Cultura

Rir é o melhor remédio

Na guerra pela audiência, as redes Globo, Record e SBT apostam no humor

Em tempos de crise, rir continua sendo o melhor remédio. Pelo menos é o que pensam as redes Globo, Record e SBT, que têm inflacionado sua programação com humorísticos não exatamente originais, mas que, como as velhas piadas, ainda surtem lá seu efeito. Só a Globo mantém no ar cinco programas do gênero, numa lista que inclui Casseta & Planeta urgente!, Sai de baixo, Muvuca, O belo e as feras e o recém-lançado Zorra total, este, um mosaico que mistura o humor mais moderno e sofisticado – centrado nas atuações de Andréa Beltrão e Denise Fraga – com o retorno de veteranos como Agildo Ribeiro e até de antigos personagens criados por Chico Anysio, entre eles o canastrão Alberto Roberto.

Determinada a investir nas gargalhadas, a Globo finalmente dará a Tom Cavalcante seu tão sonhado programa solo. Mega Tom está saindo do forno tendo o cartunista Miguel Paiva entre os diretores. "O Tom tem uma grande capacidade para criar personagens e uma agilidade de juntar idéias como um furacão", diz Paiva. A diretora geral da emissora, Marluce Dias da Silva, também prometeu programas próprios a Claudia Jimenez e Luiz Fernando Guimarães, que está momentaneamente sem trabalho com o fim de Vida ao vivo show, tirado do ar sob fofocas de que não comportava os egos inflados dele e de Pedro Cardoso. Por enquanto, Claudia atua em Zorra total, mesmo destino de Pedro Cardoso, mas quer mesmo voar sozinha. "Posso fazer muita coisa. Não que me ache a quinta maravilha do mundo, mas posso fazer entrevistas, programas de auditórios, talk-shows…"

O investimento global não acontece por acaso. Apenas se coloca na trilha da concorrência, que desde o início do ano vem conseguindo boas performances de audiência reciclando velhas piadas. Na Record, A escolinha do barulho – na verdade uma descarada cópia da antiga Escolinha do Professor Raimundo, que também voltou na Globo – tem dado bastante certo. A execução do projeto, contudo, é curiosa. Trata-se da associação da GPM, Gugu Promoções de Merchandising, empresa do apresentador Gugu Liberato, contratado do SBT, com a produtora paulistana Câmera 5 e uma cooperativa batizada de Artistas Unidos criada pelos egressos da Escolinha do Professor Raimundo que estavam desempregados. Escolinha do barulho traz à ativa tipos como Zé Bonitinho, vivido pelo ator Jorge Louredo, que vem fazendo sucesso com as novas gerações.

Mesmo enfrentando penosas sequências de gravações, realizadas num calorento galpão na zona central de São Paulo, os veteranos recebem suas compensações. De acordo com a Record, o elenco tem direito a uma premiação a cada vez que conseguem médias superiores a oito pontos na medição do Ibope. Como tal feito virou rotina, os comediantes acrescentam ganhos diários de R$ 3 mil a 5 mil, que eles rateiam no final do mês. Diante do sucesso, o diretor Homero Salles reconhece que não tem a menor intenção de ser inovador. "As situações no humor brasileiro se repetem. O nosso segredo é contar a mesma piada numa linguagem popular."

No SBT as velhas-novas risadas atualmente acontecem em Ô, coitado!, humorístico no qual a atriz mineira Gorete Milagres protagoniza a simplória empregada doméstica Filomena ao lado do Steve de Moacir Franco. "A idéia de usar uma empregada é manjada. Mas o diferencial é o jeitinho da Gorete, que é adorada pelas crianças", lembra Franco. A personagem existe desde o final dos anos 80, quando Gorete ainda era artista de rua em Belo Horizonte. Desde então seu figurino não mudou. Os dentes são pintados com lápis preto para parecerem podres, na cabeça usa um lenço e no corpo um vestido de chita para cobrir os parcos 40 quilos ajeitados em 1,57m. Nos pés, chinelos com meias que se arrastam com sofreguidão. "Filomena não tem humor do umbigo para baixo e nem depende de piadas de duplo sentido", alerta a atriz, sob elogios do parceiro Moacir Franco. "É o grande momento de Gorete, até se ela fizesse um programa de culinária seria um sucesso."

Ô, coitado! tem agradado ao público e ela aproveita a chance. Estreou em São Paulo o show Filomena e seu cachê em apresentações pelo País nunca é menor do que R$ 8 mil. Gorete Milagres ainda planeja gravar um CD cantando de forró a rap. E em junho lança a boneca Filomena, que quando tem a barriga apertada, grita o quê? "Ô, coitado!"