Ediouro, 184 págs., R$ 29), de Claire Lalouette, professora da Sorbonne e integrante do Instituto Francês de Arqueologia Oriental do Cairo. Para escrever na primeira pessoa, Claire se valeu das traduções dos hieróglifos. Mesmo caminho trilhado por Jacq para produzir o seu recente A sabedoria viva do antigo Egito (Bertrand Brasil, 174 págs., R$ 18), que traz ensinamentos, pensamentos e mensagens de paz que nada ficam a dever a qualquer livro de auto-ajuda publicado na última década. Ancorado no sucesso de vendas, e trabalhando uma média de 12 horas diárias em sua casa em Genebra, Suíça, o escritor se prepara para publicar em março o primeiro dos cinco volumes que compõem uma nova saga egípcia, A pedra da luz. As editoras que representam Christian Jacq planejam um grande estardalhaço para o lançamento simultâneo no mundo inteiro. Elas devem estar morrendo de inveja do sucesso internacional de Paulo Coelho e não querem fazer feio.

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