Entrevista

José Goldemberg

País de segunda classe

País de segunda classe

José Goldemberg critica a falta de investimento em pesquisa, diz que FHC está desmontando a universidade pública e que Paulo Renato é medíocre

ANGÉLICA WIEDERHECKER
Edição 05/05/1999 - nº 1544


Pode-se dizer que o professor José Goldemberg já ocupou os postos mais prestigiados na área da educação e da pesquisa. Foi reitor da Universidade de São Paulo (USP), presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), secretário estadual de Educação e ministro. Para muitos, a mácula em seu currículo foi ter chefiado o Ministério da Educação durante o governo do ex-presidente Fernando Collor de Mello, afastado do Palácio do Planalto em meio a um rumoroso processo de impeachment, passagem a que Goldemberg se refere, resumidamente, como "aquela confusão". Físico por formação, o professor que integra diversas agremiações internacionais para cientistas, é um especialista em educação. Insatisfeito com o tratamento dispensado pelo governo de Fernando Henrique Cardoso ao setor, ele afirma, em entrevista a ISTOÉ, que hoje não há perspectiva real de o país se inserir num contexto de modernidade. Autor de livros sobre energia, Goldemberg também discorda da forma como foi feita a privatização do setor elétrico no País. Para ele, os órgãos reguladores vêm sendo criados a reboque do processo e garante que o governo cometeu um erro ao transferir o controle de operações a uma empresa privada, a ONS.

ISTOÉ – Como o sr. vê a educação no Brasil de hoje depois de quatro anos de um professor na Presidência?
José Goldemberg

Há hoje cerca de 18% de analfabetos, um número grave que faz do Brasil um dos países com mais altos índices de analfabetismo no mundo. Os ministros da Educação se sucedem por aí, argumentam sempre que conseguem reduzir a taxa de analfabetismo. Isso é propaganda. A taxa cai efetivamente cerca de 1% ao ano porque o contingente de analfabetos vai morrendo.
 

ISTOÉ – Qual é o problema do ensino primário?
José Goldemberg

O grande problema é que 95% dos jovens e crianças em idade escolar vão à escola, mas não ficam nela. Depois de dois ou três anos, eles saem por razões sociais. Nas zonas rurais eles são mão-de-obra para ajudar na colheita e nas urbanas acabam trabalhando também para ajudar os pais. Um dos principais progressos nesse campo foi criado por Cristovam Buarque, ex-governador do Distrito Federal, que premiava as famílias que mantinham seus filhos na escola.
 

ISTOÉ – E qual é a sua avaliação do ministro Paulo Renato Souza?
José Goldemberg

 O que o ministro da Educação fez nos primeiros quatro anos foi interessante porque, apesar de haver verbas destinadas ao ensino, a distribuição é extremamente perversa. O governo Fernando Henrique fez uma coisa boa, pegando parte dos 25% da arrecadação de impostos reservados à educação e fazendo o fundão. Estes recursos são distribuídos de acordo com a população em idade escolar.
 

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ISTOÉ – O governo Fernando Henrique tem política para a educação?
José Goldemberg

Esse pessoal está começando o segundo mandato como se estivesse começando o primeiro. Quando acabar o mandato eles vão dizer que se forem eleitos de novo farão o que já deveriam ter feito. Isso eu acho odioso, porque esse pessoal do PSDB é um pouco melhor, mais culto, mais educado. Mas eles não diferem muito do comportamento de outros que já tivemos aí.
 

ISTOÉ – Que papel o governo federal deveria desempenhar na municipalização do ensino?
José Goldemberg

O Fernando Henrique deveria ter usado os consideráveis poderes de persuasão que tem para colocar esta questão como prioridade de governo, para tentar ajudar. Há instrumentos para tal. O Ministério da Educação tem alguns, como os recursos para merenda e construções escolares. São fundos de cerca de US$ 1 bilhão. Então você pode pressionar o governador ou o prefeito. O que precisa é liderança dos governadores e não sei por que não fazem isso… deve ser uma medida do quão ruim eles são. Eles não se dão conta de que nas eleições as pessoas se preocupam com as crianças.

ISTOÉ – E o ensino médio e universitário?
José Goldemberg

O governo tem muito pouco a ver com o ensino médio porque sua maior parte é privada. As universidades é que são o pepino. A situação do governo federal é mais ou menos trágica porque o pessoal da universidade são os grandes formadores de opinião. Normalmente, eles são dominados pelo PT, uma parcela grande dos professores. É uma das últimas empresas estatais que sobraram no Brasil. É curioso que um governo de centro-direita como é o nosso não tenha feito um esforço para conquistar esses formadores de opinião. A situação nas universidades ainda é malvista pela área econômica que é completamente neoliberal e acha que tem de privatizar esse negócio. Por isso a UNE e os estudantes vivem neuróticos com isso.
 

ISTOÉ – E o ensino médio e universitário?
José Goldemberg

O governo tem muito pouco a ver com o ensino médio porque sua maior parte é privada. As universidades é que são o pepino. A situação do governo federal é mais ou menos trágica porque o pessoal da universidade são os grandes formadores de opinião. Normalmente, eles são dominados pelo PT, uma parcela grande dos professores. É uma das últimas empresas estatais que sobraram no Brasil. É curioso que um governo de centro-direita como é o nosso não tenha feito um esforço para conquistar esses formadores de opinião. A situação nas universidades ainda é malvista pela área econômica que é completamente neoliberal e acha que tem de privatizar esse negócio. Por isso a UNE e os estudantes vivem neuróticos com isso.
 

ISTOÉ – Recentemente, inclusive, o presidente deu uma entrevista desmentindo a possibilidade de privatizar o ensino de terceiro grau… .
José Goldemberg

Não é que o governo pretenda privatizar. A privatização já está ocorrendo há 15 anos. Atualmente existem nas escolas superiores aproximadamente 1,5 milhão de estudantes. Destes, 1 milhão está em universidades particulares e eles são as pessoas que mais precisam do ensino público. E quem são estas pessoas? São caixas de banco, secretárias. A privatização está ocorrendo, já ocorreu e as pessoas que estão nas universidades públicas acabam sendo caracterizadas como aquelas que estão vivendo um privilégio. O governo aparentemente se convenceu de que não deu, que perdeu a batalha, ficou imobilista

ISTOÉ – E a possibilidade de as universidades buscarem receitas próprias?
José Goldemberg

É como a maioria das universidades americanas funciona. Isso depende de elas realizarem pesquisas que sejam de efetivo valor para o setor produtivo. Na medida em que você toma uma atitude derrotista diante do desenvolvimento do Brasil, as empresas multinacionais investem em seus laboratórios lá fora.

ISTOÉ – Isso quer dizer que a universidade não está ligada nas expectativas do setor privado?
José Goldemberg

Esse é um dos problemas hoje. O sistema atual é confortável para as universidades, num nível baixo, com garantias de aposentadoria e salário, com forte corporativismo; e em compensação fica nesta situação de baixo desempenho.
 

ISTOÉ – O governo em algum momento chegou a entrar na batalha pela melhoria das universidades públicas?
José Goldemberg

Eu acho que não. Porque só há uma solução para o problema das universidades públicas e não é a privatização. A universidade pública significa oportunidades para todos. Na França, até 1789 as universidades eram para a aristocracia, só a Revolução Francesa abriu isso. E até implantar levou um século. No Brasil foi copiado o modelo e o governo deixou elas minguarem. É verdade que se tornaram extremamente ineficientes, pesadas, dominadas pelo corporativismo. Mas não adianta chorar pelo leite derramado, é preciso enfrentar. A USP, por exemplo, que é provavelmente a única universidade brasileira que funciona relativamente bem, se explica pela autonomia de recursos que conseguiu. Há dez anos, negociamos com o governo do Estado, que transfere uma verba global que a universidade administra. Se ela quiser, paga mais ou menos aos professores.
 

ISTOÉ – A autonomia então é metade do caminho andado para que se resolva o problema das universidades?
José Goldemberg

Sim. E o governo federal fez n-a-d-a. Nada.

ISTOÉ – E por que não fez?
José Goldemberg

Não sei. Quando eu era ministro, nós mandamos uma proposta de emenda constitucional, propondo a autonomia das universidades. Depois com aquela confusão do Collor acabou não progredindo. O Paulo Renato não mandou outra durante quatro anos. Agora ele diz que vai mandar. Esse governo está começando agora, mas já tem cara de fim de governo. E não é só por causa da educação, é geral, não tem propostas novas. E, com a crise econômica, ele perdeu a melhor oportunidade. Na época em que o Real estava no auge, era mais fácil fazer as coisas. O governo não tem propostas. Parece que uma das razões para que o governo não tenha propostas é que a área econômica não deseja marcar recursos do Orçamento.
 

ISTOÉ – Sob a alegação de que o Orçamento fica engessado…
José Goldemberg

Conversa de economista. A área econômica quer ter liberdade para dizer que neste ano esses recursos vão para a educação, no ano que vem para a agricultura… Do jeito que está a educação no Brasil, nem em 25 anos você vai resolver o problema.

ISTOÉ – O governo tem promovido cortes sucessivos nas verbas de educação e pesquisa. Diante disso, qual é a chance de o país se inserir no cenário de modernidade que o governo tanto fala? .
José Goldemberg

Não há esta perspectiva. A perspectiva é ficar caudatário de uma Alca ou Nafta qualquer. Porque no fundo o que foi feito entre o México e os Estados Unidos foi uma divisão de mercado

ISTOÉ – Na avaliação de quem já foi presidente da SBPC, o sr. acha que a pesquisa no Brasil precisa de investimentos maciços?
José Goldemberg

 Sim, mas com visão mais a longo prazo, que é o que a gente faz aqui na USP. O que seria preciso no Brasil seria mais USPs. O Bresser Pereira (ministro da Ciência e Tecnologia) outro dia disse que na situação econômica em que o Brasil está a pesquisa científica é um luxo. Na situação econômica em que o Brasil está se não fizer investimentos com vistas a longo prazo, ele vai ficar no curto prazo. Isso corresponde à ideologia de várias pessoas no poder, de que o País não precisa de ciência e tecnologia. No mundo integral e neoliberal, para quê?
 

ISTOÉ – Não é contraditório que o governo comandado por um intelectual não dê atenção ao ensino e à pesquisa?
José Goldemberg

É contraditório. Mas não sei se eles se convenceram de que o sistema neoliberal vai acabar criando países de primeira e de segunda classe, sob a égide do império americano.
 

ISTOÉ – O governo se conformou com o País na segunda classe?
José Goldemberg

É a minha leitura. Neste ponto políticos folclóricos como Brizola falam coisas que são surpreendentemente corretas. Não concordo quando ele diz que não se deve privatizar a Vale do Rio Doce, mas há outras coisas que precisam estar nas mãos do governo.
 

ISTOÉ – Como o que, por exemplo?
José Goldemberg

O sistema regulatório, que ele criou post factum, à deriva do processo.

ISTOÉ – Quais foram os erros no processo de privatização do setor elétrico?
José Goldemberg

 O governo não levou em conta que o país não é um país pronto, mas está crescendo e portanto é preciso haver planejamento. No momento, não há um órgão encarregado do planejamento do setor elétrico.
 

ISTOÉ – O recente blecaute pode ser entendido como um sinal de que a privatização do setor pode ser mais problemática do que se pensa?
José Goldemberg

Primeiro, o governo inventou uma teoria fantasiosa de que caiu um raio em Bauru, quando parece que a realidade é muito mais trivial, já que parece que ocorreu um erro de operação. Veja o que o governo fez sem alarde algum. Ele havia transferido todo o controle das operações para uma empresa privada, a ONS, e agora adiou isso por um ano. A imprensa perdeu um prato maravilhoso com isso, comeu um frango. Há coisas que você não transfere para o setor privado, é isso. E as universidades são parte deste processo. A UNE tem idéias paranóicas. Não acho que o governo tenha idéia preconcebida de privatizar as universidades, embora ela esteja ocorrendo na prática.
 

ISTOÉ – O sr. acha que o provão é a melhor forma de avaliar a qualidade das universidades?
José Goldemberg

Nunca me impressionei muito com este provão. Há um argumento que diz que esta é uma maneira muito ruim de medir o desempenho da faculdade porque os alunos já são egressos e não têm compromisso com a instituição. É um argumento válido. O provão teria credibilidade se fosse cassada a licença de funcionamento de alguma universidade, o que não aconteceu porque o Ministério negocia, cede. Outro argumento usado em seu favor é que se o provão não for feito, quem vai classificar as universidades é a revista Playboy.
 

ISTOÉ – O provão e a tentativa de municipalização do ensino foram duas das iniciativas de maior destaque do Ministério na gestão de Paulo Renato de Souza. Ao criticá-las, o sr. está considerando seu desempenho medíocre?
José Goldemberg

É. Esta é minha avaliação. E ele não gosta de ouvir isto, te asseguro.

ISTOÉ – O sr. acredita que fornecer computador e outros equipamentos modernos às escolas ajuda a resolver o problema de qualidade do ensino?
José Goldemberg

 Não há um substituto para um bom professor. Computador é um instrumento auxiliar da educação.

ISTOÉ – Como o sr. vê os investimentos nas usinas nucleares de Angra?
José Goldemberg

 Estão pensando em reativar Angra II, que é o terceiro reator nuclear. Acho que é por pressão de grupos econômicos interessados. Não acho adequado. Os investimentos deveriam ser dirigidos em outras direções. É preciso acabar as obras hidrelétricas. Há mais de 15 usinas hidrelétricas em construção que precisariam ser concluídas, os recursos do governo deveriam servir para isso. O argumento usado para reativar Angra II é de que se isto não for feito, vai haver blecaute. Conversa, o blecaute que tivemos foi por causa de erros de operação. Os empreiteiros que querem construir coisas usam isto como argumento para construir mais.
 

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