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Uivando de ódio

Neonazistas detonam duas bombas em Londres e reacendem a paranóia dos ataques terroristas

Desde a Sexta-feira Santa de 1998, quando foi assinado o acordo de paz para a Irlanda do Norte, os moradores de Londres estavam conseguindo superar a paranóia de bombas – quem já visitou a capital britânica conhece bem os avisos para chamar a polícia no ato, caso exista um pacote ou mala desacompanhada num local público. O cessar-fogo entre protestantes e católicos continua firme, mas os londrinos estão enfrentando uma nova onda de explosões detonadas por motivos bem diferentes. Em dois sábados consecutivos de abril, bombas de prego de fabricação caseira fizeram reviver as cenas de pessoas ensanguentadas e automóveis destruídos. A primeira explodiu no dia 17 num centro de compras do bairro de Brixton, que abriga uma grande população negra. Na semana seguinte, o alvo foi uma tradicional feira livre em Brick Lane, na região leste de Londres, uma rua que concentra os imigrantes de Bangladesh. Os dois explosivos provocaram ferimentos em 45 pessoas, entre elas várias crianças. Até o final da semana ninguém tinha sido preso, mas a Scotland Yard não tem dúvidas: os autores dos atentados são ligados a grupelhos neonazistas.

As suspeitas se concentram em Del O’Connor, líder de uma gangue neonazista intitulada os Lobos Brancos, uma dissidência de um outro grupo de extrema direita britânico, o Combate 18. O inglês O’Connor, 39 anos, tem um currículo de fazer babar qualquer aspirante a skinhead. Nos velhos tempos, foi hooligan do Chelsea, um time de futebol de Londres. A partir do final da década de 70, se juntou a grupos neonazistas e estabeleceu laços com organizações nos países escandinavos e nos Estados Unidos, entre elas a Ku-Klux-Klan, de quem se tornou "agente de segurança" no Reino Unido. Durante alguns anos, liderou uma unidade do Combate 18 no Norte da Inglaterra até fundar no ano passado os Lobos Brancos – inspirados nos Lobisomens, a temida unidade de guerra nazista. O’Connor, que também cumpriu alguns anos de cadeia por motivos diversos, está desaparecido. Numa carta divulgada poucos dias antes da explosão em Brixton, os Lobos Brancos deram um recado sinistro: "Os judeus e não-brancos que permanecerem no país após o final de 1999 serão exterminados quando o relógio marcar a meia-noite do dia 31 de dezembro. Os Lobos Brancos vão começar a uivar. Você foi alertado."

Se comparados às organizações de extrema direita dos Estados Unidos, da França ou da Alemanha, os grupos fascistas britânicos são irrelevantes. O Combate 18 congrega, no máximo, 60 integrantes e os Lobos Brancos apenas meia dúzia. Até meados da década de 70, a extrema direita britânica, concentrada no partido da Frente Nacional, era mais encorpada. Mas a política antiimigração promovida pela ex-ministra Margaret Thatcher esvaziou as aspirações políticas dos grupos radicais. Enquanto na França a extrema direita arrebata mais de 10% dos votos, na Grã-Bretanha o número é de apenas 0,001%. Isso não significa que as relações raciais na ilha sejam totalmente mansas. Ao longo dos últimos meses, vários casos de violência contra negros vêm ocupando as primeiras páginas dos jornais. "O ódio racial não tem futuro em nosso país", afirmou o ministro do Interior, Jack Straw. Pode ser, mas, por cautela, muita gente vai ficar em casa nos próximos sábados.