Medicina & Bem-estar

O poder dos alimentos

Uma ciência chamada nutracêutica coloca frutas, cereais, peixes e legumes no microscópio e confirma sua eficácia na prevenção de várias doenças


Como foi o seu último jantar? Muita verdura e fruta ou carne carregada de molhos gordurosos? Se foi mais parecido com a segunda opção, é bom ficar atento. A importância dos alimentos na saúde é conhecida, mas agora o que se coloca no prato começa a ganhar de fato status de remédio. O responsável por essa revolução é uma nova ciência – batizada de nutracêutica –, que finalmente se propõe a esquadrinhar o que se come e quais os efeitos desses alimentos no organismo. E os resultados que estão sendo obtidos não poderiam ser mais animadores. A fantástica oferta de verduras, legumes e frutas, principalmente, à disposição do ser humano pode realmente ajudá-lo a tratar doenças que vão de uma simples gripe até o câncer.

Os mais céticos podem torcer o nariz para tanto entusiasmo. Será possível que um simples brócolis interfere no metabolismo do corpo a tal ponto que consiga beneficiá-lo de alguma forma? Como um prato de salada pode contribuir para dar um final feliz a uma história de câncer que caminhava para um desfecho trágico? E é aí que as respostas da nutracêutica estão sendo fundamentais. Essa ciência descobriu que os alimentos funcionam porque contêm, entre outros elementos, o que está sendo chamado de composto bioativo. São substâncias de nomes esquisitos, como licopeno e flavonóides, que são excelentes auxiliares na prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares, câncer e diabetes, entre outros males. No brócolis, por exemplo, estudos feitos com compostos como o ácido cinâmico demonstraram que ele tem capacidade anestésica e ação contra fungos. No alho, descobriu-se que o ácido ferrúlico tem funções antibióticas e que estimulam o sistema imunológico. No tomate, o licopeno já se revelou uma excelente arma na prevenção do câncer, principalmente os de bexiga, mama e próstata. "Uma vez no organismo, esses compostos podem ajudar na cura e tratamento de doenças", diz a nutricionista paulista Lisia Kiehl. O que os cientistas estão tentando decifrar é exatamente a maneira como os compostos bioativos agem. "Em geral, por possuírem um forte poder antioxidante, eles evitam a oxidação das células, um processo que contribui para o desenvolvimento de doenças degenerativas", completa Lisia. Em sua grande maioria os compostos bioativos estão distribuídos nas frutas, legumes, verduras e cereais. Dos produtos de origem animal, por enquanto, o que se descobriu é que os únicos a contê-los são os peixes de água fria, como salmão, o leite fermentado e o iogurte.

Chancela científica
Feitas dentro dos laboratórios, essas descobertas têm dois objetivos. O primeiro é dar uma chancela científica a velha sabedoria popular de que os alimentos têm poder curativo. O segundo é isolar o componente bioativo e inseri-lo em outros, no próprio alimento ou em cápsulas naturais, em doses que comprovadamente podem ajudar na saúde. Há alguns países que começam a se beneficiar desses conhecimentos. Na França, por exemplo, já está à venda um tomate com alto teor de licopeno, que combate o câncer. Nos Estados Unidos – onde a nutracêutica ganha força a cada dia e engloba também o estudo dos suplementos vitamínicos e de sais minerais, alimentos enriquecidos e ervas medicinais – 40% dos americanos estão complementando ou trocando as tradicionais receitas médicas por uma solução nutracêutica. Ou seja, estão recorrendo aos alimentos, ervas e suplementos como verdadeiros remédios. É um mercado em franca ascensão. Segundo o Nutrition Business Journal, só nos Estados Unidos ele movimenta US$ 92 bilhões por ano. No Japão, outro país onde a ciência tem cada vez mais importância, esse mercado movimenta US$ 4 bilhões por ano. Para se ter uma idéia, a indústria alimentícia no planeta fatura cerca de US$ 2,2 trilhões anualmente. E a curiosidade em torno do assunto não pára de crescer. No Japão, nos Estados Unidos e na Europa existem revistas especializadas, sites na Internet, livros, associações e esses alimentos são os principais temas de conferências sobre nutrição.

Alimento funcional
No Brasil, essa nova linha de pesquisa engatinha. Ainda não é possível encontrar no supermercado um alimento modificado como o tomate da França. Mas está para ser assinada pelo secretário nacional de Vigilância Sanitária, Gonzalo Vecina Neto, uma regulamentação sobre o que aqui está sendo chamado de alimento funcional. "É um novo conceito de alimento que vai além de seu aspecto nutricional básico e pode ajudar na prevenção e tratamento de doenças", explica o bioquímico paulista Franco Lajolo, que coordenou o comitê que elabora a regulamentação desses alimentos. Assim que a regulamentação dos alimentos funcionais entrar em vigor, o que deve acontecer em menos de um ano, provavelmente muitas empresas vão querer dar esse rótulo a seu produto. A seleção do que vai ou não para a prateleira com o carimbo de terapêutico vai depender do Ministério da Saúde. "Todos os pedidos de alegação funcional serão examinados por uma comissão e terão de estar embasados em estudos aceitos pela comunidade científica internacional", afirma o professor da Escola de Nutrição da Universidade Federal de Ouro Preto, Ricardo Coelho, que também participou da elaboração do regulamento para alimentos funcionais.

Menos gastos
E esses estudos caminham a todo vapor. Nos Estados Unidos, um dos principais centros de pesquisa é o Functional Foods for Health, que funciona dentro da Universidade de Illinois e é comandado pela nutricionista Clare Hasler. O centro se dedica a melhorar a saúde do ser humano e a reduzir os gastos com tratamento de doenças por meio de pesquisas e produção de compostos bioativos. Afinal, quanto mais se investir na prevenção com a ajuda da alimentação menos se gastará em tratamentos caros, quando as doenças já estão em estado avançado. "A comida funcional é a grande sensação do mercado alimentício", diz Clare. Atualmente, a soja e a ação que ela pode ter na redução do colesterol – um dos maiores fatores de risco para doenças cardiovasculares – estão sendo os principais temas de pesquisa do centro. Estudos realizados anteriormente com a soja demonstraram que alguns de seus compostos bioativos, como o lupeol, podem auxiliar no tratamento da malária.

Outra pesquisa, realizada no Jonsson Comprehensive Cancer Center, da Universidade da Califórnia, e conduzida pelo oncologista John Glaspy, vem demonstrando que a relação entre alimentação e câncer também pode ser mais estreita do que se pensava. O trabalho, que deverá durar dez anos, procura descobrir se uma dieta com pouca gordura e rica em ácido ômega-3 (composto bioativo encontrado em peixes de água fria, principalmente no salmão) pode ajudar a prevenir, tratar e evitar o retorno do câncer de mama. Por enquanto, resultados preliminares, publicados no Journal of the National Cancer Institute, revelaram que quando uma mulher come mais ômega-3 a composição de seu tecido no seio muda. "Essa mudança deve ter implicações na prevenção do câncer", diz Glaspy. Atualizado com o que se produz lá fora, o oncologista brasileiro Agnaldo Anelli recomenda a seus pacientes que comam alimentos ricos em fibras – como legumes, frutas e cereais – para prevenir o câncer de cólon (intestino grosso). "Isso já está comprovado, mas há estudos apontando outros alimentos na prevenção de alguns tipos de câncer", lembra o médico. "Um deles foi feito com o tomate, que ajudaria a evitar o tumor de próstata", completa.

Dois copos
A nutracêutica também está confirmando que, em muitos casos, não são apenas os alimentos que possuem propriedade terapêutica, mas também seus derivados. É o caso da uva e do vinho. Tanto a fruta quanto a bebida possuem compostos fenólicos, que são antioxidantes e reduzem o colesterol. Essa capacidade está tão aceita por médicos e cientistas que, nos Estados Unidos, produtores de vinho de Napa Valley (norte de San Francisco) comemoram a permissão dada pelo governo americano para que os vinhos tintos produzidos por lá tragam em seus rótulos afirmações de que um a dois copos de vinho fazem bem à saúde. "Já estava na hora", comemora Tom Shelton, presidente dos produtores de Napa Valley. Por aqui, também não são poucos os médicos que costumam receitar a seus pacientes o consumo regular e moderado da bebida. "O ideal é tomar todos os dias, de um a dois copos por refeição", afirma o médico Sérgio de Paula Santos, autor de sete livros sobre vinho, inclusive a respeito de seu poder terapêutico. Mesmo sem saber do interesse da ciência em decifrar essa espécie de poder mágico dos alimentos, muita gente faz de suas refeições um caminho para cuidar da saúde. Sem dúvida, uma sabedoria que a medicina assina embaixo.

 

Ervas no microscópio

Os alimentos não são o único objeto de estudo da nutracêutica. Essa nova ciência também se dispõe a investigar os componentes das plantas e descobrir seus benefícios para a saúde. O interesse pelo poder das ervas é justificável. Nunca a procura pelos remédios fitoterápicos – feitos à base de plantas – foi tão grande como agora. De acordo com as previsões da Organização Mundial de Saúde (OMS), no próximo ano só na Europa o mercado mundial de fitoterápicos e produtos naturais registrará um volume de vendas de US$ 500 bilhões.

E assim como nos alimentos, a ciência também está comprovando os efeitos terapêuticos das ervas. Bastante estudada no Brasil, a quebra-pedra, por exemplo, se mostrou realmente eficaz na destruição de cálculos renais. No Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá, a pata-de-vaca é utilizada no tratamento da diabetes porque reduz a quantidade de glicose no sangue. A ginkgobiloba, planta de origem chinesa, está fazendo sucesso inclusive no tratamento de labirintite.

Até mesmo problemas como a ansiedade estão sendo tratados com a ajuda das plantas – nesse caso, a erva que vem demonstrando eficiência é a kava-kava, natural da Polinésia. "As pessoas estão interessadas em valorizar o conhecimento popular sobre os benefícios das plantas", acredita Zheca Catão, 34 anos, representante no Brasil da Neals Yard, loja de produtos naturais.

Colaboraram: Carla Gullo, Cilene Pereira (SP) e Francisco Alves (RJ)


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