Cultura

Chá fervendo

Escritores de todas as letras, disputam com afinco uma vaga na Academia Brasileira de Letras


Vestir aquele anacrônico e caríssimo fardão verde-escuro com galões dourados, inspirado na antiga farda do corpo diplomático, até hoje uniforme de gala da vetusta Academia Brasileira de Letras, sempre foi o supra-sumo da vaidade dos literatos nacionais. É certo que já houve muita gente com vergonha de envergá-lo fora dos limites da construção histórica, fundada por Machado de Assis em 1897, situada à rua Presidente Wilson, zona central do Rio de Janeiro. Houve um tempo em que o alagoano Ledo Ivo, por exemplo, antes de qualquer cerimônia escondia-se de todos que não fossem acadêmicos. Apesar das controvérsias, a pompa do traje ainda é, e por muito tempo será, elemento magnético entre os candidatos a imortais de todos os matizes e tendências. Atualmente são nove os postulantes à cadeira 17, deixada pelo filólogo Antonio Houaiss, falecido em 7 de março. Um deles é o amazonense Márcio de Sousa, presidente da Funarte, que de tão afoito para usar o traje ofereceu-se à vaga durante o enterro de Houaiss. Há quem, no entanto, pleiteie uma cadeira pensando em reestruturar as arraigadas bases acadêmicas. No caso é um fulgurante transexual, a mineira Rudy Pinho, 50 anos, autora de nove livros como Quando eu passo batom me embriago e o premiado In…confidências mineiras. Se eleita, Rudy já avisou que usará o longo de jérsei francês adotado pelas imortais. "A ABL está aberta a tirar o mofo e eu me ofereço a ajudar", sustenta a cabeleireira, atriz e escritora das madrugadas.

O resultado dessa eleição será anunciado no dia 22 de julho pelo atual presidente Arnaldo Niskier. É quando os felizardos passarão a pensar na posse engalanada. Nos últimos 20 anos o traje vem sendo assinado pelo simpático alfaiate italiano Francesco Rosalba, 75 anos, que assumiu a função indicado pelo cliente Marcos Vilaça. Desde então, ele produz a média de dois fardões anuais, a taxa média de mortalidade dos acadêmicos. Houve ano em que não morreu nenhum. Em compensação, no ano seguinte, foram quatro de uma só vez – aconteceu durante a gestão da única mulher presidente da ABL, Nélida Piñon, que por conta do fato foi tachada de pé-frio. Os R$ 30 mil da roupa costumam ser bancados pelos Estados ou pelas cidades nativas dos acadêmicos. Mas há quem tire a quantia do próprio bolso como Roberto Marinho, Ivo Pitanguy e Cândido Mendes de Almeida, que carrega a fama de sovina. Tudo em nome da vaidade.

Pelos nomes acima, não é difícil depurar que a ABL não se esforça em ter nos seus quadros gente estritamente ligada à literatura. Como segue os moldes da academia francesa, elegem-se notáveis, não necessariamente escritores ou poetas. Roberto Marinho, por exemplo, escreveu apenas um livro. À época da ditadura os imortais viram-se obrigados a engolir a candidatura e a eleição do general Lyra Tavares, cuja única obra literária foi um exemplar de poesias escrito na juventude sob o estranho pseudônimo de Adelita. Em troca, os militares garantiram ao falecido jornalista e escritor Austregésilo de Athayde – presidente-acadêmico por 36 anos consecutivos – o empréstimo da Caixa Econômica para a construção do espigão de 28 andares que leva seu nome, ao lado do Petit Trianon, sede da ABL doada pelo governo francês em 1923.

 

Mausoléu – O edifício é parte dos 38 imóveis pertencentes à academia, que ainda possui um mausoléu no Cemitério São João Batista, em Botafogo, zona sul carioca, para onde foram transferidos os restos mortais de Machado de Assis na quarta-feira 21, juntamente com os da sua mulher, Carolina. O mausoléu, doado pela Santa Casa e inaugurado em 1962, foi conquistado por Athayde, já que estava saindo caro para a ABL construir um túmulo para cada imortal. Foi a partir daí que ele ganhou o apelido de Austregésilo de Ataúde.

Vida de acadêmico é um mar de letras tranquilas. Para participar de uma sessão semanal cada um recebe o jetom de R$ 180, além dos R$ 200 mensais. A maior curtição de todos, porém, é o famoso chá das quintas-feiras, há cinco anos pilotado pela administradora Cecília Costa Silva. É dela a receita do propalado bolo inglês, além da introdução de guloseimas leves e de fácil digestão, que caíram no gosto dos intelectuais. "Quando não tem pastel, pão de queijo, bolo inglês ou de mandioca, todos reclamam", diz ela. O chá inglês preto, marca Twinings, é servido por um garçom em elegante serviço de prata. A porcelana é branca e azul, de procedência nacional. Os assuntos à mesa atiçam a política, tocam em reminiscências e chegam até os remédios. Raramente fala-se de literatura ou de possíveis candidaturas. Nessa eleição ainda não começaram a circular as habituais cartas anônimas demolidoras. Elas costumam revelar que o interessado bate na mulher (esposa de imortal tem muito prestígio na casa) ou passa cheques sem fundos.

Num futuro não distante um nome internacionalmente conhecido provavelmente vai gerar dúvidas preconceituosas. Ele é Paulo Coelho, 51 anos, 23,6 milhões de livros vendidos em todo o mundo até fevereiro último. Coelho já conversou com o presidente Niskier. Na ocasião cogitou como argumentos de peso à sua candidatura duas hipóteses de benemerência. Uma seria a doação de algo entre US$ 20 mil e US$ 30 mil pela Fundação Paulo Coelho, que permitiria à ABL publicar um grande dicionário sobre Machado de Assis. A outra seria a impressão na Itália dos melhores textos de todos os tempos já produzidos pelos acadêmicos. "Essa segunda opção me parece mais efetiva e já há sete editoras interessadas", especula o ex-eterno-mago, que se sentiu atraído "por uma das poucas instituições sérias do País". Ele só pretende tentar a eleição em cinco ou dez anos. Até lá, Paulo Coelho sabe, muitas tempestades hão de cair.

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Almanaque ABL

– O militar reformado Oliveiros Litrento, alagoano, 72 anos, mais de 20 livros publicados, já concorreu a imortal seis vezes. Em quatro delas retirou a candidatura por saber que não se elegeria. Chegou a alcançar dez votos e continua disposto a tentar.

– Em sua gestão, Josué Montelo recuperou o Petit Trianon fisicamente, com ênfase na restauração dos mictórios. Houve até acadêmicos que queriam batizá-los de Josué Montelo.

– Quando tomou posse, o paraibano Ariano Suassuna optou por um fardão confeccionado e bordado por costureiras do Recife. Foi chamado de jeca, mas nem se incomodou.

– Guimarães Rosa perdeu para José Lins do Rego em 1959, por 28 votos a 10. Quatro anos depois, em 1963, era eleito com 34 votos. Mas tinha uma superstição de que morreria se tomasse posse. Só assumiu a vaga em novembro de 1967 e faleceu dois dias depois.

– A diferença entre um candidato à academia e um acadêmico é abissal. O primeiro, vai até a festa de aniversário de netos de imortais. O segundo às vezes não vai sequer ao enterro de seus pares.

– Diz a lenda da ABL que o termo imortal vem de Olavo Bilac, que costumava dizer: "Somos imortais porque não temos onde cair mortos."

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