Comportamento

Sexo na vitrine

Feira em Nova York exibe uma sofisticada parafernália erótica e rende mais lucro do que emoções

Na verdade, faltou clímax na maior feira de sexo do mundo. Pegue-se o exemplo constrangedor de Mistress Apocrypha, que implorou por um derrière para demonstrar suas habilidades com a chibata, e não obteve sequer a palma da mão de um voluntário. Ela é dominatrix da famosa casa de sadomasoquismo Cat-9 House of Domination, do bairro nova-iorquino de Queens, onde cobra US$ 400 a sessão (uma média de US$ 20 a lambada). Mas no parque de exposições do Jarvis Center – o maior e mais famoso de Nova York – poucos se apresentaram para experimentar, de graça, esse misto de dor e prazer. Entre a quinta-feira 15 e o domingo 18, os organizadores do Erotica USA – tido como o maior evento pornográfico a oeste de Gomorra – dizem ter recebido 40 mil pessoas em busca de algum frisson. Mas a esperada bacanália deixou a desejar. Só valeu para satisfazer algumas curiosidades antropológicas.

Quem iria imaginar que cinto de castidade para homem custa mais caro do que o correspondente feminino? Aliás, quem ousaria imaginar que existem cintos de castidade para homem? Mas está na tabela de preços: o tipo standard masculino vale US$ 440, e o feminino US$ 375. Quem se dispuser a pagar US$ 540 compra um cinto ajustável, o que parece recomendável para um cavalheiro sensato. Artigos sob medida, sobretudo nessa área, são mais confortáveis. Apesar dos custos, todo o estoque de produtos da Access Denied (tel. 516-226-7935 – www.chasti tybelt.com) foi vendido. Até as 500 amostras reservadas para vendas promocionais no setor Fetiche. "Ficamos restritos às poucas peças do mostruário", disse Ronald Aderholt, representante de vendas.

Certos objetos demonstram que em terra de puritanos algema é item erótico e liberdade é uma calça de couro abotoada. Mas o ócio do chicotinho de Mistress Apocrypha não significa desinteresse do mercado. Havia 25 barracas dedicadas ao comércio da chibata na Erotica USA. O insucesso de Apocrypha, deve-se à falta das virtudes que Tiazinha esbanja. Sua silhueta é pouco sensual e o rosto rivaliza com as máscaras de horror da sessão de Fetiche-vampirista.

No estande The Baroness (www. baroness.com), porém, apreciava-se com prazer o mais luxuoso e completo guarda-roupa de látex dos Estados Unidos. Era borracha suficiente para concorrer com a Floresta Amazônica. A Baroness (tel. 212-995-1965), diga-se, já vestiu mulheres como a atriz Kim Basinger e a modelo Linda Evangelista. É uma designer que pelo visto cria sob efeito de psicotrópicos e usa a mesma matéria-prima dos preservativos. "É frio e não muito confortável", admitia no intervalo uma das modelos contratadas, num macacão que parecia um Jontex multicolorido.

A variedade dos aparatos de tortura expostos à curiosidade pública é assustadora. Entre eles, o item CAC#1, do catálogo da MekTek Design (tel. 212-645-8000 – www.anneliadolfs son.com/mektek.html). Trata-se de uma caixa feita de ébano sintético com barras de aço laterais e um tampo-assento de vinil vermelho. Um sarcófago feio bastante para fazer confessar todos os pecados. No entanto, há quem pague US$ 595 para possuir tal urna e trancafiar-se nela. Ah!, na parte interna, o revestimento de metal garante ao ocupante choques elétricos periódicos.

 

Desejo e gargalhadas Na área mais ligth, a cadeira antigravidade The Bungee (tel. 1800-8bungee – www.bun geesex.com) arrancou suspiros ansiosos do público feminino. Quando em uso, esse estranho móvel parece um elástico de bungee jump, aqueles saltos corajosos de parques de diversões. A promessa é de sexo desafiando a gravidade. O problema é que a parceira precisa ser circense, visto o grau de dificuldade de ficar balançando como ioiô naquele aparato. A multidão juntou-se animada para ver as acrobacias. Ficou provado: as evoluções talvez não garantam orgasmos e botam os pescoços em risco, mas provocam gargalhadas.

No setor intitulado Adulto, entre estandes de sites pornográficos na Internet, estava o que de mais próximo se obteve até agora no sonho de sexo virtual. A idéia é interagir via computador. As pessoas se vêem nos respectivos monitores; conversam e acionam apetrechos acoplados ao interlocutor. Uma espécie de sexo a distância, o cúmulo do sexo seguro (www.safesexplus.com). Na barraca vizinha está o rei do sexo à moda antiga: Al Goldstein, um dos mais famosos pornógrafos do país e editor do jornal Screw (www.screwmag.com). Os produtos de Goldstein só exigem operações manuais e ele nos lembra que essa feira do sexo nada tem a ver com prazer: é tudo negócio, e essas categorias não se misturam. É dele também a melhor síntese da Erotica USA: "There’s no business like sex!" (Sexo é o melhor negócio).