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Milhares de brasileiros voltam a estudar e realizam o sonho de ter um diploma por meio de programas eficientes de educação a distância

A pequena São João do Paraíso, de 12 mil habitantes, a 840 quilômetros de São Luís (MA), viveu um dia de gala. Em março, 72 adultos receberam o diploma de conclusão do primeiro grau. Entre eles, o prefeito da cidade, Vicente Ribeiro Sobrinho, 55 anos. "Era um sonho antigo. Eu queria muito ter um diploma", diz. Outros 3.800 adultos da cidade cursam o Telecurso 2000, programa de ensino a distância veiculado pelas tevês educativas, pela Rede Globo e pelo canal Futura, por assinatura. Ribeiro Sobrinho orgulha-se de aplicar 35% do orçamento municipal na educação, 10% além do que determina a lei. Ele espalhou telessalas também na zona rural e criou cursos para professores. O prefeito compreendeu a importância de iniciativas sérias de ensino a distância num país tão grande, heterogêneo e carente de educação.

Voltar a estudar é o sonho de muitos brasileiros. O governo do Estado de São Paulo, por exemplo, registrou nos últimos três anos um aumento de 30% no número de alunos de cursos supletivos de primeiro grau e 70% no de segundo grau. Além do Telecurso 2000, o tradicional Vestibulando, programa da TV Cultura de São Paulo, e o Projeto Ceteban, que leva a escola do País a brasileiros no Japão, conseguem pôr em prática a proposta de democratizar o ensino e difundir conhecimentos. Esses projetos melhoraram a imagem da educação a distância no Brasil, prejudicada pela descontinuidade das iniciativas governamentais, nos anos 60, e pela proliferação de escolas particulares pouco rigorosas na formação do aluno. Hoje há grandes esforços para mudar esse quadro, garante a coordenadora-geral de Projetos Especiais da Secretaria de Educação a Distância do Ministério, Carmem Castro Neves. "O espírito da nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) é mais aberto. Há espaço para que todo tipo de aprendizagem seja aproveitado", afirma Zilma de Oliveira, membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo. Em tese, alguém que tenha interrompido seus estudos para trabalhar, por exemplo, pode solicitar em sua escola uma reclassificação. Com um exame pode pular séries. "Adultos que voltam a estudar devem ser aplaudidos pela determinação e desejo de crescer", defende Zilma.

Desde fevereiro do ano passado, as secretarias estaduais de Educação credenciam e fiscalizam as escolas que trabalham com o ensino de primeiro e segundo graus a distância. O Telecurso 2000 é um dos mais utilizados pelos Estados. Criado há quatro anos pela Fundação Roberto Marinho e pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, pode ser acompanhado tanto em casa como nas 7.200 telessalas instaladas em escolas, empresas, sindicatos, presídios, navios, estações ferroviárias, abrigos de moradores de rua e até em ônibus de empresas. Bastam uma tevê, as fitas do telecurso e o material didático. Os alunos prestam exames oferecidos pelas secretarias estaduais ou por instituições credenciadas.

A proposta do Telecurso 2000 é atender a mais de 30 milhões de brasileiros excluídos do sistema formal de ensino. Além de supletivo, preenche carências de lugares distantes, como explica Vilma Guimarães, gerente de Educação da Fundação Roberto Marinho. Nessas localidades, o Telecurso 2000 complementa o Tevê Escola, projeto do Ministério da Educação criado para reciclar professores e enriquecer as aulas em escolas com mais de 100 alunos, como a Classe Número 2 de Santa Maria, a 40 quilômetros de Brasília. "As crianças aprendem melhor e ficam estimuladas", conta a professora Gisela Albuquerque.

O Brasil já exporta ensino a distância. No Japão, onde milhares de filhos de imigrantes brasileiros estão fora da escola, a NKK, tevê por assinatura, também transmite o Telecurso 2000. Segundo dados do departamento de imigração japonês, 230 mil brasileiros vivem no país. Mas, de quase 30 mil crianças até 14 anos, apenas sete mil estudam nas escolas oficiais. Entre os adolescentes que viajaram com mais de dez anos e não se adaptaram à escola japonesa a necessidade é urgente. "São quase 20 mil jovens que voltarão ao Brasil sem ter sequer o primeiro grau", aponta o professor Carlos Shinoda, diretor do projeto Ceteban, que há três anos e meio oferece supletivo do ensino fundamental e médio em 26 províncias japonesas, com professores para orientação e 12 locais para avaliações. "Já formamos 240 pessoas e temos 550 alunos hoje. Mas é pouco", angustia-se Shinoda. O Ceteban é um projeto conjunto do Centro de Ensino Tecnológico de Brasília e da Universidade Bandeirantes, de São Paulo.

 

Concentração Se não fosse o projeto, a estudante Patrícia Irekawa, 22 anos, não teria a alegria de ver, neste ano, seu nome na lista de aprovados no curso de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo (USP). Ela foi para o Japão com 15 anos e a dificuldade com a língua a fez desistir da escola japonesa. "Além de concluir o segundo grau, aprendi a estudar sozinha, a organizar meu tempo e a extrair o essencial das matérias", diz Patrícia. Técnica de estudo e organização do trabalho são as primeiras matérias ensinadas no Projeto Ceteban. "É uma forma de assegurar que o aluno aproveite melhor o curso", explica o professor Shinoda.

Saber organizar-se e concentrar-se no principal é imprescindível para quem se dispõe a fazer qualquer curso a distância. Essa foi a primeira lição de Gilberto Cavalcante, 27 anos, que estudou pela televisão e entrou em Ciências Exatas na USP de São Carlos (SP). Sem dinheiro para cursinho pré-vestibular, dividiu com amigos a compra das 90 fitas (R$ 21 cada uma) do Vestibulando, veiculado na TV Cultura de São Paulo. "O curso é atraente, dinâmico e enxuto", elogia Gilberto.

O programa estreou há 11 anos ao vivo. Foi reeditado em 1992 e hoje as 92 gravações, atualizadas periodicamente, são transmitidas para 11 Estados brasileiros. Conta com um professor numa bancada e com imagens, ilustrações, exercícios, mapas e gráficos fornecidos por um computador. "Muitos ligam ou escrevem para contar que entraram na faculdade com a ajuda dessas aulas", relata Nádia Atore, chefe do departamento de ensino da emissora. Um programa que não prepara para nenhum curso específico mas é um grande sucesso é o Nossa Língua Portuguesa, também da TV Cultura. Criado em 1994 e comandado pelo professor Pasquale Cipro Neto, recebe só por e-mail em média 500 consultas por semana. As aulas trazem entrevistados ilustres e analisam questões por meio de letras de música, placas de rua, etc.

Até mesmo faculdade e especializações podem ser feitas a distância. Inaugurada em fevereiro, a Universidade Virtual do Centro-Oeste reúne sete universidades públicas do Distrito Federal, de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e já tem 70 mil alunos. Basta ter acesso a um computador para fazer os cursos gratuitos. "Eu não teria como fazer um curso normal e este já mudou meu jeito de dar aulas. Uso mais a prática", diz o professor de Biologia Helder Souza, de Brasília, que se especializa em Educação Ambiental. O endereço da Universidade Virtual é www. universidadevirtual.br. Um aluno virtual custa R$ 90 por mês enquanto um estudante na escola chega a R$ 1 mil. Como se vê, nem sempre são necessárias verbas milionárias para melhorar a educação. Às vezes basta um clique – e o desejo de ajudar.

Colaborou Rachel Mello (DF)

 

Sonho americano

Nos Estados Unidos o chavão "A América é a terra das oportunidades" aplica-se bem aos americanos que não concluíram o high school (2º grau) e querem retomá-lo. As opções vão de cursos por correspondência a salas virtuais, passando por telecursos. O que importa é passar no "General Education Development" (GED), teste reconhecido por 90% das universidades. Não é fácil: 3/4 dos que tentam são reprovados. Em 1997 quase um milhão tentou. "Além do convencional, o GED mede habilidade analítica, destreza prática e entendimento e aplicação de informações", diz Margareth Green, educadora do GED Testing Service, em Washington. Curioso é o crédito dado à "experiência pessoal". O adulto prova que domina 65 itens em oito áreas por meio de tarefas, como calcular a quantidade de material e o custo para acarpetar uma sala. Parece pouco, mas é um meio de inclusão social.

Osmar Freitas Jr. – Nova York