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Missão em tirana

A religiosa brasileira Najua Diba vive o drama dos refugiados na Albânia

Esta gente perdeu tudo na guerra, menos a própria vida." Com os pés na lama, a missionária brasileira Najua Diba, 52 anos, entra de barraca em barraca para iniciar sua missão diária de ajuda aos refugiados kosovares em Tirana, capital da Albânia. Falando um albanês com carregado sotaque paulistano, ela conversa com quase todo mundo. E cada um tem uma história mais tenebrosa para contar. Najua é uma das poucas alegrias capazes de estimular um simples sorriso nos rostos traumatizados daqueles que sobrevivem no mais desgraçado campo de desabrigados na capital albanesa, o chamado "campo das piscinas", onde cerca de quatro mil pessoas, a maioria velhos, mulheres e crianças, se amontoam em tendas militares e nas ruínas de um antigo ginásio desportivo. E é apenas uma ínfima parte de um conflito que já provocou o êxodo de quase um milhão de refugiados albaneses do Kosovo para Albânia, Macedônia e Montenegro.

O "campo das piscinas" foi construído pelos gregos na Antiguidade para o esplendor dos seus atletas e hoje se transformou na antecâmara do inferno. As três piscinas olímpicas estão secas e cobertas de lixo, exalando o cheiro do desespero humano, sem esgoto, irrigado por fezes, suor e lágrimas de gente que conseguiu escapar, mas não sabe para onde ir. Najua arregaça as mangas, ajuda na distribuição de comida e de medicamentos e pergunta pelas necessidades de cada um. "Muitas vezes, basta apenas uma palavra de conforto, um bate-papo com as pessoas, só para dar um pouco de afeto", explica.

Quando a missionária Najua entra no campo, nunca sabe a que horas irá sair. Muita gente quer conversar com ela. Numa das barracas, está um grupo de amigas kosovares, uma delas imobilizada numa cadeira de rodas por causa de uma paralisia. "Imagine a dificuldade dela para conseguir fugir dos sérvios ligada numa uma cadeira de rodas", comenta a brasileira. Esta mulher, chamada Lunturia – que em albanês significa felicidade –, conta como conseguiu escapar viva da sua aldeia. "Fomos atacados duas vezes pelos sérvios. Umas 180 pessoas foram massacradas de uma só vez e depois enterradas numa cova coletiva. Minha irmã me ajudou a fugir num trator. Levamos muitos dias até atravessar a fronteira do Kosovo com Albânia", conta Lunturia.

 

Casas de família A brasileira pretende hospedar alguns kosovares na sua simples e aconchegante casa térrea em Tirana, onde vive sozinha com a fiel cadela Dayse. Mas as psicólogas voluntárias aconselham que, na maioria das vezes, é melhor que os kosovares fiquem em grupo para não se sentirem abandonados. Dos quase 400 mil refugiados que estão na Albânia, 35 mil encontraram lugar em casas de família. Esta emergência já está provocando uma mudança sociológica no país. Os kosovares são profissionais diplomados ou camponeses que trabalhavam na agricultura e pecuária. Estes últimos trouxeram os tratores e estão dispostos a ajudar na lavoura. Mas o que poderia ser visto como uma contribuição pode causar efeito contrário. Já começa a aparecer um certo mal-estar nos próprios albaneses. A maioria deles é pobre e sem estudo e muitas vezes se ressente ao ver a ajuda humanitária internacional chegar só para os kosovares. "Por isso, é importante instruir os albaneses no sentido de assistência ao próximo", diz Najua.

Filha de imigrantes libaneses em São Paulo, a brasileira optou pela fé evangélica em 1978 frequentando a Igreja Presbiteriana de Londrina. "Um dia, fechei os olhos e pensei num país. Senti que era a Albânia. Então, começou a minha longa missão", conta a religiosa. Depois de um período em Londres para aperfeiçoar o inglês, ela desembarcou pela primeira vez em Pristina, capital do Kosovo, no dia 9 de fevereiro de 1987 e lá permaneceu até o final de 1991. "Cheguei sem falar nada de albanês. Não era nada fácil uma religiosa estrangeira trabalhar nos países da cortina de ferro."

Quando chegou, ela não conhecia ninguém. Sozinha, com a cara e a coragem, através de alguns contatos com amigos religiosos, Najua conseguiu encontrar lugar para morar e rapidamente se inscreveu na Universidade de Pristina para aprender a língua albanesa. "Tirei nota 10 na disciplina marxismo-leninismo, pois o tema que foi sorteado para ser debatido foi o cristianismo", lembra a missionária. Não era fácil aprender o albanês na terra dos sérvios, a ex-Iugoslávia. "Eu me lembro de um episódio no mercado, quando fui comprar frutas e as pedi em albanês. A vendedora me perguntou se eu sabia falar sérvio-croata, a língua oficial no regime sérvio iugoslavo. Respondi que não sabia e ela começou a gritar comigo, insultando os albaneses."

Esta senhora brasileira gordinha e baixinha incorporou dentro de si um pedaço dos Bálcãs. Além de ler muitos livros, conhecer as obras de importantes intelectuais, Najua presenciou momentos de conflito que marcaram a história do Kosovo, como as revoltas de 1989 e de 1997. Segundo ela, com o clima que se respirava em Pristina, a guerra no Kosovo estava prevista desde 1980, quando morreu o marechal Josip Broz Tito. Ele havia idealizado um país comunista com artificial tolerância multiétnica formado por seis repúblicas (Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia-Herzegóvina, Montenegro e Macedônia) e duas províncias autônomas, Kosovo e Voivodina, que integravam o território da Sérvia.

 

Grande sérvia Em 1989 o Parlamento sérvio aprovou a abolição da autonomia do Kosovo e da Voivodina. "Eu me lembro bem, era 28 de junho de 1989. Eu estava em Pristina quando o ex-diretor de banco Slobodan Milosevic foi celebrar em Kosovo Polje o início da Grande Sérvia com uma gigantesca manifestação. Houve uma grande revolta dos albaneses para protestar contra os sérvios. Para demonstrar sua força, Milosevic foi comemorar exatamente no lugar onde, exatamente 600 anos atrás, os exércitos dos cristãos sérvios foram derrotados pelos invasores turcos-otomanos."

Najua tem muitas histórias para contar. Ultimamente, muitas delas são tristes. Mesmo assim, ela quer ficar na Albânia para completar sua "missão". Abrindo o álbum de fotografias de Pristina, fala dos amigos desaparecidos ou daqueles que não conseguem se comunicar. Neste momento, com a Bíblia na mão, Najua pede pela salvação e exclama "Jesus nos acompanha sempre!" Seus amigos podem estar mortos ou entre milhares de refugiados de vários campos, onde a desgraça estende a mão num baile à beira do abismo.