Comportamento

O craque pregador

Muller, jogador milionário e vitorioso, anuncia que joga bola só mais dois anos. Vai ser pastor evangélico

Faz 16 anos que os zagueiros adversários enxergam nele o capeta em carne, osso e chuteiras nos pés. No domingo 28, recém-recuperado de uma contusão que o afastou dos campos por um mês, ele marcou o segundo gol da vitória do Cruzeiro sobre o Atlético Mineiro, por três a zero. Agora, porém, suas jogadas diabólicas estão em segundo plano. Desde julho de 1998, os grandes shows de Luís Antônio Corrêa da Costa, o Muller, bicampeão mundial pelo São Paulo Futebol Clube e com três Copas do Mundo no currículo, são os que ele faz como porta-voz da palavra de Deus. Ao frequentar uma igreja pentecostal em Belo Horizonte, ele tem se revelado um fervoroso pregador e leva tanto jeito para a coisa que, no próximo dia 8 de abril, será consagrado pastor evangélico. "Estou cansado da rotina do futebol. Tenho mais dois anos de contrato com o Cruzeiro, depois eu paro. Só vou jogar bola com os amigos, nos fins de semana. Vou ser pastor, pois meu destino é pregar", diz o jogador, de 33 anos.

Quem se acostumou com o estilo frio e incisivo de Muller dentro de campo leva um susto ao vê-lo pregar bordões como "Aleluia, Senhor" aos berros, com movimentos frenéticos, como se vivesse uma espécie de transe. "A imagem me chocou", diz o técnico do Cruzeiro, Levir Culpi. O jogador afirma que só quem não conhece rituais evangélicos pode estranhar a maneira inflamada de manifestar sua fé. "É assim minha forma de expressão ao sentir Deus perto de mim. Mas não perco a consciência em nenhum momento."

Às segundas-feiras, Muller é a atração dos cultos da igreja Portas Abertas, localizada no centro de Belo Horizonte. Nesse dia ele é o pregador principal do culto que atrai em média mais de mil crentes. A fé do craque tem até provocado certos "milagres mineiros": muitos crentes são torcedores do Atlético Mineiro, clube arqui-rival do time de Muller. "Sou atleticano doente, mas ter ele aqui é uma bênção", aprova o servidor público Edergílson Pereira, 34 anos. A bênção tem dado frutos. Beneficiada pelo dízimo do milionário jogador-pastor, a igreja está trocando o piso de cimento por um de granito, numa reforma de cerca de R$ 16 mil. "Ele tem vocação. O Muller de Belo Horizonte é diferente do Muller de São Paulo", afirma o pastor Alexandre Ribeiro, 28 anos, líder da Portas Abertas.

Ex-símbolo sexual
Sem querer, o pastor ressuscita um passado que Muller preferia não lembrar. Depois de estourar em 1985 no São Paulo, o atacante largou para sempre a vida humilde em Campo Grande, Mato Grosso, onde nasceu. Dinheiro, carrões, mulheres e noitadas passaram a fazer parte da rotina do jovem craque, a ponto de ele deixar o grupo religioso a que pertencia, os Atletas de Cristo, botar brinco na orelha e posar de peito nu em capa de revista. Muller foi um sex symbol do futebol. Hoje, porém, o jogador afirma que "o passado Deus jogou em um mar de esquecimento". Os lances de Muller com as mulheres eram tão imprevisíveis quanto seus dribles. No auge da carreira, em 1987, ele se casou com a ex-chacrete Jussara Mendes e três anos depois se separou. Em 1993, evangélico praticante, Muller conheceu na igreja a também crente Miriam Rodrigues, então com 17 anos, e cometeu o que considera o maior erro de sua vida. Em uma suntuosa cerimônia, casou com Miriam e, dois meses depois, se separou. "Nós, seres humanos, somos falhos, e por isso temos que seguir a imagem de Deus", prega o craque, que fez as pazes com a primeira mulher, mãe de seus três filhos e com quem está desde então.

Após pendurar as chuteiras, muitos jogadores mantêm-se atrelados ao futebol, seja como treinador, dirigente ou comentarista. Outros procuram preservar o bom fluxo de suas caixas registradoras, abrindo negócios extracampo, como Romário que, antes mesmo de parar, já possui um bar no Rio de Janeiro. Mas, quando largar o futebol, Muller provavelmente vai gastar mais do que receberá como pastor evangélico. E, em vez dos horizontes amplos de uma estrela internacional, fará parte de um cenário simplório em que o único talento legítimo é falar em nome de Deus. Para Muller, é também um retorno às origens. "Sou protestante desde pequeno", lembra o craque. "Por isso, não me intimido em aparecer em público como pregador. A palavra de Deus tem que ser propagada de