Artes Visuais

Rito de passagem

Retrospectiva de vídeos define a transição de Anna Bella Geiger da arte moderna para a arte contemporânea

Rito de passagem

Assista a um trecho do vídeo "Passagens nº 1", da artista carioca Anna Bella Geiger

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MEMóRIA Inédita, a videoinstalação “Circa III” se refere à história da arte

Os vídeos da série “Passagens”, da artista carioca Anna Bella Geiger, são considerados o marco inicial da videoarte brasileira. Em 1974, ano em que o vídeo começa a ser usado como meio de expressão estética no Brasil, Anna Bella está entre os poucos (mais especificamente, quatro) artistas brasileiros que têm acesso ao primeiro equipamento “Portapak” trazido dos Estados Unidos para estas terras. Seu primeiro trabalho nesse meio, “Passagens nº 1” (1974), que mostra a artista subindo escadarias do Rio de Janeiro, integra a retrospectiva no Oi Futuro, ao lado de diversos vídeos dos anos pioneiros e de quatro videoinstalações recentes. “Em ‘Passagens’ é como se eu produzisse uma escritura com meu próprio corpo, é como se caminhasse nas páginas de um caderno de anotações”, diz Anna Bella, que nos anos 1970 tinha uma produção intensa de desenhos, gravuras e livros de artista.

Os anos em que os artistas brasileiros começaram a utilizar o vídeo foram anos de virada da arte. Virada de um momento dominado pela pintura abstrata para anos de experimentalismo com novos meios e suportes; um momento em que a atividade artística se desloca de seu lugar conhecido (a pintura, a escultura, a gravura) e passa a se confundir com a vida cotidiana. Esse é o momento de transição da arte moderna para a arte contemporânea. “Poucos artistas experimentaram a passagem do moderno para o contemporâneo no seu próprio processo de trabalho. Anna Bella Geiger é um deles”, afirma o curador Fernando Cocchiarale, que também pertence à primeira geração da videoarte no Brasil. “Alguns artistas, como Hélio Oiticica e Lygia Clark, foram buscar a cumplicidade com o espectador. Já Anna Bella Geiger, talvez por vir da abstração informal, mergulha na autorreflexão”, continua Cocchiarale.

A exposição divide-se em duas partes: a primeira reúne os vídeos que o curador atribui à fase “autorreflexiva”, utilizados como “cadernos de anotações” sobre o papel do artista no então novo contexto da arte contemporânea. A segunda parte é composta por videoinstalações dos anos 80, 90 e 2000. Embora mais enigmáticos, esses trabalhos trazem à tona pelo menos duas chaves para entender a arte hoje: os arquivos e os mapas. Com a memória como tema, os mais recentes, “Circa III” e “Circa IV” (2009), fazem uma crítica aos espaços museográficos e catalográficos da arte e da história.