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Tiro de letra

Sociólogo derruba general e vira o homem forte da polícia fluminense

Ele nunca deu um tiro, não entende nada de artes marciais e a única musculação que fez na vida foi o levantamento dos pesados livros indispensáveis a pesquisas de Sociologia. Apesar disso, Luiz Eduardo Soares pode ser considerado o maior inimigo dos traficantes, contrabandistas de armas, lutadores de jiu-jítsu, policiais corruptos e outras tribos violentas que tiram a paz dos moradores do Rio de Janeiro. Mesmo no obscuro cargo de subsecretário de Pesquisa e Cidadania, ele ganhou status de mandachuva da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Esse poder foi reforçado na semana passada, quando o governador Anthony Garotinho (PDT) decidiu a seu favor a queda-de-braço que disputava com o titular da pasta, o general José Siqueira. Na terça-feira 6, Garotinho demitiu Siqueira depois de um imbróglio em que Soares denunciou a existência de grampo nos telefones da cúpula da secretaria e se desentendeu com o general por causa do serviço de inteligência da polícia. O episódio foi apenas a gota d’água na briga entre os dois. "Os auxiliares convenceram o general de que eu não passava de um comunista que politizava as questões da polícia. Passamos a ter dificuldades de diálogo", revela Soares. Nessa guerra, o general foi derrotado pelo sociólogo.

Para suceder Siqueira no cargo de secretário, o governador indicou o coronel PM Josias Quintal, mas é Soares quem dá o tom do combate à criminalidade no Rio. Formado pela PUC, autor de oito livros – três deles sobre a violência urbana –, mentor do plano de segurança pública do então candidato Garotinho, o sociólogo de 45 anos desconversa quando perguntado sobre sua influência na secretaria. O fato de ter nas mãos o abacaxi da Segurança Pública e a primeira grande crise que enfrenta no governo não mudaram o seu jeito pacato, sua voz baixa e o sorriso frequente. Nem mesmo as várias ameaças de morte que recebeu desde que anunciou uma faxina na polícia fluminense quebraram o seu temperamento tranquilo. "Não vou fazer disso um drama. A satisfação de poder transformar em prática um projeto teórico de mais de dez anos supera qualquer dificuldade", garante. Mesmo com tantas ocupações no governo, Soares faz questão de não deixar de lado a vida acadêmica e quando pode arranja uma brecha para dar aulas de Sociologia. "Ele está vibrando, trabalha de manhã à noite", elogia o antropólogo Rubem César Fernandes, coordenador do Viva Rio, antigo parceiro nos movimentos em defesa da cidadania.

Se pudesse voltar no tempo, Soares tentaria evitar a crise que derrubou o secretário de Segurança. "Mas não dependia de mim", diz. O general Siqueira prefere não comentar o assunto. As divergências quanto à formação da equipe do Centro de Inteligência de Segurança Pública (Cisp) foram o combustível dos desentendimentos. Soares defendia a mudança de comando, pois considerava os homens do Cisp comprometidos com o estilo truculento do governo anterior. Siqueira discordou e chegou a endossar a nomeação do coronel PM Marcos Paes, com fama de violento, para chefiar a contra-informação. Ele foi comandante do 19º Batalhão da PM numa época em que os policiais provocaram várias mortes. "Autos de resistência eram biombos que escondiam execuções. A responsabilidade de Paes como comandante está sendo apurada em vários inquéritos. Como poderíamos aceitar que ocupasse um cargo-chave no governo?", questiona Soares. Além disso, o subsecretário garante que o coronel PM jogava contra os próprios superiores. "Soube que fazia bravatas, dizendo que derrubaria a cúpula da Segurança. Nós estávamos criando um monstro para desestabilizar o governo, o próprio general Siqueira e a polícia." O comando do Cisp foi trocado e Paes acabou exonerado.

Soares sabe que esse foi apenas um dos muitos rounds que terá pela frente. Talvez a maior dificuldade a ser vencida é a resistência dos policiais em obedecer às ordens de alguém que veio de fora da instituição. Alguns agentes reclamam que o sociólogo critica demais a polícia e não tem experiência necessária para o cargo que ocupa. "Essas resistências são naturais e acabam com o tempo. Há quem me chame de policiólogo", diverte-se. Ele acha que a única maneira de superar as dificuldades é trabalhar duro. As mudanças começam a aparecer e as teses que até poucos anos eram restritas a debates de intelectuais de esquerda estão virando realidade. Grupos de negros e gays fazem palestras sobre direitos humanos para os policiais e um projeto de ocupação social tomou conta do morro Dona Marta. "Ninguém está inventando a roda. Estamos apenas colocando em prática as idéias que já circulam há muito tempo no meio acadêmico." A experiência do Rio é uma boa oportunidade de saber o quanto podem os livros contra os fuzis e as metralhadoras que dominam o cotidiano não só dos cariocas, mas de todos os brasileiros.

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