Comportamento

As cores da periferia

Muros brancos liberados por prefeitura dão oportunidade a jovens marginalizados de serem reconhecidos pela sociedade

Em plena luz do dia 17 deste mês, cerca de 100 grafiteiros botaram seus sprays para trabalhar no comprido muro branco que contorna o estádio de futebol Bruno José Daniel, em Santo André, na Grande São Paulo. Mas nenhum deles estava preocupado com uma possível batida policial, comum na repressão cotidiana aos adeptos dessa prática. A atividade estava permitida e, mais que isso, contava com incentivo oficial. Com o apoio da prefeitura do município, a segunda mostra de grafite da cidade provou a força da juventude do ABC e de seu movimento cultural mais difundido: o hip-hop. "Cansei de tomar tapa no ouvido de policial. Por isso nos organizamos e apresentamos o projeto à prefeitura. A idéia é valorizar essa forma de expressão", afirma Fábio de Almeida, 23 anos, o Botcha, grafiteiro "sério" há quatro anos e um dos organizadores do evento. A proposta foi aceita pela Secretaria de Cultura de Santo André, que chegou a selecionar previamente o trabalho de 27 grafiteiros e cedeu 500 latas de spray, além de lanches para a moçada passar o dia.

Desde cedo, skatistas, grupos de rap, dançarinos de break (os chamados b-boys) e curiosos em geral se apossaram do terreno ao redor do estádio para acompanhar o tecer de tintas feito por cada um dos grafiteiros. Desde logomarcas estilizadas até cenas de tiroteio entre bandidos e polícia foram desenhadas – dando cores fortes à cinzenta paisagem suburbana. Ao fundo, DJs garantiam a trilha sonora recheada com raps daqui e dos Estados Unidos. Da América do Norte, junto às palavras e siglas que dominam o vocabulário da tribo, foi importado o próprio hip-hop. "O movimento chegou aqui em meados dos anos 80 e encontrou nas periferias das grandes cidades uma identidade racial e social parecida com a dos guetos americanos", explica a pedagoga e educadora popular Sueli Cham, 44 anos. Há sete anos, ela trabalha com jovens da periferia e tem promovido oficinas culturais na região do ABC para difundir as técnicas do grafite, do break e da música rap – a tríade que compõe as expressões artísticas do hip-hop. "Existe também a preocupação de organizar a juventude para discutir questões sociais. Esses jovens são artistas nascidos da exclusão social e querem ter seus direitos reconhecidos. A maioria deles é formada por operários e trabalhadores não-capacitados, mas com o hip-hop eles podem resgatar sua auto-estima e interferir na comunidade como sujeitos políticos", acredita a pedagoga.

O b-boy Eduardo de Teves, 19 anos, o "spy", está desempregado e dança break há cinco anos. Ele concorda com Sueli. "O legal do hip-hop é que ele tira a molecada da rua e oferece a oportunidade de aprender alguma coisa em vez de usar drogas", diz. Para o rapper Anderson Barbosa, 18 anos, eventos como a mostra de grafite significam a abertura de espaços para a arte da periferia e para as críticas de sua juventude. "Quem sabe assim a sociedade nos veja com outros olhos."

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