’30 Rock’, a comédia icônica criada por Tina Fey e estrelada por um elenco de peso incluindo Alec Baldwin, Jane Krakowski e Tracy Morgan, está disponível na Netflix desde o início de maio.
A série, que foi ao ar originalmente entre 2006 e 2013 nos Estados Unidos, é uma das produções mais influentes do gênero no século, apesar de sua audiência modesta na época. Com um humor ácido e meta-comentário sobre a indústria da televisão norte-americana, a produção é um prato cheio para fãs e interessados nos bastidores da TV.
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O que aconteceu
A série “30 Rock”, uma comédia icônica, foi lançada em 2006 e se tornou uma das produções mais influentes do século, apesar da baixa audiência.
Criada por Tina Fey, a atração satiriza os bastidores da televisão norte-americana, inspirada em sua experiência no “Saturday Night Live”.
Acumulando mais de 100 prêmios, incluindo 16 Emmys, a produção está disponível na Netflix desde maio.
Há mais de 50 anos no ar nos Estados Unidos, o programa Saturday Night Live (SNL) é uma das instituições mais relevantes da história da TV norte-americana. Ao longo das décadas, o SNL revelou talentos como Jason Sudeikis, Julia Louis-Dreyfus, Amy Poehler, Bill Murray, Robert Downey Jr., Adam Sandler e Eddie Murphy. Dentre os principais nomes que saíram do humorístico está Tina Fey, a primeira mulher a ocupar o cargo de roteirista-chefe da atração e que, após sua saída, decidiu criar uma série baseada em sua experiência.
O resultado foi 30 Rock, considerada pelo sindicato dos roteiristas dos EUA (WGA) como a melhor comédia do século 21 e vencedora de um número expressivo de Emmys enquanto esteve no ar, entre 2006 e 2013. A série, apesar de aclamada pela crítica, nunca conseguiu traduzir sua qualidade em audiência, raramente superando a 100ª posição entre os programas mais vistos, segundo a Nielsen, principal analista de audiência da TV no país.
A gênese de “30 Rock”
Ainda assim, a produção, que contava com um elenco formado por Tina Fey, Alec Baldwin, Jane Krakowski e Tracy Morgan (que também trabalhou com Fey no SNL), é vista hoje como uma das produções mais influentes do gênero de comédia do século. Admirada por profissionais da indústria, o programa garantiu participações especiais de grandes nomes como Matt Damon, Helen Mirren, Jim Carrey, Salma Hayek, Jennifer Aniston, Julianne Moore, Jon Hamm, Christopher Walken, Michael Keaton, Carrie Fisher e Martin Scorsese.
Disponível na Netflix desde o começo de maio, 30 Rock se estabelece como um compromisso obrigatório para fãs de comédia ou para quem deseja aprofundar-se nos processos de bastidores da TV norte-americana.
A trama
Como mencionado, 30 Rock nasceu da vivência de Fey como roteirista-chefe e integrante do elenco do SNL. Na série, ela interpreta Liz Lemon, criadora, showrunner e produtora do The Girlie Show (TGS), um programa de esquetes ao vivo estrelado por sua melhor amiga, Jenna Maroney (interpretada por Jane Krakowski).
Lutando com números de audiência em declínio e uma consecutiva perda de relevância, o TGS se vê ameaçado quando o executivo Jack Donaghy (Alec Baldwin) é designado pela General Electric, então proprietária da NBCUniversal, para gerenciar as produções da Costa Leste dos EUA. Uma de suas primeiras determinações é a contratação de Tracy Jordan (Tracy Morgan), um comediante excêntrico, mas extremamente popular, para ser a nova estrela da atração.
Apesar de impulsionar a audiência do programa, Tracy instaura o caos no TGS. Além do comportamento errático do humorista, do ego incontrolável de Jenna e da falta de profissionalismo dos roteiristas, Liz também precisa lidar com as interferências corporativas da General Electric na produção, o que a coloca em confronto com seu novo chefe.
Ao longo das temporadas, a protagonista Liz Lemon acaba por se tornar uma espécie de aprendiz de Jack que, mesmo focado na arrecadação da NBC, luta nos bastidores para manter o TGS no ar. Juntos, eles superam os múltiplos obstáculos impostos pelo corporativismo norte-americano na televisão, enquanto também se ajudam em suas vidas pessoais.
Humor ácido e bizarrices
Um grande meta-comentário sobre a televisão dos EUA, 30 Rock raramente poupava críticas a todos os elementos envolvidos na produção de um grande programa televisivo. Patrocinadores, representatividade, preconceito e os comportamentos ególatras de astros hollywoodianos são frequentemente alvos da acidez de Tina Fey e de sua equipe de roteiristas.
Através dos personagens Tracy Jordan e Jenna Maroney, a série comenta as estratégias de relações públicas que constroem imagens imaculadas de celebridades, enquanto, nos bastidores, esses mesmos astros exibem comportamentos questionáveis. Por meio dos roteiristas do TGS, interpretados por Scott Adsit, Judah Friedlander, Keith Powell, John Lutz e Lonny Ross, Fey expõe o machismo presente na comédia no início do século.
Inclusive as numerosas participações especiais em 30 Rock, que incluíram Whoopi Goldberg, Robert De Niro, Octavia Spencer, Conan O”Brien e Jon Bon Jovi – interpretando versões de si mesmos – ocorreram como uma forma de expor os constantes jogos de poder da indústria. Robert De Niro, por exemplo, aparece sendo chantageado para participar de um quadro do TGS.
A cultura de fãs, personificada no inocente e dedicado secretário Kenneth (Jack McBrayer), também foi alvo das críticas de 30 Rock, que ora reconhecia a lealdade e o apoio do público, ora os questionava pelo suporte incondicional a astros e produções problemáticas.
Após anos recebendo apresentadores megalomaníacos e lidando com interferências políticas no SNL, Tina Fey utilizou o surrealismo e o humor non-sense para velar denúncias, essencialmente desabafando com o público sobre suas experiências na indústria.
Por que “30 Rock” não alcançou a audiência esperada?
Conforme destacado, 30 Rock é, de fato, uma das séries mais aclamadas por crítica e público dos últimos 30 anos. As sete temporadas da comédia registram uma média de aprovação de 78% da mídia especializada e 91% dos espectadores no agregador Rotten Tomatoes. Sua pontuação no IMDb é alta, 8,3 de 10. Mesmo seus episódios menos elogiados são considerados entre os mais bem escritos da época. Contudo, os números da Nielsen obtidos por Tina Fey e sua equipe eram modestos, o que se explica por diversos fatores.
O principal deles é a concorrência. Enquanto estava no ar, 30 Rock competia com gigantes de audiência em outras emissoras, como Scrubs, Modern Family e How I Met Your Mother. Mesmo dentro da própria NBC, a série era comparada a The Office e Parks and Recreation, duas das produções de maior sucesso da história do canal. Assim, apesar de atrair milhões de espectadores, o programa enfrentava pesos pesados das sitcoms.
Outro “problema” de 30 Rock era seu tipo de humor, considerado inacessível para o grande público – um obstáculo que também marcou outra comédia cult da NBC, Community. A alta frequência de piadas autorreferentes, o surrealismo de algumas tramas e sua insistência no absurdo não conseguiam competir com as concorrentes mais “digeríveis”, o que, como resposta, fazia Tina Fey apostar ainda mais na loucura.
A metalinguagem empregada na série também é apontada como um fator que afastou espectadores casuais. Enquanto a maioria das comédias da época focava em relações interpessoais cotidianas, essas tramas frequentemente serviam apenas como pano de fundo em 30 Rock, que preferia dedicar os 20 minutos de seus episódios a comentários sobre a indústria. Isso era, por vezes, interpretado como autoindulgência por quem não compreendia suas críticas.
E, quando parecia ceder à normalidade, construindo tramas românticas para Liz Lemon ou Jack Donaghy, 30 Rock rapidamente surpreendia a audiência com reviravoltas absurdas que culminavam esses relacionamentos da forma mais bizarra possível.
Apesar de todos esses fatores, 30 Rock, assim como a já mencionada Community, conseguiu fidelizar uma audiência. Embora seus números fossem medianos na transmissão original da NBC, eles cresceram exponencialmente quando a série foi exibida em canais a cabo que a licenciaram e quando a Nielsen passou a contabilizar espectadores que gravavam os episódios para assisti-los posteriormente.
Troféus e legado duradouro
Poucas coisas agradam mais os votantes das grandes premiações de Hollywood do que produções que abordam a própria Hollywood. Como esta era a força motriz principal de 30 Rock, não surpreende que a série tenha acumulado troféus ao longo de suas sete temporadas.
No total, foram 16 Emmys (incluindo três de Melhor Série de Comédia), sete vitórias no WGA Awards e seis Globos de Ouro. Somados a premiações menores, 30 Rock recebeu mais de 100 prêmios em quase 370 indicações, números esmagadores que superaram até mesmo produções queridinhas como Friends, Seinfeld e How I Met Your Mother. Inclusive Modern Family, que teve quatro temporadas a mais que a série de Tina Fey, foi indicada apenas 30 vezes a mais.
Além dos prêmios, a série também influenciou diretamente o tom de comédias extremamente populares lançadas nos anos seguintes à sua estreia. Unbreakable Kimmy Schmidt (também criada por Tina Fey), Veep, Better Off Ted, Broad City e Brooklyn Nine-Nine alcançaram sucesso ao beber da fonte satírica e absurda de 30 Rock.
Mesmo títulos mais realistas, como Atlanta e The Studio, talvez não tivessem a aclamação que obtiveram se 30 Rock não tivesse popularizado a combinação de meta-comentário e surrealismo durante sua exibição original.
Vale a pena assistir “30 Rock”?
Seja para ver Liz Lemon desesperada por causa de Jenna Maroney e Tracy Jordan, Jack Donaghy criando rivalidade com uma adolescente ou apenas para rir das desventuras que assombram o TGS, 30 Rock é obrigatória para qualquer fã de comédia. Ágil, ácida e tão absurda quanto deliciosa, a série finalmente está disponível em um serviço de streaming relevante, pronta para ser descoberta por uma nova geração de fãs.
Com sete temporadas, 30 Rock está disponível na Netflix.