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Cortina de fumaça

Por trás da cortina de bombas despejadas em território iugoslavo pelos aviões da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), um complicado jogo de cena

Por trás da cortina de bombas despejadas em território iugoslavo pelos aviões da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), um complicado jogo de cena se desenvolvia, na semana passada, entre os personagens do drama do Kosovo. De um lado, o presidente sérvio Slobodan Milosevic, comandante dos massacres a civis kosovares albaneses, tentava o papel de pacifista decretando um cessar-fogo unilateral em celebração da semana da Páscoa da Igreja Ortodoxa Sérvia. E, ainda sob o espírito do feriado santo, também incluia no pacote a possibilidade da libertação dos três soldados americanos capturados dias antes. Na contracena, o coro dos 19 países aliados – sob a regência do presidente americano Bill Clinton – recusou em uníssono frear seu ímpeto. Afirmava-se que o bombardeio iria continuar em ritmo fortíssimo. A impressão era a de que Milosevic ensaiara a paz como uma farsa.

 

Ameaça russa Na quinta-feira 8 os alarmes soaram nas chancelarias ocidentais quando o governo russo saiu furiosamente em defesa de seus aliados eslavos da Iugoslávia. O presidente Boris Yeltsin e o presidente do Congresso da Rússia discutiram a possibilidade de voltar a posicionar seus mísseis nucleares em direção aos países da Otan. Os Estados Unidos e a Rússia pararam de mirar mísseis mutuamente desde o fim da guerra fria. Este retrocesso é o mais perigoso desde a queda do regime soviético. "Nós não poderemos deixar que a Otan transforme a Iugoslávia num protetorado. Não nos levem a uma ação militar, porque, seguramente, haverá uma guerra européia e, talvez, mundial", ameaçou Yeltsin. Ainda não foi desta vez que o arsenal russo mudou seu foco, mas permanece a ameaça. Este flexionar de músculos em grande parte se deve à percepção de que a Otan estava mais propensa a dar novo engajamento a suas tropas terrestres.

Na terceira semana de conflito, o líder sérvio começou uma dança lenta em direção às negociações de paz. Ao mesmo tempo que prometia o cessar-fogo, alegava que estava em negociações com lideranças kosovares para uma resolução pacífica de suas diferenças. Dizia também que muitos refugiados estavam voltando para suas casas, sem serem molestados. Através de seu amigo particular, o ex-presidente do Chipre Spyros Kyprianou, acenava com a possível libertação dos três soldados americanos capturados na fronteira da Macedônia. Todo este esforço de relações públicas, porém, iria por água abaixo como as pontes sobre o rio Danúbio, bombardeadas pela Otan.

Horas depois de ter acenado conciliatoriamente, Milosevic veria sangrar ainda mais o coração de Belgrado. Entre a terça-feira 6 e quarta-feira 7, os aviões aliados fizeram impressionantes 439 vôos, bombardeando 28 alvos em território iugoslavo. Compara-se: na Guerra do Golfo contabilizaram-se três mil missões aéreas, enquanto somente até o último dia 7, já se haviam completadas 4.500 ações na Iugoslávia. Os bombardeios foram tantos que no domingo de Páscoa o general Wesley Clark, comandante militar da Otan, teria de administrar embaraçosa escassez: em breve começariam a faltar mísseis de cruzeiro Tomahawk (valor de US$ 1 milhão a unidade). Foi preciso que o general entrasse em outra briga feia, desta vez com a Marinha americana, para ganhar o reforço do porta-aviões USS Theodore Roosevelt.

Depois de ter perdido inúmeras batalhas no campo das relações públicas, a Otan finalmente conseguiria reverter o jogo à custa de bombas. O sistemático martelar de alvos nas principais cidades sérvias começou a fazer efeito. "A vida nas duas maiores cidades iugoslavas está ficando cada vez mais difícil", reconhecia o ministro, sem pasta,€ iugoslavo Milan Bozic. Uma dificuldade cujo melhor símbolo eram as multidões de voluntários sérvios que se prostraram como escudos humanos nas poucas pontes que restaram em Belgrado e Novi Sad, a segunda maior cidade do país.

Na cabeça ardilosa de Slobodan Milosevic começava a nascer uma estratégia para a paz. O próprio Ibrahim Rugova, líder pacifista dos kosovares albaneses, era mostrado nas tevês de todo o mundo, algo sem jeito, mas sorridente ao lado de Milosevic. Esta imagem, em plena Páscoa, foi recebida com o mesmo assombro dedicado aos que ressurgem dos mortos. Nos últimos dias de março, Rugova fora dado como assassinado pelos esbirros sérvios. "Ibrahim Rugova nunca foi representante da maioria do povo kosovar. Agora ele certamente não representa ninguém, além de si próprio", disse a ISTOÉ Ahmet Bajramaj, líder político da comunidade albanesa nos Estados Unidos. "De todo modo, não acredito que Rugova tenha feito qualquer tipo de pacto ou aceito qualquer promessa de Milosevic. Repare como no teipe, eles não falam nada. É por que não tinham nada para falar. As imagens mostradas pela televisão sérvia, são de pelo menos cinco anos atrás", acusa Bajramaj. Outro truque do ilusionista Slobodan Milosevic foi estancar a hemorragia dos refugiados na semana passada. Suas tropas parecem ter recebido a ordem para reverter o fluxo do êxodo humano. Em meio à fuga, milhares de pessoas foram forçadas a fazer meia-volta desde as fronteiras do Kosovo. À ponta de baioneta, estes refugiados seriam reconduzidos ao território que buscavam escapar.

"Temos informações seguras de que esta gente está agora sendo usada como escudo humano contra ataques às tropas sérvias na região", disse a ISTOÉ Isuf Hajrizi, o editor do jornal Illyria, órgão da comunidade albanesa em Nova York. "Milosevic está usando esse refluxo como instrumento de propaganda política, repetiu a ISTOÉ Kodra Ukaj, líder kosovar militando na comunidade albanesa que invadiu a avenida Arthur, no Bronx nova-iorquino. "O governo sérvio espera convencer o mundo de que o conflito na região kosovar está resolvido e que a população já está podendo voltar para casa. Mas fotos de satélite mostram a continuidade das ações de tropas na área. Mesmo o cessar-fogo alardeado não passa de espetáculo. Acredito que este esforço diplomático de agora demonstra que os bombardeios estão fazendo efeito", disse o militante Ukaj, cuja mãe está num campo de refugiados na Macedônia e seus oito irmãos desaparecidos. No front doméstico o presidente Bill Clinton na semana passada apenas começara a sair de uma barragem de mísseis políticos disparados contra sua política externa.

Com o fracasso dos primeiros dias de bombardeio, e o aumento do drama dos refugiados, começava a crescer o consenso de que seria necessário o envio de tropas terrestres para quebrar a espinha sérvia. O país começava então mais uma de suas típicas sessões de terapia e análise de grupo. "A América ainda sofre com o trauma paralisante da guerra do Vietnã", resumia a ISTOÉ o senador republicano John McCain, candidato a indicação do Partido Republicano às eleições presidenciais. "Existe o medo do alto custo de vidas humanas: imagine que o país não suportará ver seus soldados voltando para casa dentro de sacos plásticos. Mas a guerra é assim mesmo. Podíamos ter discutido a validade de entrarmos nesse conflito, mas agora que estamos nele teremos de ganhar. Não ganhar a guerra é muito pior", diz o senador. Como ele, 57% dos americanos na semana passada já favoreciam até mesmo o envolvimento de soldados numa operação terrestre.

De qualquer modo, a situação dos refugiados era tão desesperadora, que nem mesmo soldados ou os US$ 100 milhões em recursos doados pelos Estados Unidos seriam capazes de resolver o problema.

Até a terça-feira 6, as imagens dos milhares de refugiados kosovares em Blace, na fronteira entre Kosovo e Macedônia, causavam impressão comparável à de uma chaga aberta na face da Europa. O mesmo horror que a memória do mundo havia confinado aos velhos filmes sobre o Holocausto judeu ganhava cores fortes e atualidade. Mas antes do raiar da quarta-feira 7, as autoridades macedônias deram um jeito nisso. Enormes frotas com centenas de ônibus foram despachadas na calada da noite para dispersar a malta. Do dia para a noite, milhares de pessoas simplesmente desapareceram. Em seu lugar ficaram os entulhos das poucas posses de suas vidas arrasadas pela guerra de extermínio a sua raça. E também um insuportável cheiro forte, a exalação fétida de sua antiga presença, pairando no ar como um fantasma.

 

Receita para se safar

Uma inesperada mudança na opinião pública sérvia ou uma eventual tentativa de golpe poderia fazer com que Slobodan Milosevic tivesse que se embrenhar numa debandada ao estilo de Mobutu. Para imaginar que opções de fuga ele teria, conversamos com o autor do livro Hide your assets and disappear: a step by step guide to vanishing without a trace (algo como "Esconda sua grana e desapareça: um guia passo a passo para sumir sem deixar rastro"). Lançado recentemente nos EUA, o livro foi escrito por Edmund J. Pankau e mostra os meios de que os cidadãos dispõem – legais e ilegais – para proteger seu patrimônio da sanha do fisco e dos credores.

ISTOÉ – Se Milosevic tiver que fugir da Iugoslávia, qual seria o melhor lugar para ele se esconder?
Edmund Pankau – Equador e Paraguai serviriam. A primeira coisa que ele tem que fazer é arrumar uma nova identidade. É provável que tanto o Equador como o Paraguai possam oferecer um passaporte com qualquer nome. Basta depositar uns US$ 50 mil num banco local. Ambos os países precisam de moeda forte…

ISTOÉ – Alguma outra sugestão?
Pankau – Ele poderia ir para a Nigéria. Além de conseguir uma nova identidade, sua morte poderia ser encenada numa explosão de um barco ou num acidente fatal de carro e aí lhe darão o nome de alguém que realmente morreu. As explosões são mais adequadas pois não deixam vestígios.

ISTOÉ – Quanto custaria hoje para encenar a morte de alguém?
Pankau – Na Nigéria eles fazem tudo por uns US$ 1 mil. As pessoas caem nos rios e são comidas pelos crocodilos. Uma explosão de barco sai mais caro.

David Wallis

 

Tão longe, tão perto

Enquanto o governo brasileiro espera decisão da ONU para receber seus primeiros refugiados kosovares, cerca de mil sérvios fugidos da guerra se encontram no País. Entre eles, o sentimento maior é de revolta. "O mundo inteiro está sendo enganado pela propaganda americana. Pensam que nosso povo é violento, mas nós estamos apenas nos defendendo. Queremos paz, não queremos que nossas crianças brinquem com armas como estão fazendo hoje", desabafa a médica anestesista Diana Kosarac, 40 anos, há dois anos no Brasil. Sérvia nascida em Sarajevo, capital da Bósnia, a médica afirma ter perdido 32 familiares nos conflitos que se estendem há nove anos. "Todos foram mortos por muçulmanos. Mas não tenho ódio, sinto pena. Já auxiliei muitos muçulmanos nos hospitais e me orgulho disso", diz.

Diana repudia a acusação de que o governo iugoslavo esteja promovendo uma "limpeza étnica" na região de Kosovo. "Milosevic chamou os líderes separatistas para conversar mais de dez vezes. Mas eles são radicais demais."

"Vim com minha mãe e meus dois irmãos. Meu pai ficou, pois é médico e tem que ajudar. Falei com ele na quarta-feira (dia 7) e ele disse que o grande medo já passou e que está tudo bem, minha casa está intacta", conta em bom português a estudante Jasmina, 22 anos, que esteve em Belgrado há um mês.

"Sabemos fazer bem três coisas: jogar basquete, futebol e lutar", diz o embaixador da Iugoslávia no Brasil, David Dusic. "Só com bombas atômicas podem nos derrotar. Se as tropas da Otan entrarem, será pior que o Vietnã", diz. O embaixador lembra que o Exército nazista nunca conseguiu dominar o país. "Os alemães lembram muito bem quantos deles nós matamos. Nosso povo tem garra e vai lutar até a vitória", garante.

Bruno Weis e Eduardo Hollanda