300.000 brasileiros

Atribui-se ao ditador comunista Josef Stalin pensamento segundo o qual “uma morte é uma tragédia; um milhão de mortes é uma estatística”. Qualquer obra que retrate o regime liderado pelo suposto autor da frase revela seu descaso pelos direitos humanos. Stalin foi responsável pela morte de inúmeros cidadãos soviéticos, pela perseguição de adversários políticos – mesmo integrantes do Partido Comunista – e de intelectuais avessos às atrocidades cometidas no período, entre outros alvos. A face desumana de Stalin confere verossimilhança à atribuição que lhe fazem do pensamento citado.

Admitir um milhão de mortes como estatística é ignorar a individualidade de cada óbito. Cada morte é uma tragédia, pois representa a ausência de avós e pais, netos e filhos, maridos e esposas etc. O Brasil já superou a marca dos 300.000 mortos pela Covid-19. É inaceitável que esse número seja compreendido pelas lideranças nacionais como mera estatística. Mortos não são problemas apenas para coveiros, como um brasileiro certa vez sugeriu.

É impossível identificar quantas dessas mortes poderiam ter sido evitadas caso o Brasil tivesse adotado estratégia distinta do negacionismo. Reconhecer a existência da pandemia levaria o governo brasileiro a firmar contratos voltados à aquisição de vacinas no mesmo instante em que outros países o fizeram. Esse reconhecimento também evitaria que talvez o único ministro da saúde efetivamente comprometido com o combate à pandemia fosse exonerado no curso da crise. Igualmente, viabilizaria a aquisição de equipamentos e medicamentos indispensáveis ao enfrentamento do enorme desafio sanitário.

No Amazonas, as pessoas morreram por falta de oxigênio, apesar de alertas levados ao conhecimento de autoridades sanitárias

Ainda que não seja possível afirmar quantas mortes seriam evitadas, não há como negar que muitas delas não teriam ocorrido. No Amazonas, brasileiros morreram por falta de oxigênio, apesar de alertas levados ao conhecimento de autoridades sanitárias. Aparições públicas comprovaram a absurda aversão, por parte de agentes públicos, ao uso de máscaras como medida de contenção da doença.

Após a morte de 300.000 brasileiros, mesmo que o número pareça ser encarado como fria estatística por alguns de nossos políticos, é preciso que os esforços das autoridades públicas ocorram de maneira unificada. As conquistas da ciência, dentre elas as mais recentes do Instituto Butantan, devem ser objeto de significativo investimento, assim como a aquisição de vacinas, equipamentos e medicamentos. Atos e omissões de governantes estão gravados na História e por eles cada um será lembrado. É preciso que, antes tarde do que nunca, ao menos em prol da vida, todos nos unamos.


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