Brasil

Os mistérios de PC Farias

Reportagens de ISTOÉ evitaram que a morte do ex-tesoureiro de Collor fosse arquivada como crime passional, mas a falta de investigações e um julgamento realizado 17 anos depois fizeram com que os detalhes da história de corrupção não se tornassem públicos

Os mistérios de PC Farias

O DESMANCHE


A convicção de que estávamos diante de uma farsa começou a se formar no meio da tarde do domingo 23 de junho de 1996. Do lado de lá do muro do grande e avarandado sobrado de madeira erguido no meio de um bem cuidado gramado, na praia de Guaxuma, litoral norte de Maceió, a cúpula do governo de Alagoas e policiais civis e militares caminhavam de um lado para o outro. Do lado de cá, dezenas de jornalistas e curiosos se aglomeravam em busca de alguma informação. Até então, tudo que se sabia era que no interior daquela casa estavam os corpos do empresário Paulo César Farias, o PC, e de sua namorada, Suzana Marcolino. Ela, uma mulher de 28 anos, disposta a apostar em um romance que lhe trouxesse conforto material. Ele, o ex-tesoureiro do presidente Fernando Collor. Um homem que vivia cercado de seguranças, conhecedor de todos os mensalões da época. No submundo da política, sabia exatamente quem dera dinheiro para quem e a troco de quê. E naquela semana iria depor em uma CPI na qual ameaçava entregar os nomes dos empresários que alimentaram o propinoduto que levou ao impeachment de Collor.

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O DESMANCHE DE UMA FARSA
O cenário do crime foi montado para tentar validar a tese de homicídio
seguido de suicídio. Mas já na edição de 3 de julho de 1996 ISTOÉ mostrava a armação

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Exatamente às 16 horas, o então secretário da Justiça, Rubens Quintela, e o delegado Cícero Torres se aproximaram do muro e disseram sem nenhum constrangimento: “Houve um crime passional. Paulo César foi assassinado por Suzana, que se matou em seguida”. Os corpos ainda estavam sobre a cama onde foram baleados. Nenhuma perícia fora feita. Nenhuma testemunha ouvida. Como poderia, então, a polícia ter uma conclusão? Poucos minutos depois, a percepção de que estávamos realmente presenciando uma armação se tornou ainda mais forte. O então deputado Augusto Farias, irmão de PC, falando em nome da família, se disse satisfeito com as conclusões do delegado. O roteiro para fazer perpetuar a farsa estava pronto.

Durante a semana, a imprensa em geral se agarrou à tese defendida pela polícia e pela família. Nenhuma outra linha de investigação foi cogitada. A empresária Claudia Dantas foi apresentada como nova namorada de PC e pivô da briga que teria levado Suzana ao gesto de desespero. O IML de Alagoas, usando uma faca de cozinha para fazer a necró­psia, endossou a versão. Uma perícia feita com água Perrier (carregada de elementos químicos) encontrou vestígios de pólvora nas mãos de Suzana, mas o mesmo exame não foi feito nas mãos dos seguranças, que também estavam na casa. Ou seja, durante os dias e meses que sucederam o crime, a polícia alagoana, com o apoio da família Farias, promoveu uma “investigação para encaixar em uma tese”. Nem mesmo o fato de não haver impressões digitais na arma foi considerado. Ou seja, Suzana teria disparado contra o próprio peito, limpado o revólver, sumido com o material usado na limpeza e voltado para a cama antes de morrer. Nada mais absurdo, mas a tese do crime passional era bastante confortável. Um homicídio seguido de suicídio pressupõe que o assassino esteja morto. Portanto, não existe nada a ser investigado. As relações e as traições políticas, as contas de PC no Brasil e no Exterior, os interesses que seriam contrariados. Nada disso seria vasculhado.

Tantos absurdos nos levaram a uma apuração paralela. Na periferia de Maceió, localizamos os familiares de Suzana. Tanto os mais próximos quanto os mais distantes. O perfil apurado mostrava o oposto de uma jovem capaz de matar ou de se matar. Os familiares de Suzana, porém, só foram procurados pela polícia depois de darem entrevistas à ISTOÉ. Falamos com três dos quatro legistas que analisaram os corpos. Atemorizados, dois deles, sob o compromisso de não serem identificados, disseram discordar da versão que mais tarde assinariam. Em um bar próximo à Secretaria de Segurança, encontramos policiais militares que mantiveram contato com os quatro seguranças de PC, também PMs, que estavam em Guaxuma na noite do crime. Aos amigos eles haviam negado o suicídio de Suzana. Enfim, não se tratava mais de convicção. Era uma certeza: PC, o arquivo vivo da corrupção nacional, não fora vítima de um crime passional. Seus seguranças sabiam disso. Os Farias sabiam disso. Para denunciar a farsa, porém, era preciso apresentar elementos mais consistentes. E, aos poucos, conseguimos reunir esses elementos.

Com base em 13 fotografias tiradas durante a necrópsia e em outras tantas tiradas do quarto onde os corpos foram encontrados, o legista George Sanguinetti, da Universidade Federal de Alagoas, teve a coragem de enfrentar seus pares. Em julho de 1996, nas páginas de ISTOÉ ele mostrava com o maior rigor técnico possível, a quem tivera acesso apenas a algumas fotografias, que a versão apresentada pela polícia, que fizera uma necrópsia com faca de cozinha, não se sustentava. As trajetórias dos tiros não coincidiam com a posição dos corpos, a não ser que Suzana estivesse flutuando quando atirou em PC. Ou seja, a cena do crime havia sido alterada para que a farsa fosse montada. Sanguinetti pagou caro. Chegou a ser afastado de suas funções na universidade e, devido às seguidas ameaças, passou a andar rodeado por sete seguranças. Seu posicionamento, porém, evitou, naquele momento, que o inquérito fosse arquivado. A repercussão da entrevista de Sanguinetti e as reportagens de ISTOÉ chegaram a Brasília. O Ministério da Justiça manifestou interesse em acompanhar o caso e o Ministério Público de Alagoas viu-se obrigado a tomar providências, o que não estava no roteiro da farsa. Sanguinetti foi convidado a oferecer um laudo técnico paralelo ao produzido pelo IML e, para isso, teve acesso a todo o material disponível. Terminou o criterioso estudo convicto de que houvera um duplo homicídio. A Justiça alagoana, então, convocou o legista Fortunato Badan Palhares, da Unicamp, para conduzir novos estudos. Enfim, parecia que a armação começava a ruir. Mas, Palhares resolveu endossar a trama e dar à farsa ares técnicos mais modernos.

Na tarde da sexta-feira 9 de agosto de 1996, no auditório de um luxuoso hotel na Ponta Verde, em Maceió, Palhares apresentou em um telão e com efeitos pirotécnicos o resultado de seus quase 30 dias de trabalho. Ele exumou os corpos de PC e de Suzana, analisou mais de 200 fotografias e com recursos de computador mostrou como Suzana teria matado PC e se matado em seguida. O trabalho escrito tem 600 páginas e pelo menos uma dezena de problemas. O principal deles: ele não mediu a altura de Suzana e, para colocá-la em posição possível de matar PC e se matar, idealizou em seu computador uma mulher com mais de 1,70 m. Na verdade, seria comprovado mais tarde, Suzana media menos de 1,60 m. Em seu laudo, Pallhares também nada menciona sobre o fato de os seguranças de PC não terem ouvido os tiros, embora nos testes realizados a seu pedido todos tivessem ouvido, inclusive a imprensa, colocada do lado de fora do sobrado. O legista de Campinas diz que logo depois de matar PC Suzana se matou, mas as análises das vísceras do casal mostram que Suzana morreu entre três e cinco horas depois de Paulo César. Essas e outras 18 contradições foram reveladas por ISTOÉ em 14 de agosto de 1996, com base na análise que peritos de todo o País fizeram sobre o trabalho de Badan. A farsa caminhava para seu final.

Diante de tantas contradições, todas elas reveladas por ­ISTOÉ, ficou impossível manter uma única linha de investigação. A justiça de Alagoas nomeou uma comissão de especialistas de diversos Estados para elaborar outro laudo. Concluíram que houve um duplo homicídio. O Ministério Púbico denunciou Augusto Farias como mandante do crime e os quatro seguranças como coautores. No STF, Augusto teve o caso arquivado e, na semana passada, 17 anos depois, os seguranças foram levados a júri popular. As reportagens de ISTOÉ foram fundamentais para que a farsa não prosperasse e para que houvesse um julgamento. Até o fechamento desta edição não se sabia se havia ou não condenados. A farsa não prosperou, é verdade. Mas não deixa de ser frustrante saber que a banda corrupta da polícia alagoana e a família Farias acabaram vencendo. Os mistérios que cercaram a vida de PC Farias também dominaram o cenário de sua morte, e com ele foi-se um arquivo que, se aberto, poderia contar melhor a história recente do País. 


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