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Quem pôs essa embaixada aí?

Reação das autoridades de Pequim ao bombardeio por engano da representação chinesa em Belgrado pode pôr em risco o frágil plano de paz para Kosovo

Dez anos depois do massacre da Praça da Paz Celestial, em Pequim, os estudantes chineses estavam de volta às ruas das principais cidades do país. Mas em lugar de exigirem liberdades democráticas e o fim da corrupção no governo, desta vez os manifestantes tinham as autoridades do seu lado para protestar contra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). O motivo foi mais uma inacreditável barbeiragem da aliança militar na Iugoslávia: no bombardeio do dia 7, um míssil lançado por um sofisticado avião B-2 atingiu por engano a Embaixada da China em Belgrado, matou três cidadãos chineses e deixou 20 feridos. Aos gritos de "Abaixo a Otan!" e "Fora o imperialismo ianque!", os irados estudantes – cerca de 30 mil – atacaram e sitiaram a embaixada americana em Pequim, que em três dias foi praticamente destruída por pedras, garrafas e coquetéis Molotov. O embaixador americano, James Sasser, e os diplomatas da representação dos EUA ficaram praticamente reféns dentro do edifício. "Existem evidências de que os manifestantes foram estimulados pelo governo", acusou Sasser, que acredita que estudantes e trabalhadores da Universidade de Pequim foram transportados para o quarteirão diplomático em vários ônibus oficiais.

Protestos antiamericanos ocorreram também em diversas cidades, como Taipé (da inimiga Formosa), Belgrado, Berlim e até São Paulo, onde na terça-feira 11 cerca de 300 chineses fizeram uma manifestação em frente ao consulado americano. Nem Hollywood escapou da ira chinesa. Filmes made in USA que estavam sendo exibidos na China – como O Resgate do soldado Ryan e Inimigo do Estado – foram suspensos. Alguns estudantes mais radicais organizaram um movimento para convocar voluntários para lutar ao lado dos sérvios. Mas foi na diplomacia que o desastrado bombardeio causou mais estragos. O frágil rascunho de acordo para Kosovo, penosamente acertado há duas semanas com os países do Grupo dos Sete (EUA, Japão, Alemanha, Grã-Bretanha, Canadá, França e Itália) com a Rússia, pode não sair do papel. Pequim ameaçou vetar, no Conselho de Segurança da ONU, qualquer proposta de paz que seja apresentada antes de cessarem os ataques à Iugoslávia, numa decisão apoiada por Moscou.

O incrível nessa história é como a maior organização militar do planeta pôde ter cometido um erro tão primário. Segundo o Pentágono, o alvo era um depósito de armas do Exército iugoslavo, mas a embaixada foi atingida porque o ataque se baseou em mapas desatualizados fornecidos pela CIA (a Agência Central de Inteligência dos EUA), já que a representação chinesa se mudou para o atual endereço há apenas quatro anos. "Temos os melhores pilotos do mundo, as melhores armas do mundo, as missões mais bem planejadas e as forças mais bem treinadas. Mas numa operação como a que levamos adiante, não há como evitar danos colaterais ou ocorrências como essa", justificou-se o porta-voz do Departamento de Defesa, Kenneth Bacon. "A verdade trágica e constrangedora é que nossos mapas não mostravam a embaixada em nenhum lugar da vizinhança", admitiu uma fonte da Otan.

Enquanto isso, a dança da morte e a comédia de erros continuavam com seus encontros macabros e cada vez mais rotineiros na Iugoslávia. Na sexta-feira 14, um bombardeio da Otan atingiu um comboio de refugiados kosovares albaneses no vilarejo de Korisa, a 60 quilômetros a sudoeste da capital do Kosovo, Pristina. Segundo a agência iugoslava Tanjug, pelo menos 100 pessoas morreram. Mas os imperturbáveis estrategistas da aliança ocidental continuavam catalogando essa carnificina de inocentes como erros "estatisticamente desprezíveis".


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