Brasil

I rascunho de Cacciola

Novos documentos encontrados na casa do dono do Marka vão ajudar senadores a rastrear o caminho do dinheiro enviado para contas no Exterior


O comando da CPI dos Bancos encontrou uma nova linha de apuração sobre o destino do dinheiro remetido para o Exterior pelo ex-banqueiro Salvatore Cacciola. Três folhas manuscritas apreendidas pelo Ministério Público na casa do dono do Marka, com números que indicam movimentação financeira, chamaram a atenção dos senadores. Na avaliação do senador Jader Barbalho (PMDB-PA), patrono da CPI, pode estar aí uma boa pista para se começar a desvendar o esquema de venda de informações privilegiadas do BC. Em meio à papelada, foi encontrada uma folha manuscrita intitulada "C/Corrente Guga", que mostra um saldo de 709 mil (não está especificado se em reais ou dólares), junto com a descrição de toda uma movimentação bancária que passa por bancos suíços e americanos. Assessores técnicos da CPI já estão no rastro desse passeio de dinheiro pelo Exterior. Tudo indica que outro manuscrito apreendido é a contabilidade do próprio Cacciola. Em nome de Alberto, uma série de entradas e saídas de recursos resultam num saldo de 4,3 milhões em 1º de março de 1999 – um mês e meio depois da falência do Banco Marka.

Guga, provavelmente é um dos diretores-executivos do Marka, Gustavo Wanderley de Freitas. Num primeiro momento, os membros chegaram a suspeitar que fosse o apelido de Luiz Augusto Bragança. Mas, perguntado na CPI sobre seu apelido, ele disse que costuma ser chamado de "Gugu". De qualquer maneira, as anotações de Cacciola, com números de contas no Exterior, facilitarão o trabalho de rastreamento dos US$ 17 milhões que o Marka conseguiu mandar para sua subsidiária nas ilhas Cayman antes da quebra do banco. A suspeita do comando da CPI é de que, se Cacciola pagou propina para algum funcionário do governo, o dinheiro saiu dessa remessa, numa operação triangulada para outra conta lá fora.

Os senadores não têm expectativa de conseguir grandes revelações no depoimento de Cacciola, que deverá ocorrer na primeira quinzena de maio. A CPI ainda insiste em ouvir o ex-presidente do BC Chico Lopes. Na quinta-feira 29, os advogados já admitiam a possibilidade de ele assinar o termo de compromisso se for novamente convocado. Não querem repetir a cena da segunda-feira 26, quando Lopes se negou a assinar o termo e acabou saindo preso do Congresso. Ele não queria depor, mas pretendia justificar os motivos do seu silêncio. ISTOÉ teve acesso a esse documento. Nele, o ex-presidente do BC não se defende de nenhuma das acusações, mas se diz vítima de uma injustiça. "A execração pública de que fui vítima nos últimos dias atingiu-me profundamente. Minha alma está quebrada… Jamais tive nenhuma vocação para ser um vendilhão do templo." Em outro trecho, Lopes deixa claro que a estratégia dos seus advogados é deixar a sua defesa para a Justiça, onde estará livre dos holofotes da CPI. "E é por acreditar que ao final de tudo, todos os fatos – e não somente parte deles – serão julgados sob égide da serenidade é que transmito a Vossa Excelência, o presidente desta CPI, requerimento feito por meus advogados, invocando o sagrado preceito previsto na Constituição do direito de silêncio."

Se o silêncio de Lopes ao Senado não contribuiu para o avanço das investigações, as sete horas do monótono depoimento na noite da última terça-feira 27 do ex-diretor de Fiscalização Cláudio Mauch também nada acrescentou. Teve um motivo para isso. Na segunda-feira 12, Chico Lopes promoveu uma reunião em São Paulo com três ex-diretores do BC – Demosthénes Madureira, Cláudio Mauch e Carlos Eduardo Tavares de Andrade – para afinar um discurso de defesa para a decisão de vender dólares em condições especialíssimas a Cacciola. Para todos eles, tudo foi normal e legal. Na quarta-feira 28, o economista Rubem Novaes, apontado como intermediário num esquema de venda de informações privilegiadas do BC para o mercado financeiro, jurou aos senadores que entrou nesse caso apenas para dar apoio moral ao velho amigo Cacciola. Foi a Brasília e retornou no mesmo dia. A fatura do hotel onde se hospedou Luiz Augusto de Bragança desmente Novaes. Enquanto consumia 21 doses de vodca nacional, Bragança disparou 23 telefonemas, sendo sete deles justamente para Novaes. Ligou também para a BM&F, o Departamento de Fiscalização do BC e para seu irmão e um dos donos da Macrométrica, Sérgio Bragança. Este também preferiu apelar para o "sagrado direito do silêncio", quando perguntado na CPI, na quinta-feira 29, sobre o bilhete em que se diz depositário de US$ 1,6 bilhão de Lopes no Exterior. Aliás, o ex-presidente do BC costumava se encontrar com os Bragança para animados almoços às sextas-feiras no restaurante Amigão, no centro do Rio, a poucos metros da sede da Macrométrica. Coisa de amigo.

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