Comportamento

Eu bebo, sim

A cachaça artesanal conquista prestígio e ganha novas marcas, assinadas por artistas

A cachaça já foi o combustível de toda uma geração de boêmios. Foi a bebida precursora da cultura de botequim e ajudou muitos músicos a elaborarem melodias e poetas a fazer versos. Apesar disso, consumi-la com frequêcia nunca foi um atestado de elegância. Só recentemente, com investimentos no processo de produção e um visível salto de qualidade, o destilado ganhou um verniz de sofisticação. Enquanto grande parte da população brasileira ainda consome um produto industrializado em larga escala, a preços acessíveis, cresce o público da cachaça artesanal, aquela elaborada com técnicas modernas, que se dispõe a pagar mais por um produto bem mais fino. De olho nesse novo filão, os artistas Hugo Carvana e Lúcia Veríssimo estão lançando suas marcas personalizadas, verdadeiros néctares de apelação controlada.

A L.V. é uma branquinha legítima, com a instigante característica de que sua garrafa, depois de exaustivamente lavada, é perfumada com cardamomo, erva afrodisíaca que acrescenta outros poderes à bebida. “A maior dificuldade é aliar a qualidade ao preço, o que vamos conseguir”, promete a atriz. Serão 50 mil litros anuais, fabricados em um alambique próximo a Ouro Preto, em Minas Gerais. “A França se orgulha de seu vinho, a Escócia de seu uísque e a Bélgica de sua cerveja. Por que não podemos nos orgulhar de nossa cachaça?”, pergunta Lúcia Veríssimo, tomada de brios nacionalistas.

Já a cachaça Carvana, com rótulo by Jaguar, nasceu dos encontros de uma animada turma no Hortomercado de Itaipava, na região serrana do Rio. Hugo Carvana, os cartunistas Jaguar e Miguel Paiva, o jornalista Fernando Barbosa Lima e o carnavalesco Fernando Pamplona se reúnem com o mesmo objetivo e parecem abelhas atrás do mel: a aguardente Terra Molhada, fabricada por Fernando Rinaldi em seu alambique, em Bem Posta, a alguns quilômetros dali.

De todos, Carvana foi quem mais estimulou os amigos a degustar a bebida, e acabou batizando com seu nome uma parte da produção do alambique de Rinaldi. De início, ele distribuiu um lote de 200 unidades para os amigos. Até fevereiro o Ministério da Agricultura deve liberar a comercialização da marca. Rinaldi lançou também a cachaça Gay, em sociedade com o fiscal de renda aposentado Armando Martins. “É um termômetro. Se o cara for gay, solta a franga. Se não, fica ainda mais machão”, debocha Martins.

Fernando Rinaldi começou a fazer aguardente em 1988, e hoje chega a 50 mil litros anuais. Ele tem alguns segredos que enobrecem sua cachaça. O principal é fabricar só com o coração da cana destilada. Para isso é preciso vária-s etapas de apuração. A cana com fermento vai para o alambique, é fervida e a parte mais volátil, o álcool, vira vapor e entra em uma serpentina. O primeiro e mais forte líquido que se obtém chama-se “cabeça”, com 80 graus GL (escala de graduação alcoólica). De uma nova apuração extrai-se o “coração” que começa a 71 graus GL e é novamente fervido até chegar a 42 graus. Esse, sim, é o ideal para o consumo. Na etapa final, o líquido que sobra é conhecido como cauda, ou água fraca.

As cachaças de qualidade são feitas com o coração e elaboradas em alambiques de cobre, o que possibilita atingir sabor e aromas apurados. Além disso, não só possuem um alto teor alcoólico, como não dão ressaca no dia seguinte. “Isso porque o óleo de breu, que ataca o fígado, é eliminado no nosso processo de destilação”, explica Rinaldi. Minúcia-s como essas deram origem a alguns grupos de entusiastas. Entre eles, a Confraria do Copo Furado e a Academia Brasileira da Cachaça (ABC), fundada em 1993 nos moldes da Academia Brasileira de Letras, com 40 imortais. “Só que todos nós sabemos beber, e na ABL nem todo mundo sabe escrever”, provoca Paulo Magoulas, publicitário de 57 anos que preside a turma. O avental substitui o fardão e quem morre é substituído. O agitador cultural Albino Pinheiro deu lugar ao ator Stephan Nercessian, por exemplo.

A Academia Brasileira da Cachaça não tem sede própria e seus membros se encontram oficialmente a cada dois meses no bar Academia da Cachaça – a fonte de inspiração, inaugurada em 1989 – no Leblon e na Barra da Tijuca. E não se trata de um clube do bolinha. Há dez mulheres associadas, entre elas as atrizes Beth Mendes e Ângela Leal, além da cantora Beth Carvalho e Russa, ex-mulher de Martinho da Vila. O último evento que promoveram foi o Festival da Cachaça, em novembro, em Itaipava. O objetivo é divulgar e defender a branquinha produzida artesanalmente e convencer os restaurantes cariocas a introduzi-la em seu cardápio. “Tem um clima de gozação, mas é um trabalho sério”, garante Magoulas. Para quem quer se enfronhar nessa causa, pode visitar a cachaçaria recém-inaugurada Porão do Imperador, em Itaipava. São 500 marcas diferentes, um universo para muito trabalho sério