Brasil

Feliz ano velho

Na volta do réveillon 2000, antigos problemas: chuvas param estradas privatizadas, fazem mortos e milhares de desabrigados. FHC e Itamar aproveitam temporal para alimentar diferenças políticas

No estouro de champanhes, sidras e toneladas de fogos seguiram-se o caos e a tragédia. O prosaico desejo de centenas de milhares de brasileiros de inaugurar o ano 2000 com uma vida melhor e mais feliz desfigurou-se no luto pelos parentes mortos e pelas casas arrastadas com a ferocidade das chuvas que arrasaram cidades e estradas. A magnitude dos estragos que roubaram a vida de pelo menos 30 e tragaram os lares de mais de 80 mil pessoas – concentrados na região Sudeste do País – ainda estava sendo mensurada até o final da semana. Outros cidadãos tiveram a infelicidade de confiar no pleno funcionamento de rodovias privatizadas. O tráfego entre as duas maiores cidades brasileiras foi interrompido em alguns trechos, a partir do domingo 2. O trânsito na NovaDutra, principal rodovia que faz a ligação entre São Paulo e o Rio de Janeiro, foi fechado por conta de inundações e deslizamentos de barreiras. A viagem, que normalmente transcorre em até seis horas, chegou a levar 24 horas, com um agravante: com o pedágio mais caro (R$ 3,80).

O novo ano ainda trouxe consigo uma espécie de compacto das chatices que muitos desejariam que tivessem, essas sim, sido levadas pelas chuvas. Ao contrário, serviram de pano de fundo para um enredo bem conhecido. O presidente Fernando Henrique voltou a tentar exibir seu lado mais humano ao visitar cidades atingidas, entre elas as do sul de Minas. O governador mineiro Itamar Franco voltou a bater boca com FHC nas páginas dos jornais. O ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, voltou a passar um pito em Itamar em nome de FHC. E o prefeito paulistano Celso Pitta voltou a brigar com o governador Mário Covas sobre a responsabilidade pelas obras de contenção a enchentes na capital.

Sem verbas – Passados os momentos mais críticos, descobriram-se alguns fatos verdadeiramente alarmantes. O primeiro deles refere-se ao investimento em obras que poderiam, no mínimo, ter minorado os transtornos impostos a milhares de contribuintes. O total de recursos efetivamente empregado pelo governo federal em 1999 em obras contra enchentes foi o menor dos últimos quatro anos. Dos R$ 155 milhões aprovados no Orçamento Geral da União, apenas 10,5% – ou R$ 16,3 milhões – saíram do cofre da viúva. O responsável pelo numerário, o Ministério da Integração Nacional, atribui o atraso no desembolso dos recursos principalmente à reestruturação da pasta e à lentidão dos municípios em apresentar projetos.

Outra questão relevante diz respeito à previsão do tempo. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), boletim que advertia sobre os riscos de inundações foi enviado aos governadores e alguns parlamentares em 16 de dezembro. Por que os governos não tiveram a prudência de ao menos advertir a população, não se sabe. “É difícil avisarmos a cada prefeito. Normalmente os Estados recebem o relatório e avisam os municípios”, disse o diretor do Inmet, Augusto de Athayde.

Sem se entender sobre a responsabilidade dos danos causados aos usuários da Dutra, o governo deixou voltar à berlinda o programa de privatização. Somente na tarde da terça-feira 5, quando os problemas na estrada já completavam dois dias, o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, se pronunciou sobre o assunto. Depois de sobrevoar a estrada de helicóptero, ele informou que o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), responsável pela fiscalização das concessões, iria investigar se a NovaDutra tinha responsabilidade pelos deslizamentos de terra em alguns pontos. O presidente da concessionária, Evandro Saruby, diz que a empresa investiu R$ 25 milhões em 190 obras para reforçar barreiras. “Quando assumimos a rodovia a situação era catastrófica, o que mostra que poderia ter sido pior.” Ele nega que estivesse previsto no edital de concessão qualquer obra que pudesse ter evitado os estragos ocorridos. “Foi uma chuva não vista na Dutra em muitos anos.” Ao responder às reclamações de dezenas de pessoas que se queixaram de falta de informação sobre os problemas na rodovia, Saruby afirmou que a empresa se preocupou em informar os pedágios. Mas ressalvou: “É muito difícil analisar estas questões com base nesse tipo de informação. Depende de como são feitas as perguntas.”

O Ministério encomendou a uma empresa privada que apurasse se a concessionária, que assumiu a rodovia há quatro anos, tinha culpa no cartório. Na quinta-feira 6, o DNER divulgou um parecer técnico indicando que os incidentes ocorridos se deviam a chuvas “extraordinárias, bem acima do dimensionamento de obras em rodovias deste padrão”. A palavra final, entretanto, será dada ao fim da investigação mais aprofundada até o próximo dia 13. “Se for constatada culpa, a NovaDutra será multada”, afirmou Padilha. Mas a confusão estava armada. O ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, anunciou que apoiaria o prefeito de Resende, no Rio de Janeiro, uma das cidades atingidas, numa ação que está movendo contra a concessionária por danos ao meio ambiente.

Troco – Enquanto isso, na terça-feira 4, o presidente Fernando Henrique visitava de helicóptero as áreas atingidas em Minas e Rio de Janeiro. Até então, a chuva havia feito 39.500 desabrigados e 28 mortos. Em Itajubá, onde já havia cinco mortos e cinco mil desabrigados, FHC disse que faria uma medida provisória liberando recursos para as áreas de calamidade. “Sobrevoando Itajubá, vi que é uma situação dramática. Vim dizer que o que estiver ao nosso alcance, nós faremos”, afirmou ao desembarcar. A MP dispensou R$ 5 milhões para os três Estados. Mas após reclamações do governador Mário Covas, FHC resolveu alterar a medida, reservando a São Paulo R$ 2,5 milhões e deixando o que fora previsto para Minas e Rio. Mas o governo não perde o hábito de anunciar coisas que já existem como se fossem providências tomadas com presteza diante do drama de milhares. Foi anunciada a abertura de uma linha de crédito especial pela Caixa Econômica Federal voltada para famílias de classe média que sofreram perdas com as enchentes. O banco informou, entretanto, que se trata de uma linha antiga.

Na visita, o presidente foi aplaudido, mas também recebeu críticas. “Se tivéssemos sido avisados poderíamos ter salvado móveis, eletrodomésticos e roupas. Não sobrou mais nada”, disse a dona de casa Teresa de Oliveira. O prefeito Francisco Ribeiro disse que o aviso foi dado assim que o serviço de meteorologia deu a informação da prefeitura. Integrante da entourage do presidente em Itajubá, o senador José Roberto Arruda (PSDB-DF) não pôde visitar a casa da mãe, que fora atingida. Ao comentar a visita presidencial a Minas, Itamar Franco classificou FHC de “demagógico, mesquinho e provocativo”. “Esse presidente é um anfótero.”

O dicionário esclarece que a palavra escolhida a dedo descreve “aquele que reúne em si duas qualidades opostas, ou elemento químico que reage ora como base, ora como ácido”. Itamar completou dizendo que a verba anunciada é insuficiente. “Não havia necessidade do deslocamento dele de Brasília para sujar os pés de lama em Minas.” Pimenta da Veiga reagiu em nome do governo. “A visita do presidente foi um gesto de solidariedade e o governador está demonstrando insensibilidade.” No Rio, em Resende, ao lado do governador Anthony Garotinho, Fernando Henrique negou que esteja tentando popularizar seu estilo. “Nos lugares de seca fui muitas vezes. Mas não adianta apenas ir. Tem de ir, dar apoio e uma solução”. Embora negue, o Palácio do Planalto aprendeu com os erros do passado. A demora em ir a áreas de seca anteriormente e a ausência no incêndio que queimou Roraima em 1998 custaram ao presidente um belo naco de popularidade. Com a presteza, Fernando Henrique Cardoso também teve oportunidade de pinicar Itamar, chegando antes do governador aos locais onde a tragédia foi maior e visitando as vítimas da enchente, com quem chegou a tirar fotos.

Guerra política – A partir de terça-feira 4, a chuva começou a dar trégua, pelo menos em alguns locais, e na Dutra foi restabelecido o fluxo nos dois sentidos, mas a estrada só estará pronta em 60 dias. Ainda colhendo os amargos resultados do drama, a cidade paulista de Campos do Jordão, no entanto, atualizava seu saldo de mortos e desabrigados até a quinta-feira 6. Nos cinco hospitais locais, havia 103 feridos internados. De acordo com Prakki Satyamurty, chefe da divisão de operações do centro de previsão de tempo e estudos climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a chuva que nos primeiros cinco dias de janeiro acumulou, em certos locais, o equivalente a 15 dias de chuva em padrões normais, começou a ceder. “O temporal no Sudeste não pode ser considerado efeito de La Niña”, afirmou, ao informar, entretanto, que a estiagem que assola 28 municípios gaúchos pode ser considerada consequência do fenômeno.

Embora as cidades localizadas no Vale do Paraíba tenham sido bastante atingidas, os efeitos da chuva na cidade de São Paulo não foram tão dramáticos como os vistos em março do ano passado. A prefeitura inaugurou seis “piscinões” em 1999 para reter a água dos córregos que cruzam a região metropolitana. Mesmo assim, a marginal Tietê encheu. O secretário de Vias Públicas do município, André de Fazio, evita responder à velha pergunta: por que a prevenção não foi feita antes? “Não me interessa o passado. Só o presente e o futuro”, disse, esquivando-se de criticar os antecessores de Celso Pitta, entre eles, Paulo Maluf. E foi o de sempre. Pitta reclamou de Mário Covas, que, segundo ele, está atrasando a entrega do rebaixamento da calha do Tie-tê. E Covas negou. O ano é novo, mas os problemas são os mesmos.