Brasil

Reforma nos corações

A visita do Dalai Lama ao Brasil reacende desejos de melhorar a realidade e põe em evidência esforços para tornar o ser humano mais solidário. Afinal, como lembrou o monge budista, instrução é fundamental, mas cérebros brilhantes também causam sofrimento

Os olhos brincalhões do Dalai Lama mantêm a simplicidade no meio de um cenário grandioso, de seguranças nervosos e das reverências à sua passagem. Sentado em posição de lotus sobre uma cadeira protocolar, ele balança suavemente o tronco, enquanto fala ora em inglês carregado, ora em tibetano, traduzido para as 1.800 pessoas que lotaram a Ópera de Arame, em Curitiba, na segunda-feira 5 e na terça-feira 6. Há sete meses, a argentina Lia Diskin, uma das fundadoras do Comitê Brasileiro de Apoio ao Tibete, foi procurá-lo na Índia, no Mosteiro de Dharamsala, onde vive. "Expliquei que estamos passando por uma verdadeira degringolada, com decadência de valores, corrupção, crescimento da marginalidade e da violência", descreve Lia, que estudou com o Dalai Lama na década de 80. "Disse a ele que sua vinda era necessária e urgente", lembra. Ela exprimiu a aflição de milhões de pessoas, e não apenas do Brasil ou de outros países latino-americanos. Melhorar o homem e o mundo é um sonho que se repete em todas as gerações. E que algumas almas generosas tornam um projeto de vida. Lia Diskin sabia que estava batendo na porta certa. Tenzin Gyatso, 64 anos, o 14º Dalai Lama, é uma dessas reservas de esperança e de atuação.

A proposta ambiciosa do monge budista – melhorar a humanidade – é no entanto terrena e realista. E, para divulgar sua mensagem, o Prêmio Nobel da Paz e militante da não-violência sabe lutar com as armas de seu tempo. Acalmou, com a promessa de nos visitar, a aflição da discípula latino-americana e, na semana passada, apresentou-se para um seminário de dois dias, cujo tema se lia na imensa faixa à esquerda do palco: "Extra Hipermercados apresenta: Valores Humanos e sua prática na vida cotidiana." Mais realista, impossível.

Em que pese o misticismo de boa parte da platéia, o Dalai Lama não acredita em magia, mas em trabalho árduo e em resultados lentos. "Cada um de nós é responsável por tornar o mundo melhor", disse o monge. "E isso deve começar por reformar o nosso próprio íntimo", enfatizou. "A importância da educação já foi compreendida, mas cérebros brilhantes também podem produzir grandes sofrimentos. É preciso educar os corações", recomenda o monge. Em sua opinião, não é preciso ser religioso para engajar-se nessa tarefa: cada um dos seis bilhões de habitantes do planeta pode ajudar. "Quando olhamos para conflitos como o de Kosovo, sentimo-nos impotentes", ele comenta. "Mas quando nos voltamos para os nossos conflitos internos e para a luta contra o egoísmo e pela compaixão, vemos que há muito a fazer. Podemos nos tornar mais felizes, criar famílias mais felizes e, da mesma forma, comunidades, países, um mundo melhor."

 

Antídoto contra raiva O caminho budista exige atenção para sentimentos como a raiva, que nos fazem perder o controle. O antídoto contra ela é a consciência permanente dos prejuízos que provoca. "Pode ser que um gesto de ódio faça mal a um inimigo, mas com certeza traz muito mais prejuízos a nós mesmos", ensinou o Dalai Lama, a um público de lamas, socialites (o fotógrafo de Caras procurava insistentemente Yara Baumgart), atrizes (as emocionadas Christiane Torloni e Maitê Proença), ecologistas, índios e professores.

Esse mestre lépido e sorridente é a melhor confirmação da eficácia do que ele prega: compaixão, persistência, autoconfiança, contentamento. Mal refeito das quase 24 horas de viagem da Índia a Curitiba e depois de uma manhã de seminário, gargalha ao perceber que cochichou em tibetano na orelha de um perplexo tradutor de inglês-português. Seus olhos passeiam pelas dezenas de gravadores à sua frente, durante a entrevista coletiva, e detectam os que param de girar. A alegria infantil e a insistência em se apresentar como mortal comum fazem dele um comunicador poderoso. O rabino Henry I. Sobel, presidente do Rabinato da Congregação israelita de São Paulo, que esteve com ele em Brasília, observa: "As qualidades humanas do mensageiro são tão importantes quanto a mensagem. Ser gente é a maior qualidade de um ser humano que quer tocar corações."

O consultor de empresas e ex-gerente de tecnologia informática Luiz Henrique Pontes, de São Paulo, tem feito bom uso disso em suas atividades. Ele sempre cuidou de desenvolver a espiritualidade e, recentemente, descobriu na Internet, a ONG Centro para a Cura das Atitudes. Fundada em 1975 nos Estados Unidos, a ONG dispõe hoje de uma rede de mais de 150 grupos em todo o mundo. Seu objetivo é reduzir o medo e o isolamento de forma a facilitar o surgimento do amor. No ano passado, Luiz Henrique abriu o primeiro grupo brasileiro. Agora já são quatro e um deles funciona no Hospital Central do presídio do Carandiru. "O hospital é um lugar onde convivem doentes de Aids, pessoas encarregadas de impedir que eles fujam e pessoas encarregadas de impedir que eles morram. Lá estão pessoas que a sociedade considera irrecuperáveis em todos os sentidos, mas muitos deles podem ter uma nova oportunidade", diz Luiz Henrique. Nem todas conseguem mudar, ele admite. "Mas é uma escolha. Depende apenas de vontade", diz. Seu trabalho baseia-se num método de 12 princípios que são exercitados pelo grupo. Os primeiros: a essência do nosso ser é o amor; saúde é paz interior e cura é livrar-se do medo.

O medo é um freio da transformação e um dos primeiros alvos dos métodos destinados a mudar mentalidades. É assim nas empresas, onde começa a crescer a noção de que pessoas mais solidárias e menos competitivas produzem melhor. O psiquiatra Paulo Gaudêncio criou há dez anos um seminário que aplica em empresas e que se propõe a requalificar os impulsos das pessoas. "Todo impulso é saudável, mas aprendemos que uns são bons e outros maus, por isso os reprimimos, sobretudo a agressividade e o medo. Precisamos dos dois e temos de conviver com eles sem endurecer nem nos isolarmos."

 

Pais estressados Lidar melhor com as emoções no trabalho produz um grande impacto. "Como o homem não é um móvel de gavetas, mas sim um todo, quando ele muda no profissional, muda também no pessoal", constata o psiquiatra. Por sua estatística pessoal, ele calcula que um terço dos indivíduos nas empresas deseja mudanças, um terço não deseja e um terço espera para saber que lado vai ganhar. No livro que vai lançar em maio, Gaudêncio cita Maquiavel: "Nada é mais difícil de realizar do que iniciar a introdução de uma nova ordem, pois a inovação tem como inimigos todos aqueles que prosperam sob as condições antigas e como amigos aqueles que podem se beneficiar com as mudanças."

A artista plástica carioca Yvone Bezerra de Mello, que há 16 anos trabalha com crianças de rua e faveladas, conhece bem essas resistências. "Se dependermos do Primeiro Mundo, dos nossos governantes e dos ricos brasileiros, não vamos conseguir nada. O Primeiro Mundo só se interessa em faturar e gastar seus armamentos. Os ricos e os nossos governantes só mudam se a catástrofe for bater à sua porta", diz. Ela se queixa de que é raro um milionário ter R$ 30 para contribuir quando ela pede. "O dia em que os pobres se organizarem o País vai para frente e é através das crianças que isso vai acontecer."

É mais ou menos unânime que a grande oportunidade de formar pessoas íntegras é da família. Uma chance às vezes perdida. "A família dá tudo o que é bom e tudo o que é ruim, por isso deveria ser ajudada. Os pais vivem estressados, ansiosos, vítimas da violência social", diz Leonardo Posternak, pediatra e autor do livro E agora o que fazer? A difícil arte de criar os filhos (Editora Best Seller). "Junto com a educação de um filho, está a educação de um cidadão. Temos que unir o que desejamos para nós ao que fazemos para os outros." O pediatra, pai de três filhos adultos, sabe que educar é um trabalho miúdo no dia-a-dia, mas fundamental para o futuro. A escola tem um poder quase tão grande quanto o da família de formar cidadãos. A professora Márcia Vasconcellos Bacellar, 44 anos, supervisora de primeira a quarta séries no Colégio Anjo da Guarda, de 1.043 alunos, em Curitiba, comenta: "Podemos interferir nos valores da criança na hora que os conflitos aparecem, de modo que o que ensinamos tem a força dos exemplos; não se torna um discurso." As inevitáveis brigas, sobretudo na hora do futebol, são situações instrutivas. "Mostramos que dar socos não é a melhor solução para nada, e que há maneiras civilizadas de resolver discordâncias. Explicamos que o legal é quem consegue acabar uma briga, e não quem a começa", diz Márcia, participante do seminário do Dalai Lama.

 

Adesão na universidade Uma onda de interesse pelo aperfeiçoamento humano cresce entre universitários. Criado há 30 anos na Índia pelo educador e líder espiritual Sathia Baba, o Programa de Educação em Valores Humanos é aplicado hoje em escolas e universidades de 133 países, entre elas a de Harvard, nos Estados Unidos. No Brasil, a Fundação Getúlio Vargas, a Unicamp e a Unicapital são escolas parceiras, além de colégios de ensino fundamental e médio. Marilu Martinelli, professora da Fundação Peirópolis, criada para divulgar a proposta no Brasil, explica que ela pretende promover uma ordem social mais humana. "Ela propõe uma educação humanista e espiritual que, sem ser religiosa, resgata valores humanos de todas as religiões", explica Marilu.

Na quarta-feira 7, em Brasília, oito mil pessoas ouviram o Dalai Lama em suas palestras na UnB e na Câmara dos Deputados. Como os adeptos do budismo tibetano não passam de três mil no País, há uma evidente avidez por mensagens de esperança. Gilberto Gil, um dos artistas que se apresentaram em Curitiba, num show em homenagem ao Dalai Lama, na segunda-feira 5, sente que o homem quer mudar. "Esse desejo nunca foi tão firme quanto agora", considera. O deputado Fernando Gabeira acredita que, para a humanidade evoluir, as mudanças individuais pregadas pelo líder budista devem se articular às coletivas. Por via das dúvidas é bom garantir as duas.

Colaboraram: Chantal Brissac, Gisele Vitória, Bruno Weis e Celina Côrtes (RJ)

 

Sem pompa nem circunstância

De nada adiantaram as precauções do presidente Fernando Henrique de receber o líder espiritual do Tibete, o Dalai Lama, informalmente e em campo neutro, na casa do presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães. Na mesma quarta-feira 7, em que o presidente esteve por 15 minutos com o líder tibetano, o ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, chamou o encarregado de negócios da Embaixada da China para tentar minimizar o efeito do encontro. Ainda assim, a embaixada enviou a Pequim um relatório sobre o encontro. O Itamaraty bem que tinha avisado: se algum representante do governo brasileiro se avistasse com o Dalai Lama, haveria embaraços nas relações diplomáticas com a China. Perdeu a queda-de-braço para a primeira-dama Ruth Cardoso, que argumentou com o marido que ficaria muito feio ele deixar de conversar com o Prêmio Nobel da Paz de 1989, e para a presteza do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), que solicitou ao presidente do Senado seus préstimos para uma solução caseira.

O Palácio do Planalto tomou o cuidado de não divulgar o encontro e o presidente evitou ser fotografado ao lado do visitante. "Estou no limite dos compromissos internacionais do Brasil, mas minha presença aqui já tem um significado", comentou o presidente na casa de Antônio Carlos, esquivando-se de falar sobre o Tibete, invadido pela China há 50 anos. Para os chineses, no entanto, o presidente ultrapassou o limite.

Mesmo recebido sem pompa nem circunstância, o representante do Tibete esteve com o presidente do Brasil. Dez dias antes da visita, o deputado Afonso Camargo (PFL-PR), um dos organizadores da ida do Dalai Lama a Curitiba, ligou para Fernando Henrique, tentando agendar um encontro. Não teve resposta. "Não havia motivos para não recebê-lo. Clinton e Menem já estiveram com ele. O Itamaraty vê o Dalai Lama com olhos de chinês", comentou. Para o Itamaraty, o motivo da resistência são os US$ 2 bilhões do comércio bilateral entre os dois países.

Isabela Abdala

 

O Lama responde à platéia

Para se desenvolver espiritualmente é necessário meditar intensamente?
Dalai Lama – Evidente que não.

A adesão de tantas estrelas de Hollywood ajuda ou atrapalha a causa do Tibete?
Dalai Lama – Cada um deve cultivar as tradições e a religião de seu país. Mas se elas não satisfazem mais e se deseja adotar a de uma cultura distante, que trate de estudá-la a fundo.

Se houvesse mais mulheres no poder, o mundo seria mais pacífico?
Dalai Lama – Só se fossem mulheres pacíficas. Para o budismo, homens e mulheres são iguais em seus direitos e potencialidades. Assim, ambos podem ser bons ou maus.

Não existe um limite para a compaixão e a não-violência? O que é pior: morrer ou matar?
Dalai Lama – É melhor que a pessoa que sente compaixão sobreviva. Se um cachorro louco avança em nossa direção, em vez de pensar em compaixão é melhor sair correndo.

As expectativas nos trazem frustração. Seria melhor não ter expectativas?
Dalai Lama – O que nos frustra são as expectativas irreais, assim como os desejos impossíveis. Em relação a conquistas materiais, o melhor é satisfazer-se com pouco. Ricos: lembrem-se de que só temos um estômago, dez dedos e uma vida que dura no máximo 100 anos.

 

Biografia autorizada

Educado no catolicismo, tendo inclusive pensado em adotar a batina na juventude, Martin Scorsese parecia ser a pessoa menos indicada para filmar a biografia do 14º Dalai Lama. Sem falar que sua obra, centrada no submundo e no universo dos gângsteres ítalo-americanos, nunca pregou nada parecido com a não-violência budista. Mesmo assim, Scorsese se arriscou e até se deu bem. Kundun (Kundun, Estados Unidos, 1997), em cartaz nacional, é um filme de belíssimas imagens, que se encadeiam como as delicadas mandalas tibetanas de areia colorida, várias vezes mostradas em close.

Narrada em blocos, a cinebiografia de US$ 28 milhões foge completamente dos clichês hollywoodianos. "Acabamos fazendo um filme mais semelhante a uma peça musical do que a uma história dramática", afirmou o diretor, que encomendou a trilha sonora ao minimalista Philip Glass. Em pouco mais de duas horas, a produção rodada no Marrocos – a China não permite filmagens naquele território – acompanha cronologicamente a vida de Tenzin Gyatso, o Dalai Lama, desde os dois anos de idade, quando ele é revelado como a reencarnação do Buda da Compaixão, numa cena que remonta à viagem bíblica dos reis magos. Duas crianças e dois jovens atores fazem o papel do Lama criança e jovem até sua fuga para a Índia, em 1959, durante a invasão chinesa. São atores estreantes, assim como os outros 400 nomes do elenco, todos tibetanos exilados ou descendentes.

Escrito por Melissa Mathison, mulher de Harrison Ford, o filme é 100% a favor da causa tibetana. Melissa, aliás, se encontrou várias vezes com o Dalai Lama antes de colocar um ponto final na 14ª versão do roteiro. Apesar de tanto cuidado da equipe – que incluiu o cenógrafo e figurinista Dante Ferreti, dos filmes de Fellini e Pasolini –, Kundun, no entanto, não chega a desenhar um retrato palpável do Dalai Lama nem o caráter especial do Estado teocrático que representa. Quem sabe pouco sobre ele ou sobre o budismo não sai do cinema mais situado. E quem não tem posição definida em relação à atitude da China, não consegue tomar partido, já que até o falecido líder chinês Mao Tsé-tung aparece como um estereótipo. Belo, delicado, Kundun é uma reunião de reminiscências do Dalai Lama.

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