Comportamento

Farra mortal

Estranho silêncio de estudantes da USP ronda trote que terminou em morte na piscina

O engenheiro civil Hsueh Feng Ming vive atormentado desde o dia 22 de fevereiro. Não dorme direito e se perde em sentimentos de culpa quando está sozinho, na penumbra e no silêncio da sala de sua modesta casa, em Santo Amaro, um bairro de classe média da zona sul de São Paulo. A idéia fixa de que poderia ter feito algo para salvar o filho Edison Tsung Chi Hsueh, 22 anos, o persegue e o amargura. Calouro da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), a mais conceituada do País, Edison apareceu morto no fundo da piscina semi-olímpica do clube atlético da faculdade na manhã seguinte ao primeiro dia de aula. O trote que deveria dar as boas-vindas aos novos alunos, havia terminado em uma farra mortal. Embora estivesse preocupado porque escurecera e o filho não chegava em casa, o pai imaginou que Edison esquecera-se do horário porque estaria com os novos colegas, jogando xadrez. Remoendo-se em dor, Ming, que nasceu em Formosa, na China, e está no Brasil há 30 anos, acredita que se tivesse buscado o filho de carro, como sempre fazia quando escurecia, ou se o tivesse procurado por toda a faculdade, talvez pudesse ter evitado a tragédia.

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Tesoura no rosto Logo que acordou no dia 22, Edison vestiu uma calça jeans e uma camiseta, calçou um tênis, colocou uma bermuda roxa na mochila, pegou um caderno e seguiu feliz para a avenida Doutor Arnaldo, no bairro de Pinheiros, onde fica a faculdade, para o seu primeiro dia de atividade acadêmica. Sabia que uma sessão de trotes o aguardava, mas não estava preocupado. Ao contrário, estava orgulhoso porque finalmente poderia realizar o sonho de ser cirurgião e tornar-se médico como muitos em sua família. Afinal, na semana anterior tivera uma prévia do que poderiam ser as brincadeiras e as imaginava divertidas. Na matrícula tivera o corpo pintado com tinta guache, a cueca rasgada, os cabelos raspados e, em um descuido de algum veterano mais afoito com a tesoura, um corte no rosto. Ficou em um estado tão deplorável que sua mãe, a comerciante Hsueh Yen Yin Hwa, teve de apanhá-lo de carro. Edison tinha motivos para estar de bem com a vida. Depois de três anos cursando Medicina na Santa Casa, havia passado no vestibular para a concorrida USP e conseguiu livrar-se de uma mensalidade de R$ 1.080, que pesava no orçamento da família. Como os outros calouros, a partir das 9 horas, Edison assistiu a uma palestra no anfiteatro da escola. Terminada a conferência, os veteranos deram o sinal de que o trote iria começar. Quem não quisesse participar poderia sair pela porta dos fundos e quem se habilitasse, pela frente. Quarenta calouros se recusaram. Cerca de 140 toparam a parada. As roupas que não poderiam manchar, as mochilas, os documentos e os objetos de valor foram colocados em um saco preto etiquetado com o nome do dono e entregues aos diretores da Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz, alunos do terceiro ano que administram o clube. A maioria dos novatos ficou de bermuda ou short. Logo que saiu, Edison foi amarrado com barbante a outros quatro calouros. Em seguida eles tiveram o corpo e as roupas pintados e a cabeça coberta por farinha de trigo e ovos. Amarrados, seguiram para a frente da faculdade e sentaram em uma das pistas atrapalhando o trânsito por cinco minutos. Quando o relógio marcava aproximadamente meio-dia os veteranos os encaminharam ao clube onde teria início um churrasco. Para que não entrassem sujos na piscina, os veteranos davam banhos com mangueiras de água nas calouras e as veteranas nos calouros, esfregados por buchas. Os novatos desceram a escadaria em "L" que leva à arquibancada da piscina e foram convidados a beber um variado coquetel de destilados e fermentados enquanto tinham de aprender hinos e palavras de ordem que têm como tema a rivalidade com outras faculdades de Medicina, especialmente a Escola Paulista e a Santa Casa. Aliás, Edison teve o nome "Santa Casa" pintado nas costas e seus colegas oriundos de outras escolas de Medicina foram estigmatizados da mesma forma. Em um determinado momento começou o empurra-empurra e os calouros foram jogados na água. Por volta das 12h30, havia cerca de 300 pessoas dentro da piscina, deixando a água completamente turva.

Nuvens carregadas A lavagem só havia retirado o excesso de tinta. No céu as nuvens carregadas evidenciavam um temporal que caiu por volta das 14h30 e obrigou os estudantes a sair rapidamente da piscina. Em torno das 16h30, após a chuva, não havia mais ninguém na água. Em compensação, não dava para enxergar nada no fundo, tal a sujeira deixada pelos estudantes. Neste momento, o pessoal estava todo no Caveirinha, o menor dos dois ginásios cobertos da Atlética, tomando cerveja, comendo churrasco e ouvindo música tecno e forró em alto volume. Alguns estudantes estavam embriagados, mas nenhuma briga foi registrada.

Após o corpo ser descoberto, às 7h30 do dia seguinte pelo funcionário Luiz Carlos dos Santos, o clima na Atlética ficou pesado, mas poucos acreditavam na possibilidade de agressão no trote. A maioria apostava na hipótese de ele ter voltado sozinho às imediações da piscina e, provavelmente alcoolizado, ter escorregado e caído na água, o que foi descartado posteriormente pelo exame toxicológico que detectou que Edison não ingeriu bebida alcoólica.

O laudo do Instituto Médico Legal (IML), que levou quase dois longos meses para ser divulgado, falando em "minutos de agonia e luta" antes da morte, caiu como uma bomba na Atlética. A primeira providência da diretoria foi proibir todos os funcionários de comentar o assunto, especialmente com a imprensa. Muitos acham que o menino pode ter sido jogado na água à força, como em geral os veteranos fazem com os calouros, e outros estudantes tenham caído em cima dele, mantendo-o no fundo e provocando os ferimentos revelados pelo laudo. Por esta versão, o calouro teria permanecido no fundo da piscina e ninguém teria percebido. Isto vai de encontro ao relato que alguns alunos deram ao delegado que cuida do caso, Marcelo Guedes Damas, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). "Estudantes contaram que receberam caldos e que quando tentavam voltar à borda da piscina tinham as mãos pisadas pelos veteranos, impedindo que eles saíssem da água", afirmou. Pouco depois das 17h, um funcionário jogou um produto químico na piscina para decantar a água. Não notou nada de anormal, mas não tinha como enxergar o fundo.

Ainda segundo o depoimento dos estudantes, era grande a quantidade de bebidas na festa. Pinga Pitu, Malibu, uísque, vodca, Contini, Martini e muita, muita cerveja gelada, tudo de graça, pago pela Atlética. Muitos alegam que foram para casa entre 15h e 16h30, uma vez que a animação foi diminuindo após a chuva. E é justamente aí que começa o mistério sobre a morte de Edison. Nenhum aluno sabe dizer o que aconteceu depois da chuva. Muitos se disseram surpresos quando o corpo de Edison foi encontrado na manhã seguinte. O delegado Damas tem informações de que a festa transcorreu até as 18h e uma hora depois alguns alunos nadaram na piscina. Até as 23h ainda tinha um grupo treinando handebol no clube. Na polícia, aproximadamente 100 alunos – entre calouros e veteranos – intimados a depor afirmaram, sempre acompanhados de Guilherme Batochio, advogado contratado pela Atlética e pelo centro acadêmico para defendê-los, em uníssono que nada viram e nada sabem. Defendem-se a si mesmos e a seus pares em um explícito espírito de corpo dizendo que o trote não foi violento e que ninguém os obrigou a nadar ou a beber. E se calaram evidenciando um pacto. A promotora Elaine Passarelli suspeita que, durante o trote, o rapaz foi espancado e jogado na piscina. "Ouvimos dezenas de participantes, todos negaram e agora me fazem acreditar ainda mais, com o laudo, que decidiram acobertar os assassinos num pacto", diz ela. "O que houve foi uma recomendação da diretoria da faculdade para que eles não falassem num primeiro momento para que suas declarações não fossem distorcidas", contrapõe Batochio, negando a existência de um pacto. A versão dada pelos estudantes no DHPP, porém, começou a ser desmontada quando a mãe de um calouro que preferiu não se identificar ligou três dias depois da morte para o ouvidor da polícia, Benedito Domingos Mariano, para contar que seu filho e os colegas foram obrigados pelos veteranos a ingerir bebida alcoólica, muitos inclusive chegaram a passar mal e ainda foram ameaçados se contassem algo à polícia. O Ministério Público teve acesso a prontuários de atendimento no pronto-socorro do Hospital das Clínicas onde vários estudantes foram atendidos por ter exagerado no consumo de álcool, segundo as promotoras Elaine Passarelli e Maria Amélia Nardy Pereira, designadas para acompanhar o caso. Mais de 50 relatórios escritos de próprio punho pelos calouros sobre a festa, obtidos pela polícia, também desmontam a versão coletiva sobre o trote "light". "Era previsível que isso pudesse ocorrer já que havia muitos alunos alcoolizados, uma piscina funda e ninguém responsável para vigiar" ou "Eles batiam na minha mão e cabeça e fui obrigado por veteranos do quarto ano a entrar dentro do freezer, cheio de gelo e de cerveja".

 

Médicos ou monstros A reportagem de ISTOÉ esteve na Faculdade de Medicina na tarde da segunda-feira 12, antes da divulgação do laudo. Nenhum dos mais de 20 alunos ouvidos quis se identificar e todos disseram que não sabiam de nada ou não estavam no clube no momento do trote. Apenas um deles que também pediu anonimato acredita que os colegas possam ter-se excedido nos golpes e não duvida de crime acidental. Na quarta-feira 14, a presidente do centro acadêmico, Angela Carvalho Freitas, aluna do terceiro ano, insistiu na tese de que o trote foi pacífico. "O inquérito policial ainda não concluiu se houve crime." Thómas Moraes, diretor do centro acadêmico disse que a mídia os julga sem direito a defesa. "Nós não somos monstros", disse. Mas os estudantes ficaram em uma situação ainda mais delicada depois que um vigia do clube prestou depoimento. "Ele afirmou que recebeu um telefonema às 4 horas de um aluno veterano perguntando se estava tudo bem por lá", diz a promotora Eliana, que pediu a quebra do sigilo telefônico de um grupo de estudantes para fazer o cruzamento das informações. Ela já tem o nome desse aluno, mas ele negou que tenha feito a chamada. "Até o presente momento, o que se pode depreender é que o que ocorreu foi uma fatalidade", considera Guilherme Batochio, que diz aguardar as conclusões do inquérito para definir qual será sua atuação.

 

Marcas de luta A promotoria, no entanto, continua sustentanto a tese de homicídio culposo ou mesmo doloso baseada no laudo necroscópico elaborado pelo IML. "No mínimo foi uma omissão de socorro e os que estão ocultando os responsáveis podem responder pelo crime de favorecimento", diz Eliana. Elas prometeram indiciar todos os alunos que estavam na festa por homicídio depois que o laudo mostrou que Edison, que não sabia nadar, morreu entre 12h e 16h, portanto no auge da festa, vítima de asfixia mecânica por afogamento. Os legistas encontraram vários ferimentos. O documento assinado pelo médico Carlos Delmonte aponta ainda que houve luta na piscina antes da morte. O laudo trouxe à tona a certeza que Ming e sua mulher carregavam desde que enterraram o filho em uma cerimônia budista. "A atitude desses futuros médicos com meu filho foi pior do que com um animal", desabafa. "Ele foi espancado até morrer. Tinha bastante gente lá. Impossível alguém não ter visto. A direção está abafando porque não quer manchar o nome da escola." Para o engenheiro, que contratou o advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, um dos mais famosos do Brasil, para representá-lo, todos os alunos são suspeitos.

Além de Ming, as promotoras que cuidam do caso também desconfiavam desde o início de um crime por conta das omissões dos estudantes. "Os relatórios mostram ainda o poder intimidatório dos veteranos sobre os calouros", diz Maria Amélia. "É a máfia de branco que começa nos bancos acadêmicos." O diretor da USP, Irineu Velasco, contesta a versão de homicídio. Para ele, que se mostrou disposto a colaborar na elucidação do mistério, mas ainda não prestou contas da sindicância interna que abriu para investigar o caso, nem para a polícia nem para o Ministério Público, o calouro se afogou e não sofreu violência. Desde o dia da morte, o assunto virou tabu nos corredores e nas salas de aula da Faculdade de Medicina.

Um estranho silêncio envolve esses futuros médicos. A atitude correta seria incentivar a apuração e não negar as evidências de homicídio. Edison faria parte de uma elite. Sua morte, contudo, rebaixou a turma de calouros de 1999 – e seus veteranos violentos – a um bando marcado para sempre pelo corporativismo cego.

Colaboraram: Angélica Wiederhecker e Gustavo Chacra

 

Testemunha demitida

Eu era funcionário da universidade, trabalhava como analista de rede e frequentava a Atlética. No dia da morte do Edison, cheguei por volta das 18 horas junto com um amigo, o Ronaldo. Estava frio e escuro. No bar, ao lado da piscina, havia alguns alunos embriagados. Minutos depois, chegaram outros três estudantes, dois loiros e um moreno. Com eles, estava um calouro, visivelmente bêbado. O garoto foi abraçado por um dos veteranos, que pulou na água com ele. Depois de uns dois ou três minutos, eles reapareceram. Chegando, pegaram um tênis, jogaram na água e mandaram o calouro pegá-lo. Nesse momento nós interviemos. Os três saíram com o garoto. Meia hora depois, o calouro retornou, em estado pior. Estava trêmulo e perguntou como chegar a uma rua vizinha, mas não entendeu a explicação. Demos café para o menino e o Ronaldo o levou para a pensão onde estava hospedado. No outro dia, fui correr bem cedo na Atlética e contei a alguns amigos o que havia acontecido na véspera. Na quarta-feira, o diretor da faculdade me ligou e pediu que prestasse depoimento. Fui. Dias depois, me demitiram, alegando corte de pessoal."

João Gregório Penido Junior, cujo depoimento a polícia mantém sob sigilo
 

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