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Os Balcãs em chamas

Para obrigar o presidente sérvio, Slobodan Milosevic, a assinar um acordo de paz com os rebeldes do Kosovo, a Otan bombardeia a Iugoslávia, mas a ação provoca protestos da Rússia e o temor de que o conflito se alastre pela região

Dois aviões bombardeiros B-2 Stealth, com capacidade hiper-hi-tech, voaram desde a base Whiteman, no Estado americano do Missouri, até o Norte da Itália, e dali à Iugoslávia, sem chamar a atenção de um único radar neste percurso. O Stealth, ao custo de US$ 2 bilhões a unidade, tem o poder de se tornar invisível aos radares. Sua aparência física, na realidade, lhe confere características de algo saído direto da bat-caverna. Este autêntico Leviatã atravessou meio mundo para fazer sua estréia em combate. É irônico que isso tenha ocorrido justamente numa guerra cujas origens remontam a pelo menos 600 anos. Na quarta-feira 24, as forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) usariam esta e outras armas de um arsenal digno do próximo milênio, numa operação punitiva aos massacres cometidos por forças sérvias na região do Kosovo, província sérvia que tem cerca de 90% da população de origem albanesa. No intervalo de um ano, tropas do presidente iugoslavo Slobodan Milosevic mataram cerca de dois mil kosovares e forçaram o êxodo de centenas de milhares. Um saldo de destruição, diga-se, muito maior do que o conseguido nos primeiros dias de bombardeio da Otan, cerca de 120 mortos, segundo os iugoslavos.

Via satélite
Eram 20 horas da quarta-feira, em Belgrado, quando os mísseis de cruzeiro Tomahawk começaram a cair na Iugoslávia. Eles partiram inicialmente do USS González, um dos seis navios de guerra americanos ancorados em águas do mar Adriático. Os aviões Stealth – parte de uma frota de 400 bombardeiros e caças – chegariam na segunda leva do ataque, com mísseis guiados via satélites. Passados 30 minutos depois de o primeiro míssel ter atingido o alvo em território iugoslavo, o presidente americano Bill Clinton foi a público justificar as ações: "Slobodan Milosevic não tem feito outra coisa desde o fim da guerra fria além de começar guerras e colocar gasolina nas chamas das divisões étnicas e religiosas." Imediatamente depois do ataque da Otan, as baterias também começaram a ser disparadas no campo da diplomacia. O primeiro-ministro russo, Yevgeny Primakov, que estava em pleno vôo com destino aos Estados Unidos, fez meia-volta sobre o oceano Atlântico. Depois de receber um telefonema do vice-presidente americano, Al Gore, comunicando o início iminente dos bombardeios, um irado Primakov abortou a viagem. Imediatamente, o presidente russo Boris Yeltsin começou uma campanha vigorosa em defesa dos sérvios, também eslavos e aliados históricos da Rússia. Além disso, congelou os vínculos de cooperação com a Otan e ameaçou furar o bloqueio imposto pela ONU e vender armas e equipamentos para a Iugoslávia. Na sexta-feira 26, Yeltsin expulsou de Moscou o embaixador da Otan, Alexis Chakhtakhinski.

Clinton lembrou ao mundo que: "Nós agimos para prevenir a explosão, no coração da Europa, de um barril de pólvora que já explodiu duas vezes neste século com resultados catastróficos." De todo modo, o conflito já ameaçava transbordar além dos limites da Iugoslávia, com ataques de artilharia sérvia à Albânia e protestos de rua contra os EUA na Macedônia. Representantes da Itália e da Grécia na Otan faziam apelos para que os 19 membros da aliança se reunissem para reconsiderar as ações militares. Num contra-ataque diplomático, a Iugoslávia anunciou o rompimento das relações com EUA, Alemanha, França e Grã-Bretanha.

Até o fim de semana, porém, ninguém falava em parar os bombardeios, que já tinham abatido cinco dos 15 caças MiG-29 dos iugoslavos, dois deles sobre a Croácia. Ao contrário, o Pentágono prometia mais ação nos ares. E, numa prova de que em termos de estratégia militar Bill Clinton também merece nota baixa, o presidente assegurou a todos que não estava em seus planos envolver tropas terrestres americanas nesta operação. Ele – seguindo o exemplo do chanceler alemão Otto von Bismark (1815-1898) – acha que os Bálcãs não valem os ossos sadios de um fuzileiro naval americano. "Ao assegurar que não haverá envolvimento de tropas terrestres, é como se o presidente tivesse dito a Milosevic para aguentar. Um dia os bombardeios acabam", disse o senador Trend Lott, líder da maioria republicana.

E os sérvios, de fato, aguentaram o tranco. A gigantesca onda do primeiro dia de ataque só terminaria às 5h24 de Belgrado. O estranho é que, durante todo este tempo, o temido sistema de defesa antiaérea iugoslavo não tenha esboçado reação. "As tropas sérvias não são como as iraquianas. Elas têm alto preparo, um sofisticado sistema de defesa do tipo SAM, de fabricação soviética, que lhes dá muita capacidade de contra-ataque", diria o porta-voz do Pentágono Ken Bacon, em meio à tensão daquele dia. Mas quem esperava o show de luzes nos céus iugoslavos, nas imagens da CNN – como ocorre sempre em Bagdá–, ficou decepcionado. Não só porque tanto a CNN como outros jornalistas ocidentais seriam expulsos do país já na quinta-feira 25, mas porque os disparos das baterias antiaéreas foram poucos. Somente um míssel terra-ar do tipo SA-6 seria disparado na terceira noite de ataque, sem causar nenhuma baixa na Otan. "Usar o sistema de defesa antiaérea neste estágio apenas forneceria bons alvos para a Otan. Segurar a reação poupa capacidade de mísseis sérvios para uma futura fase", explicou a ISTOÉ Vesna Pajevic, vereadora de origem albanesa da cidade de Krajudevac, que está emNova York.

"Sonho"
Marjan Cubi nasceu no Kosovo e é ex-coronel da Força Aérea americana. Hoje ele serve de assessor militar para o Exército de Libertação do Kosovo. Ele analisou para ISTOÉ os possíveis motivos da inércia do sistema de defesa SAM na Iugoslávia. "Os estrategistas militares sérvios podem estar poupando o sistema para quando os aviões tipo A-10 americanos entrarem em ação. O A-10 é um jato de ataque que está destinado a desmantelar as forças de assalto sérvias. Ele atacará os sérvios que estão aterrorizando os civis em Kosovo. Usando os mísseis do SAM para defender estas tropas, os generais de Milosevic sabem que têm mais possibilidade de obter sucesso. Se abateram uns três ou quatro aviões da Otan e conseguirem um prisioneiro para mostar na televisão, a situação se complicará para os aliados", disse Cubi. E sobre as suposições de que o sistema SAM teria entrado em pane e por isso estaria inutilizado, o coronel Cubi dispara: "Isso é sonho. Não acredito nisso."

A estratégia de Slodoban Milosevic, seja qual for, parece estar dando resultado. Os 40 alvos atingidos por mísseis da Otan, no primeiro dia, e os 100 outros pontos obliterados nos ataques seguintes não chegaram a abalar a tenacidade sérvia. "Os danos foram mínimos", diria o general Nebojsa Pavkovic, comandante das tropas sérvias no Kosovo. Certamente esta empáfia tem muito de propaganda de guerra para minar a confiança inimiga, mas o certo é que relatórios independentes chegados da Iugoslávia davam conta de que os danos infringidos a alvos sérvios até a sexta-feira haviam sido apenas simbólicos. "Os primeiros danos parece que foram causados em centros de treinamento de tropas de elite, instalações da polícia, fábricas, aeroportos e em parte do sistema de comunicações", diz Pajevic. "Enquanto isso, as tropas sérvias continuam causando destruição no Kosovo, sem serem molestadas", alerta a vereadora.

"O problema é que guerras não se vencem apenas com ataques aéreos", disse a ISTOÉ o senador republicano por Arizona John McCain, veterano do Vietnã. "O que se faz agora é lutar apenas meia guerra. Sem a participação de tropas terrestres, não há como fazer Milosevic sentar à mesa de negociações", dispara. Já foi lembrado que durante a Segunda Guerra Mundial as bombas V1 e V2 de Hitler nivelaram a região East End de Londres e outras cidades industriais inglesas, sem derrubar o governo de Winston Churchill ou arrefecer a disposição britânica. Os ataques aéreos a Hanói e Haiphong, durante a guerra do Vietnã, também foram brutais, mas não derrotaram Ho Chi Minh. E mais recentemente, "Saddam Hussein vem sendo bombardeado diariamente, e mandando no Iraque e causando problemas", lembra o senador McCain. Assim, sem comprometer milhares de soldados – que alguns analistas estimam em 100 mil – numa campanha terrestre catastrófica, o futuro do Kosovo vai continuar negro.

O passado da região ajuda a explicar o presente. No dia de São Vito, em 28 de junho de 1389, numa área chamada "Campo dos Pássaros Negros" – a seis quilômetros de Pristina, a capital do Kosovo, os sérvios perderam a batalha mais importante de sua história. Foi ali pelo Kosovo que entraram as tropas muçulmanas do Império Otomano que iriam matar, pilhar e dominar a Sérvia por muito tempo. Ali também está a tumba do patriarca da Igreja Ortodoxa Sérvia. E foi exatamente no Campo dos Pássaros Negros, há quase dez anos, que Milosevic fez um discurso que seria considerado o ponto de partida para as ações de eliminação étnica promovidas pelos sérvios. A História nos Bálcãs vem se repetindo como drama macabro. Numa terra de múltiplas bandeiras sempre em conflito, os simbolismos são tão inevitáveis, quanto cheios de ironias lúgubres. A Otan, criada em plena guerra fria para defender os países ocidentais de ataques comunistas, finalmente entra em ação contra um país que durante a guerra fria era tido como "não-alinhado" e rebelde à tutela soviética. A Otan completará 50 anos no mês que vem e nunca havia atacado um país soberano. Os aliados quebraram o jejum permitindo que a Luftwaffe – a força aérea alemã, integrada à Otan – voltasse a bombardear a Iugoslávia depois de quase 60 anos.

 

 

O peso da História
izia um famoso pensador alemão do século XIX que o passado histórico oprime, como um pesadelo, as mentes das gerações presentes. Não foi por acaso que o assassinato que serviu de pretexto para o início da Primeira Guerra Mundial tenha ocorrido na mesma data da batalha do Kosovo, no século XIV. O arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, escolheu justamente o dia 28 de junho de 1914 para fazer uma visita a Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, quando suas tropas faziam manobras militares junto à fronteira sérvia. País anexado pelos austríacos em 1908, a Bósnia tinha uma importante minoria sérvia habitando seu território. A escolha da data foi uma provocação deliberada para humilhar os sérvios. O arquiduque e sua esposa foram mortos por um nacionalista sérvio, Gavrilo Princip, que era ligado à organização terrorista sérvia Mão Negra.

Aliás, o líder dessa organização, o capitão Dragutin Dimitrievic (Ápis), é uma espécie de antecessor de Milosevic. Homem-forte do Reino da Sérvia, Ápis pressionava o rei Pedro I, que ele colocara no trono, a incentivar a unificação das minorias sérvias espalhadas em territórios então sob o domínio do Império Otomano, como a Macedônia, e do Austríaco, como a Bósnia e a Eslovênia. Eclipsada durante a Segunda Guerra e reprimida durante o governo do marechal Tito (1945-1980), a idéia da Grande Sérvia voltaria com o colapso da Iugoslávia, e ensanguentaria a Bósnia entre 1992-1995.
Cláudio Camargo

 


A guerra no cinema

Sempre inquieto e politizado, o cinema iugoslavo não fechou os olhos à tragédia pela qual passa o País. Em Underground – mentiras da guerra (1995), do bósnio Emir Kusturica, pessoas permanecem trancadas num abrigo antiaéreo fabricando armas durante décadas porque acreditam que a Segunda Guerra não terminou. Menos absurdo, Antes da chuva (1994), do macedônio Milcho Manchesvski, acompanha a dramática volta de um fotógrafo à terra natal, transformada numa arena de guerra religiosa entre cristãos e muçulmanos.
Ivan Claudio