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Videoguerrilheiros

Polícia Federal investiga em Rondônia ações de grupo que defende a luta armada no País

No Brasil, quase ninguém sabe da existência do Novo Exército do Povo, um movimento guerrilheiro de orientação maoísta que reúne cerca de 20 mil homens nas Filipinas. Uma fita de vídeo sobre a atuação do grupo naquele arquipélago do Sudeste Asiático faz parte, porém, de um inquérito recém-instaurado pela Polícia Federal em Rondônia. "A gravação era usada durante instruções nos acampamentos da Liga Operária e Camponesa", revela o delegado Wilson Salles Damázio, superintendente da PF no Estado. Com dois terços de seu território coberto pela floresta amazônica, Rondônia abriga campos clandestinos de treinamento da Liga Operária e Camponesa (LOC), uma organização de extrema esquerda criada em agosto de 1997 por dissidentes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Inconformadas com a aproximação do MR-8 com o PMDB, essas lideranças passaram a defender a luta armada como forma de desestabilizar o governo e se notabilizaram por promover uma invasão na cidade mineira de Betim. Mês passado, em confronto com a Polícia Militar, dois sem-teto arregimentados pela Liga foram mortos.

Em Rondônia, a organização se estruturou a partir de um racha de outra organização, o Movimento Corumbiara Camponês (MCC). "Eles são mais radicais e estão em diversos pontos do Estado", comparou o superintendente. "Em suas invasões, acabam atraindo pessoas que estão apenas a fim de conseguir um pedaço de terra para trabalhar." Conforme havia adiantado na edição de 12 de maio de ISTOÉ, o lavrador Claudemir Gilberto Ramos, um paranaense radicado em Rondônia há 12 anos, afirmou em depoimento à Polícia Federal que chegou a participar de um curso da LOC no interior de Minas Gerais. Outros dois antigos integrantes do grupo, que tem 300 homens armados, também confirmaram em depoimento a estratégia da Liga em treinar homens para a prática de atos terroristas. Quatro inquéritos investigam a ação do grupo em Rondônia, sendo que um deles apura o provável desvio de verbas federais para a LOC, através de uma organização não-governamental, o Instituto de Educação do Trabalhador (IET). Em Minas, a ONG embolsou R$ 9,96 milhões nos últimos três anos e também está sob investigação.

Pela cartilha da Liga, o financiamento das operações pode vir também de assaltos e até de sequestros. De acordo com as investigações da Polícia Federal, foi o grupo extremista que assaltou em junho do ano passado a agência dos Correios da cidade de Machadinho D’Oeste, a 350 quilômetros da capital Porto Velho. Na ocasião, dois mascarados com revólveres e pistolas levaram R$ 46,2 mil, fugindo em uma moto localizada posteriormente em uma fazenda invadida pela Liga. "Fica a 60 quilômetros da cidade", conta o delegado de Machadinho D’Oeste, Lucena dos Santos, da Polícia Civil. "Sabemos que tem armas e, entre seus instrutores, alguns falam em castelhano." Enquanto a polícia não entra em ação, a fama da Liga começa a se espalhar pela região. Ela se tornou a primeira suspeita do assalto a um agência do Banco do Brasil em Machadinho, na sexta-feira 14, que incluiu o sequestro do gerente. "Aparentemente, a Liga não está envolvida no caso", afirma o superintendente da PF. Sem saber das conclusões do federal, um dos principais líderes da Liga, Gerson Lima, reclamou em Belo Horizonte do envolvimento do nome de sua organização na ocorrência. "É armação para desviar a atenção da sociedade do problema dos trabalhadores e para sufocar a luta popular. Na podridão deste país, quem apóia os pobres é perseguido", denunciou Lima. Pelo sim, pelo não, o Exército está acompanhando de perto as investigações comandadas pela Polícia Federal.