Medicina & Bem-estar

Guerra declarada

A chegada da pílula Cellasene reforça o arsenal de combate à celulite, mal cada vez mais sob controle

Dizem que até a Sharon Stone tem. Também, pudera. As bocas femininas juram que nove entre dez mulheres têm celulite, um pesadelo capaz de tirar o bom humor de qualquer mulher às vésperas de uma temporada na praia. Pode ser um pouco de exagero, mas é raro uma mulher que não tenha os temíveis furinhos no bumbum, coxas e culotes. É muita gente. E ávida por um milagre, uma espécie de Santo Graal da beleza que poderia ser, por exemplo, uma pílula mágica capaz de fazer desaparecer numa única dose esse tormento. Esse remédio não existe, mas para a alegria feminina a medicina estética está oferecendo cada vez mais opções contra o problema. A última novidade, que começa a desembarcar no Brasil, é o Cellasene, um comprimido à base de extratos naturais como a gingko biloba, a centella asiática e as sementes de uvas secas.

O remédio é a nova sensação do mercado farmacêutico. Em 1994, quando foi lançado na Itália, ele passou despercebido. Mas, no final do ano passado, provocou estrondo mundial ao ser liberado na Austrália. Cerca de 100 mil caixas do produto saíram das prateleiras em apenas um dia. O Cellasene também está causando uma corrida frenética às farmácias de mais 12 países. Entre eles, Inglaterra, França e Suíça. Nos Estados Unidos a pílula não pode ser vendida como remédio porque não foi aprovada pela Food and Drug Administration, órgão americano que regulamenta alimentos e medicamentos. Mas há um mês vem sendo comercializada como suplemento alimentar e já entupiu a Internet de pedidos. A venda nas farmácias brasileiras ainda não acontece porque não há pedido de registro no Ministério da Saúde, mas chovem encomendas de mulheres dispostas a desembolsar cerca de R$ 98 pelo produto nas importadoras. De acordo com o fabricante do remédio, a Medestea Internazionale, em Turim, na Itália, mais de oito milhões de caixas (cada uma com 30 comprimidos vermelhos) já foram vendidas desde o seu lançamento. Três milhões só neste ano. O sucesso rendeu ao produto o título de Viagra da celulite, numa referência ao remédio contra a impotência que, em um ano, vendeu seis milhões de caixas.

Qual o segredo de tanto sucesso? Resposta simples, segundo o seu criador, o químico italiano Gianfranco Merizzi: o Cellasene reduziria ou eliminaria a celulite. O raciocínio que sustenta a afirmação, pelo menos em tese, é compreensível. A celulite se origina a partir do mau funcionamento das células de gordura (adipócitos), que passam a reter mais líquidos e toxinas, crescem e comprimem os vasos sanguíneos e linfáticos da região. Os primeiros são importantes para oxigenar o tecido, enquanto os segundos carregam as toxinas celulares para serem eliminadas pelo organismo. O Cellasene protegeria essa rede de irrigação, estimularia o metabolismo das células de gordura e evitaria alterações no tecido conjuntivo (camada da pele formada pela derme e hipoderme, onde a celulite se forma). Bingo? Ainda não se sabe. No Brasil, os médicos preferem se manter numa espécie de entusiasmo cauteloso. A dermatologista Shirlei Borelli, da Faculdade de Medicina do ABC (Grande São Paulo), por exemplo, está indicando o produto há três meses. "Os resultados têm sido bons, mas acredito que só o medicamento é pouco", diz.

O cuidado da médica é justificável. Sabe-se que a celulite é um problema causado por vários fatores. Os genéticos e os hormonais são os mais importantes. O estrógeno, um dos hormônios responsáveis pelas curvas do corpo feminino, é um dos principais culpados pela presença da celulite (é por causa dele que o problema atinge prioritariamente as mulheres). Ele dificulta a circulação sanguínea e favorece o acúmulo de gordura na região do quadril e das pernas. Falta de exercício físico, alimentação inadequada e stress agravam o quadro porque contribuem para o acúmulo de gordura. "O sedentarismo pode desencadear problemas vasculares", explica o endocrinologista Geraldo Medeiros-Neto, professor da Universidade de São Paulo.

Sem distinção Pessoas gordas têm mais tendência a desenvolver a celulite porque o problema tem a ver com o tecido gorduroso. "Mas magras também podem ter porque celulite não é só excesso de gordura. É uma alteração de toda a estrutura do tecido", esclarece Denise Steiner, dermatologista paulista. Fumar e tomar pílula anticoncepcional também fazem mal. O alcatrão e a nicotina contraem a parede dos vasos atrapalhando a circulação do sangue. A pílula anticoncepcional, que contém estrógeno, reforça a ação do hormônio no corpo. O complexo sistema de formação da celulite conta ainda com forte componente psicológico. "Há quem desenvolva celulite por conflito emocional", diz Ediléia Bagatin, dermatologista da Universidade Federal de São Paulo. "Pessoas deprimidas tendem a comer mais e a não fazer atividade física", frisa Ediléia.

Por causa dessa incrível complexidade, fica difícil imaginar que uma única pílula, como o Cellasene, seja capaz de dar um tiro de misericórdia na celulite. Na verdade, o que especialistas apostam cada vez mais para domar esse vilão é um tratamento amplo, que inclua mudanças nos hábitos físicos e alimentares e conte com a mãozinha de uma das técnicas disponíveis. Essas invenções podem ser utilizadas em conjunto, dependendo das causas e do grau do problema. Se tudo for feito como se deve, os especialistas garantem que é possível, sim, fazer desaparecer quase que totalmente os odiados furinhos. A eficácia dos tratamentos, de acordo com os médicos, chega a 70%.

Pesquisas De fato, hoje já é possível encontrar centenas de mulheres felizes por terem amenizado a celulite, como revelam os depoimentos ao longo dessa reportagem. Mas nesse mercado rico em invenções, é fundamental saber separar o joio do trigo. E nessa tarefa, as mulheres têm algo a comemorar: pela primeira vez a celulite está deixando de ser apenas conversa de salão de cabeleireiro para virar objeto de estudo nas universidades. No Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo (USP), o cirurgião plástico Maurício de Maio conduz há um ano um estudo para checar os métodos químicos, elétricos e manuais mais eficazes para controlar o mal. Entre eles, o ultra-som, a drenagem linfática, os cremes tópicos e a eletrolipoforese. Mais de 50 mulheres, divididas em diversos grupos (cada um submetido a um tipo de tratamento ou a uma combinação deles), estão sendo acompanhadas. "Priorizei o que já está no mercado há algum tempo e o que tem estudo a respeito", diz De Maio. O médico ressalta que antes de iniciar os testes as pacientes passaram por uma avaliação clínica e foram orientadas a modificar a alimentação e a praticar alguma atividade física. Os resultados serão obtidos pelas medidas corporais e por análises fotográficas comparando o início e o fim do tratamento. Por enquanto não existem dados preliminares.

Na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o grupo de dermatologia testa desde o final do ano passado, em 20 mulheres, a subcisão, indicada para o grau mais avançado da celulite. Mas até agora um dos únicos estudos concluídos no Brasil é uma tese de mestrado defendida pela dermatologista Ana Beatriz Rodrigues Rossi na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ela avaliou 75 voluntárias, de 14 a 45 anos. Durante 90 dias as mulheres usaram um creme formulado com os princípios ativos habitualmente

usados nos cosméticos com a finalidade de tratar a celulite (silício, centella asiática e gingko biloba). Os produtos decepcionaram. "Na biópsia da pele, verificamos que não houve melhora", afirma Ana Beatriz. "Mas pode ser que se o tratamento fosse mais prolongado houvesse mudanças", ressalva.

Boa expectativa A pesquisa de Ana Beatriz pode não ter revelado bons resultados. São iniciativas como essas, no entanto, que permitem vislumbrar uma expectativa otimista no controle da celulite, um problema que – embora pareça folclórico – pode prejudicar a mulher até na cama. "Algumas só conseguem transar no escuro", revela Shirlei Borelli, que coordenou uma pesquisa realizada em 1995 na Faculdade de Medicina do ABC. Homens e mulheres participaram do trabalho. O objetivo era descobrir o quanto a celulite pode incomodar alguém. Shirlei concluiu que os homens não se importam com a presença dos pequenos nódulos nas mulheres. Na realidade, porém, pode não ser bem assim. "Eles podem não se queixar, mas os símbolos sexuais que idolatram são os das revistas masculinas. Isto é, o objeto de desejo do homem não tem celulite", analisa Táki Cordás, psiquiatra do Hospital das Clínicas. Já as mulheres se sentem ameaçadas. Ter celulite significa contar com um ponto a menos em relação a outras mulheres no poder de sedução do sexo oposto. "A celulite é a aparência da gordura e se contrapõe ao que se deseja atualmente, que é o corpo malhado", afirma Cordás. Mas quem disse que não é próprio da mulher ter celulite, assim como é do homem ter pêlos e ficar calvo? Pode até ser, mas a sociedade exige que a mulher se cuide. "A celulite só virou um problema porque a sociedade cobra um corpo perfeito. Não sei por que as mulheres aceitam isso", pondera José Carlos Cabral, endocrinologista do Centro Médico Barra Shopping, no Rio. Felizmente, controlar a celulite tem se mostrado muito mais fácil do que transformar o padrão de beleza vigente. Os cuidados estão cada vez mais ao alcance feminino e têm dado resultado. "Embora necessite de um tratamento contínuo, a celulite está sob controle", diz Wilmar Accursio, endocrinologista de São Paulo. Ainda bem.

Colaboraram: Clarisse Meireles, Valéria Propato e Celina Côrtes (RJ)

 

"O Cellasene cura"

O italiano Gianfranco Merizzi, 47 anos, é o criador do Cellasene. Graduado pela Universidade de Turim, na Itália, o químico assegura que o remédio é poderoso. Da Itália, ele respondeu por fax a ISTOÉ:

ISTOÉ – O Cellasene é a cura da celulite?
Merizzi – Sim, mas ela pode voltar depois de um tempo.

ISTOÉ – Qual a base científica da pílula?
Merizzi – Um profundo trabalho sobre as causas e a evolução da celulite. E os extratos utilizados no produto são 200 vezes mais concentrados do que o normal.

ISTOÉ – E os estudos clínicos?
Merizzi – Testes na universidade de Pavia (Itália) confirmaram sua eficácia.

ISTOÉ – O que o sr. tem a dizer para as pessoas que criticam o seu trabalho, afirmando que não tem base científica?
Merizzi – Ou elas não sabem o que é celulite ou desconhecem os resultados dos estudos que fizemos na universidade de Pavia.

"Essa pílula é um absurdo"

O endocrinologista Geraldo Medeiros-Neto, da USP, é crítico feroz de alguns métodos contra a celulite.

ISTOÉ – O que o sr. acha do Cellasene?
Medeiros – É um absurdo. Quem é que gasta R$ 100 para comprar isso? Eu vi na Itália. Não tem efeito.

ISTOÉ – E os estudos que já foram realizados?
Medeiros – Me mostre algo sério que tenha sido apresentado em trabalhos internacionais. O Cellasene não ataca os pontos cardeais da celulite (hormônios, genética, má alimentação e falta de exercício.)

ISTOÉ – E quanto aos outros tratamentos?
Medeiros – Aceito a drenagem linfática, o ultra-som e a endermologia. Me insurjo contra métodos invasivos, como a mesoterapia. Não é dito à paciente o remédio usado. Isso é antiético.

ISTOÉ – Mas adianta?
Medeiros – Nada. O indivíduo que aplica as injeções muda, espertamente, a dieta da paciente e receita remédios como vasodilatadores. Depois, tem a coragem de dizer que foram as injeções que resolveram o problema.

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