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A morte de capa preta

Depois de assassinar 13 colegas de escola, dois adolescentes cometem suicídio no Colorado

Uma cena cruelmente comum: adolescentes americanos portando armamento pesado entram na escola onde estudam e massacram colegas e professores. Na manhã da terça-feira 20, em Littleton, um subúrbio classe média de Denver, no Estado do Colorado, esta tragédia se repetiria com recorde de baixas e arsenal. Dois rapazes, Eric Harris e Dylan Klebold, 17 e 18 anos respectivamente, foram a Columbine High School, onde cursavam o segundo grau, e durante cinco horas provocaram uma tempestade de disparos e explosões. Munida de duas carabinas de cano serrado, um rifle de assalto, pistolas automáticas, e 30 bombas caseiras, a dupla feriu gravemente 23 pessoas e matou outras 13, para finalmente cometer suicídio. As tropas da Swat e outras equipes de policiais chegaram como enxame em pouco tempo, mas só conseguiram recolher as vítimas e formar cordões de isolamento para impedir que multidões de pais desesperados invadissem o local do crime em busca de seus filhos. A maioria dos mortos ainda ficaria muito tempo no mesmo lugar onde caíra, já que as autoridades tomavam precauções especiais para entrar no prédio minado pelos assassinos. Este seria o sétimo e mais mortal atentado do gênero nos EUA desde outubro de 1997.

Eric e Dylan chegaram à escola como sempre: vestidos na moda gótica – com roupas que lembram vampiros ou o cantor Marilyn Mason – e cobertos com seus indefectíveis casacões pretos. Aquele era uma espécie de unifome de uma turma auto-intitulada The Trench Coat Mafia (algo como máfia da capa, numa referência aos capotes longos de estilo militar). As diferenças nessa terça-feira, estavam nas máscaras negras cobrindo seus rostos, e dentro da bagagem que carregavam. Em vez de livros, traziam bombas de fabricação caseira e armas automáticas. Às 11h30 abriram caminho a tiros no hall da escola. "Ouvimos uma explosão que vinha do primeiro andar", disse o estudante Aron Cohn, 17 anos. O prédio tem dois andares e Cohn estava com outros 20 colegas num anfiteatro onde se ensaiava um coral. "Nem precisamos abrir a porta para saber o que estava acontecendo. Nos fechamos dentro de um armário no teatro, fizemos barricadas na porta, e ficamos rezando para que tudo acabasse", disse o rapaz.

 

Alvos Os pistoleiros foram ao refeitório, onde estavam cerca de 900 alunos, e iniciaram o massacre matando um professor. Mas os principais alvos, sabe-se agora, eram minorias étnicas e atletas. Os primeiros por causa das cores de suas peles – a máfia do capotão era racista a ponto de promover esta celebração a balas no 110º aniversário do nascimento de Adolf Hitler, neste 20 de abril. Os segundos, porque fazem parte dos grupos mais populares nas escolas do país – principalmente os jogadores de futebol americano. Eis aí o gatilho aparente que detonou a explosão de fúria de Eric e Dylan. Eles eram considerados bocós e marginalizados pelos colegas. A cada etapa do massacre os assassinos paravam e minuciosamente minavam a área. Não escaparam sequer os mortos: os cadáveres foram transformados em armadilhas explosivas. Até a quinta-feira 22, a polícia encontraria duas superbombas na cozinha da escola. Eram artefatos feitos com minibujões de gás, pesando cerca de 15 quilos cada, e com potencial para demolir o edifício. "Desde o início suspeitamos que esta foi uma operação muito bem planejada e que envolveu mais do que duas pessoas. Estamos investigando a participação de outros", disse o xerife John Stone. Sabe-se que a máfia da capa tinha cerca de 20 membros fixos e pode ser que a gangue tenha ajudado nos preparativos.

Eric mantinha um site na Internet, onde colocava mensagens de ódio, racismo, instruções sobre jogos eletrônicos violentos e de satanismo. Mas a principal conexão entre estas tragédias é a facilidade com que adolescentes desorientados obtêm armas. Existem cerca de 250 milhões de armas de fogo nas mãos de civis nos EUA. Não se sabe ainda onde os garotos da Columbine High School conseguiram seu arsenal, mas imagina-se que eram armas mantidas ilegalmente em suas residências. Os garotos fabricaram os explosivos na garagem de casa. O que se descobriu depois é que o pai de Eric, um militar da reserva, também mantinha um site na Internet ensinando a fazer vários modelos de bomba. Seu filho aprendeu direitinho suas lições mortais.

 

Sinais trocados

Não foi por acaso que Diário de um adolescente (The basketball diaries, EUA, 1995) tornou-se cultuado entre os jovens americanos. Com Leonardo DiCaprio antes da fama, o filme é dirigido por Scott Kalvert, um egresso da estética de clipes da MTV, e a trilha sonora mistura The Doors, Pearl Jam e P.J. Harvey. Diário é a saga de Jim (DiCaprio), promissor jogador de basquete de um colégio de Nova York, que se vicia em heroína, chafurda na deliquência e acaba na prostituição. Para completar a aura cult, só que de um jeito mórbido, uma cena teria influenciado a Máfia da Capa. É quando Jim – vestindo uma capa negra – sonha que está matando a tiros seu professor e colegas de classe. O filme de Kalvert, na verdade, é um contundente alerta contra o vício, mostrando nesta sequência, em especial, a degradação de um drogado. Mas os estudantes assassinos não entenderam nada.

Celso Fonseca