Cultura

Pelados na Times Square

O fotógrafo americano Spencer Tunick irrita conservadores e acaba detido por clicar pessoas desnudas em público

A verdade nua e crua é que o artista Spencer Tunick é um exibicionista enrustido. Não fosse assim, como explicar esta sua obsessão em fotografar gente sem roupa em locais públicos? E a quantidade de modelos? Sua chamada massa de manobra é exatamente isso: massa. Da última vez que ele resolveu trabalhar, levou para a famosa Times Square, no último dia 26, nada menos que 150 pessoas. Todas, é claro, peladas como vieram ao mundo. Ficaram deitadas ali, como frangos de macumba na chamada "encruzilhada do mundo". Conseguiu-se o paradoxo: uma concentração descontraída. O horário do evento, note-se, até que foi uma escolha discreta: 6h15 da manhã dominical. Mas o que dizer do local? O coração da Broadway. Justamente o epicentro da cruzada puritana movida pelo imperador da cidade, o prefeito Rudy Giuliani. O resultado do desafio desavergonhado só poderia ser mesmo os grilhões. Vários policiais, ao notar a proliferação de carnes descobertas – algumas com aparência saudabilíssima, outras nem tanto –, deram a ordem de prisão. Só que não algemaram um único modelo nudista – o que, pensando bem, daria uma inesperada conotação sadomasô ao affair. Levaram no camburão apenas o condottiero Spencer. A acusação, acredite se quiser, é a de "promover ajuntamento de multidão sem permissão da prefeitura. O que caracteriza incentivo à conduta violenta e tumulto".

"Trata-se de cerceamento de minha liberdade de expressão como artista, e do autoritarismo do prefeito em sua cruzada moralista contra o corpo humano e a sexualidade", disse Spencer a ISTOÉ, depois de ter sido solto sob fiança. Ou seja: mesmo com alvará, toda nudez será castigada. E, por isso, a causa deste "voyeur serial" foi abraçada pela cidade cansada do pudibundo prefeito. Spencer, que exige não ser confundido com um mero fotógrafo ("Eu sou um artista", diz.), com a prisão virou novamente darling da mídia. Afinal, a memória do público não consegue guardar nenhum sucesso, além dos 15 minutos regulamentares de fama. Do contrário, seria lembrado que o artista – anteriormente chamado "fotógrafo" – já passou pelo xilindró pelos mesmos motivos de agora. Ele tem captado, em pontos turísticos de cada um dos 50 Estados americanos, surpreendentes imagens de verdadeiros exércitos – cujo único uniforme é a absoluta falta de uniformes. Em Wyoming, no George Washington Memorial Park, uma centena de pessoas exibiu seus melhores perfis para as lentes de Spencer (ele gosta da tigrada assim: de lado, que é para nenhum modelito se atrever a sorrir estupidamente para a objetiva). Em Indiana, sobre as areias escaldantes do Dunes National Lakeshore, oito dezenas de corpos das mais variadas envergaduras também foram clicados.

O mais impressionante é que Spencer não gasta nenhum centavo com sua multidão de artistas. Ele poderia concorrer ao Guinness como o homem que mais convenceu pessoas a tirarem, de graça, a roupa para ele. Sua lábia não tem charme algum: é de um pragmatismo típico americano. "Eu vou para as ruas com panfletos explicando meu trabalho e convidando as pessoas interessadas em posar nuas", revela. Na primeira vez distribuiu 150 convites em Nova York e no dia-D surpreendeu-se com 28 voluntários. "Quando vi toda aquela gente resolvi ampliar meus horizontes." Na panfletagem seguinte, ele partiu para 750 santinhos, que lhe valeram 150 pessoas. Daí pra frente a média mantém-se a mesma. São pessoas dos mais variados patamares sociais, étnicos ou mesmo estéticos. "Não recuso ninguém: aceito qualquer corpo", diz o insaciável lambe-lambe.

Esta compulsão, porém, está ameaçada de cura compulsória. Giuliani promete colocar uma camisa-de-força na loucura exibicionista. Imagine que uma das acusações é a de que o artista estaria "expondo pessoas". O que significa isso? "Eu tento fazer isso todas as semanas", disse o jornalista conservador William Safire no Times. É o auto-intitulado "libertário", defendendo o libertino. E não é à toa: nesta cidade cada vez mais reprimida, Spencer é apenas um flautista de Hamelin de fim de milênio. Só que em vez de levar na flauta crianças para o rio Weser, leva-as para o asfalto de Nova York.


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