Ediçao Da Semana

Nº 2741 - 05/08/22 Leia mais

Quem escuta o disco Cores nomes não resiste à gostosa melodia de Um canto de afoxé para o bloco do Ilê, parceria de Caetano Veloso com o filho Moreno, que também divide os vocais. Moreno tinha nove anos, mas já mostrava a afinação e o suingue que hoje lhe rendem elogios em apresentações com sua banda Moreno + 2, formada por ele na voz e no violão, pelo baixista Kassim e pelo baterista Domênico. "Na verdade, é um trabalho do Moreno. Nós somos apenas o brinde", brinca Kassim, também produtor musical do programa global Muvuca. No final deste ano, está previsto o lançamento do primeiro disco do grupo. Chamará A máquina de fazer música, e está sendo gravado em esquema independente. Diante da estréia ansiada, seria natural, então, que o vocalista quisesse fazer festa em torno do CD, mostrando sua cara além dos palcos em revistas, jornais e tevês. Seria. Porque ao contrário do pai, um narciso que acha feio tudo o que não é espelho, Moreno Veloso, 26 anos, filho de Caetano com Dedé Gadelha, não quer dar entrevistas.

Desde cedo conviveu de perto com o assédio da mídia em torno do pai e, em vez da relação de amor e ódio de Caetano com a imprensa, assume que não gosta dela, acha que em geral não tem ética e se sente pouco à vontade com a curiosidade a priori em torno dele. A atitude pode levar a pré-julgamentos, mas os amigos são unânimes em definir o garoto como um sujeito simples. Não usa roupas de griffe e, até seu último aniversário, estava há três anos sem cortar o cabelo e fazer a barba. Em função do despojamento, já protagonizou histórias divertidas. Uma vez, dizem, ficou quatro dias sem comer direito por puro esquecimento, de tão absorto que estava resolvendo um problema matemático. Suas excentricidades quase já levaram a ex-namorada Luiza Buarque, filha de Chico, ao desespero. Há cerca de seis anos, Moreno ficou 20 dias sem tomar banho e Luiza teve que implorar para convencê-lo a entrar debaixo do chuveiro.

A rebeldia adolescente parece ter acabado. Hoje, Moreno Veloso tem no currículo músicas nos discos de Gilberto Gil e Gal Costa. Todas são canções muito originais, reflexo de um gosto musical para lá de eclético em que cabem tanto Bach quanto Claudinho & Buchecha. Sua banda, aliás, como a trupe mesmo brinca, poderia se chamar Os Morenos, mas ganhou outro nome por causa da banda de pagode homônima (leia abaixo), que faz sucesso com a música Mina de fé.

 

Originais do samba

O grupo Os Morenos faz questão de dizer que toca samba, não pagode. E ai deles, se não fosse assim. Waguinho, o vocalista, é neto de dona Concha, co-fundadora do bloco Caciques de Ramos, um dos mais tradicionais do Rio de Janeiro, e Ézio Zan, do surdo, é filho de Delegado, o célebre mestre-sala da Mangueira. Os demais, Alex (teclados), Betinho (percussão), Marcelo (baixo), Gilmar PQD (pandeiro) e Charlles André (cavaquinho), fazem coro na defesa do gênero, não sem razão. O mais recente disco de Os Morenos, Tá a fim de sambar?, vendeu 250 mil cópias. Bem mais do que sonha Moreno Veloso em seu álbum de estréia. "Nós conhecemos o Moreno só de nome, mas ouvi falar que toca legal. Se ele quiser fazer um som com a gente, está feito o convite!"

L.C.