Ediçao Da Semana

Nº 2741 - 05/08/22 Leia mais

Desvendar as origens do câncer de mama é um dos desafios mais prementes da medicina. Na semana passada, um novo estudo divulgado pela revista científica “Stem Cell Reports” acrescentou uma informação valiosa para o entendimento dos mecanismos que levam à doença. Pesquisadores americanos e canadenses descobriram que um dos tipos de células-tronco, as chamadas luminal progenitoras (que dão origem a um gênero de tecido mamário), são geneticamente mais vulneráveis às transformações que levam ao câncer. Elas estão situadas nos ductos, canais que conduzem o leite produzido pela glândula mamária até os mamilos. Seria nessas estruturas, portanto, que a enfermidade começaria.

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O motivo que as torna mais sujeitas a apresentar os erros genéticos que deflagram o câncer é o fato de terem telômeros menores do que as outras células que dão origem a outros tecidos das mamas. Os telômeros são estruturas presentes nas extremidades dos cromossomos (onde estão abrigados os genes que compõem o nosso código genético). Uma de suas funções é proteger a integridade dos genes durante o processo de renovação celular, impedindo, por exemplo, as fusões de cromossomos. Quando isso ocorre, a célula pode ganhar ou perder um cromossomo, o que resulta em um defeito genético.

Durante o processo de envelhecimento, os telômeros vão encurtando, deixando as células mais vulneráveis a essas alterações. O que o trabalho agora divulgado demonstra, porém, é que eles são naturalmente menores nas células luminais progenitoras, independentemente da idade. Significa que essas células são normalmente mais expostas a erros de funcionamento que podem desencadear a doença. “A região onde essas células se encontram pode ser vista como um palco onde provavelmente o câncer de mama pode ter início”, disse a pesquisadora Connie Eaves, da Agência para o Câncer em Vancouver, no Canadá, coautora da pesquisa. A investigação que levou a esse achado foi realizada com amostras de tecido mamário retiradas de mulheres que se submeteram a cirurgias plásticas para reduzir os seios com finalidade estética.

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Estudos anteriores já haviam indicado que esse tipo de câncer poderia ter início nos ductos mamários. A literatura científica registra, inclusive, a associação entre o aparecimento dos tumores de mama ligados às mutações no gene BRCA1 aos pontos do seio onde estão essas células luminais progenitoras. “Nosso trabalho ajuda a entender melhor como a enfermidade começa a partir de mudanças no DNA que podem, por exemplo, ligar ou desligar um gene envolvido na replicação celular”, disse à ISTOÉ David Gilley, coordenador da pesquisa.

De fato, neste momento, a principal contribuição da descoberta é permitir uma compreensão mais detalhada da origem da enfermidade. “Ela reforça evidências que já haviam sido obtidas a respeito dos mecanismos que podem estar envolvidos nesse tipo de tumor”, diz o oncologista Antônio Buzaid, chefe do Centro Avançado de Oncologia do Hospital São José, em São Paulo. No entanto, o cientista Gilley acredita que as suas descobertas poderão servir de base para a criação de meios diagnósticos e de tratamentos que atuem diretamente no começo do processo que leva à doença. “Estamos trabalhando para encontrar formas de detectar as mudanças moleculares genéticas associadas a essa etapa da enfermidade. Entre elas, procuramos meios de identificar alterações nos telômeros que permitem que os cromossomos se fundam”, contou à ISTOÉ. O propósito é impedir a ocorrência dessas modificações.