Medicina & Bem-estar

Suave terapia

Nova geração de medicamentos combate a depressão com efeitos colaterais mais amenos


Dona Rosa* abre o portão de casa na zona leste paulistana, deixa escapar um sorriso delicado e elogia a tarde ensolarada de outono. Senta no sofá e logo avisa: "Essa alegria é recente." A frase parece ter suprido sua necessidade de dar uma explicação. Nos últimos 15 anos, a cabeça de Dona Rosa, 54 anos, foi tomada de assalto, em várias ocasiões, por idéias complexas. Ela imaginava ter os passos vigiados por uma potente rede de satélites. O objetivo seria mapear sua rotina e usá-la como base na realização de novelas e programas televisivos. Acreditava com todas as forças nesta versão. Em questão de dias, suas convicções se desfaziam. E depois voltavam. E partiam novamente. Em dezembro passado, a vida de Dona Rosa ficou cinza de vez. Durante dois meses, o mundo parou. Cozinheira inspirada, levantava tarde, a contragosto, fazia "um arroz com bife improvisado" e voltava para o quarto. Cama. Uma volta rápida pela sala, à tarde. Cama. Um banho rápido à noite. Cama. Não via graça no marido, nos dois filhos, nos três netos, no jardim, em nada. "Ficava impressionada e assustada com o tempo perdido no colchão, mas não conseguia abandoná-lo", lembra. A depressão com componentes psicóticos e este último episódio depressivo roubaram um bom tempo da vida da simpática Dona Rosa. O tormento começou a diminuir em fevereiro, quando seu médico incluiu no tratamento a mirtazapina, uma das estrelas do novo grupo de medicamentos adotado por especialistas, nos últimos anos, na luta contra a depressão. Nesta safra, surgida após o sucesso do Prozac, badalado como a droga da felicidade, da perda de peso e até mesmo da ereção espontânea, estão, além da mirtazapina, drogas como o cloridrato de paroxetina, o citalopram, a venlafaxina e o cloridrato de sertralina.

Essa geração pós-Prozac aumenta o arsenal contra a doença, com a vantagem de apresentar efeitos colaterais mais amenos, se comparados aos produzidos pelos medicamentos de primeira geração, chamados tricíclicos. Um tratamento contra depressão dura, na média, de seis meses a dois anos, dependendo da gravidade. Além da doença, efeitos colaterais como náusea, vômitos, boca seca e, sobretudo, disfunções sexuais, fazem muita gente abandonar o tratamento. As pesquisas com estes novos medicamentos registraram muitos destes efeitos, mas em quantidade e intensidade bem menores.

Sofisticação As pílulas da alegria de Dona Rosa estimulam a liberação de serotonina pelo organismo sem afetar o desempenho sexual. A serotonina é uma das substâncias que fazem a comunicação entre os neurônios e está envolvida no processo de depressão. Mas a substância, ao chegar a um receptor dos neurônios chamado 5-HT-2, provoca disfunções sexuais como diminuição da libido, retardo na ejaculação, falta de orgasmo nas mulheres e até mesmo impotência. A mirtazapina ajuda na liberação da serotonina para aliviar a depressão. Mas, ao mesmo tempo, impede sua chegada ao receptor 5-HT-2. Com isso, não há disfunção sexual. "Esses resultados favorecem as terapias prolongadas e diminuem os índices de abandono da medicação", diz o psiquiatra Ricardo Moreno, coordenador do Grupo de Doenças Afetivas da Universidade de São Paulo (USP). Jack Gorman, psiquiatra da Columbia University, de Nova York, concorda. "A mirtazapina é uma droga sofisticada", admitiu a ISTOÉ. A contadora Sandra Buzzico, 35 anos, comprovou o poder de fogo da substância. Feliz no casamento, mãe de Bruna, uma bela menina de nove anos, Sandra começou a chorar pelos cantos da casa no ano passado. "Comia pouco e fugia das pessoas. Meu marido me levava a restaurantes, mas as coisas só pioravam." Em alguns momentos, Sandra chegou a pensar na morte como solução. O tratamento com a mirtazapina, iniciado em setembro passado, é mantido até hoje. Tudo parece ter voltado ao normal. Tudo mesmo. "A depressão afeta um pouco o desempenho sexual, não há como negar. Mas agora as coisas estão em ordem."

Outra droga do grupo, o cloridrato de paroxetina, acertou os trilhos e iluminou o caminho de João*, 59 anos, um requisitado arquiteto paulistano. Por muitos anos, ele enfrentou as crises depressivas de um parente muito próximo, vítima de distúrbio bipolar, um tipo de depressão marcado pela oscilação entre períodos de euforia e apatia. Em 1995, descobriu ser ele também uma vítima da doença. "Não tinha reação e nada me alegrava. Minha conversa era péssima e comecei a perder clientes. Era como se eu olhasse através das pessoas. Parecia uma lula – era incolor e escorregadio", ironiza. No ano passado, ainda reuniu forças para superar a morte da mãe e duas cirurgias, para a retirada de tumores na próstata e nos gânglios linfáticos. "Larguei o remédio na semana passada. Senti alguns efeitos colaterais no início, mas logo depois reagi bem", admite.

Apesar destes resultados animadores, vários fatores indicam: o mundo começa a entrar numa espécie de era da melancolia. As estatísticas assustam. "Na avaliação da Organização Mundial da Saúde, a depressão será, em 2020, a segunda causa mundial de perda de anos de vida saudável. Apenas as doenças cardíacas irão provocar estragos maiores", atesta a psiquiatra Alexandrina Meleiro, professora do Instituto de Psiquiatria da USP.

Ainda não se sabe exatamente qual a origem da depressão. Há um componente genético, mas não se consegue prever se ele irá se manifestar ou não. Três em cada dez deprimidos precisam abraçar outros tratamentos pois não respondem ao estímulo das drogas. Mesmo assim, é prudente buscar ajuda médica quando um estado com características depressivas resistir por mais de duas semanas. A psiquiatra Alexandrina Meleiro, a mais respeitada pesquisadora de temas relacionados ao suicídio no Brasil, vai direto ao ponto: "A chance de um deprimido tirar a própria vida é 35 vezes maior que a de uma pessoa saudável. Remédio para depressão não mata. Mortal pode ser a própria depressão." O recado é duro, mas oportuno.

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* Nomes trocados a pedido dos entrevistados

 

Livre, leve e verde

Um arbusto esquisito, considerado planta daninha na Europa e na Ásia, é a nova aposta dos especialistas em medicina natural para combater a depressão sem os efeitos colaterais da alopatia. Pesquisadores e fitoterapeutas garantem que as folhas e flores do hipérico (Hypericum performatum), também chamado de hipericão e Common St. John Wort, guardam um forte poder antidepressivo, calmante, antiirritante e sedativo. Os mais eufóricos o batizaram de Prozac verde. "Vários estudos publicados em revistas científicas européias e americanas mostram que o hipérico abriga dezenas de substâncias ativas que criam um efeito antidepresssivo comparado aos tricíclicos, as drogas alopáticas de primeira geração", afirma o homeopata e fitoterapeuta Luiz Antônio Costa. "O principal deles é a hipericina, que age nos neurotransmissores serotonina e noradrenalina", completa o médico.

A principal vantagem, segundo os especialistas, é a ausência quase total de efeitos colaterais. O hipérico cresce em lugares com sombra e chega a atingir 80 centímetros de altura. Na Idade Média, acreditava-se que a planta possuía poderes mágicos, capazes de purificar o ar, expulsar os maus espíritos e espantar o azar. Hoje, sabe-se que a planta não chega a fazer milagres, mas seus efeitos continuam encantando muita gente. A dona de casa paranaense Terezinha Romanez, 42 anos, garante ter curado uma depressão moderada com o medicamento, receitado por um fitoterapeuta indicado por sua irmã. "Fico feliz porque resolvi meus problemas sem os efeitos colaterais de um remédio alopático", afirma ela. Os que dispensam orientação médica para consumir remédios fitoterápicos devem mudar de idéia e seguir o exemplo de Terezinha. "Automedicação é sempre um péssimo negócio", decreta o médico Luiz Antônio Costa.

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