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Jabuticaba política

Um jogo de interesses produziu mais um daqueles absurdos que só acontecem no Brasil: Afif Domingos é, ao mesmo tempo, vice-governador de oposição e ministro governista

Jabuticaba política

APRENDEU RÁPIDO

É comum relacionar lances inusitados da política nacional à jabuticaba, fruta silvestre que só existe no Brasil. Os exemplos capazes de ilustrar essa associação são fartos. Recentemente, um deputado homofóbico e racista elegeu-se presidente da Comissão de Direitos Humanos, parlamentares condenados pelo mensalão no STF passaram a ocupar assentos na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara e um senador ruralista foi escolhido para dirigir a Comissão de Meio Ambiente do Senado. Na última semana, a política nacional produziu mais uma jabuticaba. De olho nas alianças e no tempo de televisão para as eleições presidenciais de 2014, a presidenta Dilma Rousseff nomeou para o seu ministério um vice-governador da oposição: Guilherme Afif Domingos (PSD), vice do tucano Geraldo Alckmin, em São Paulo. Na quinta-feira 9, Afif assumiu a Secretaria da Micro e Pequena Empresa, cargo com status de ministério. Trata-se de um caso sem precedentes na política. Ao virar ministro de Dilma, Afif servirá ao mesmo tempo a governos do PSDB e do PT, atendendo a interesses do PSD, do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab. “É uma anomalia jurídica, ética e moral”, acusa o deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL), que protocolou no Ministério Público do Estado de São Paulo um pedido de cassação do mandato de Afif. A jurisprudência criada é perigosa e nociva para a política brasileira e só contribui para a desordem geral, mas o vice-governador, um dos beneficiários desse teatro do absurdo, preferiu contemporizar: “Eu sou um servidor não de partido, mas de governo”. Dilma, por sua vez, justificou: “Ele tem tido papel relevante em todos os processos que, nos últimos anos, resultaram no estímulo e na valorização das micro e pequenas empresas no País”.

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APRENDEU RÁPIDO
Há três anos, o novo ministro da Micro e Pequena Empresa, Afif Domingos,
dizia que Dilma não tinha biografia para presidir o País

Normalmente, no Brasil, uma situação sem pé nem cabeça como essa ocorre quando as pretensões se sobrepõem às convicções. É o caso da nomeação de Afif para o ministério de Dilma, por trás da qual existe um grande jogo de interesses. É verdade que o vice-governador de São Paulo sempre pautou sua história política pela defesa do empreendedorismo, seja no PDS, quando estava ao lado dos militares no início dos anos 1980, seja na campanha presidencial de 1989, quando era filiado ao Partido Liberal ou, mais recentemente, na condição de secretário do governo de José Serra (PSDB) e vice de Alckmin, em São Paulo. Mas também é verdade que Dilma não escolheu Afif prioritariamente em razão de seus predicados empresariais. O objetivo principal foi o de fortalecer o palanque da reeleição. Com a quarta maior bancada na Câmara, o apoio da legenda de Afif e Kassab ao PT acrescentará à propaganda eleitoral de rádio e televisão de Dilma cerca de 1min50s (em cada bloco de 25 minutos). Já Kassab, ao negociar a ida de Afif para o governo Dilma, enxergou uma outra oportunidade política. Como ele ambiciona candidatar-se ao governo paulista no próximo ano, acredita que possa ser blindado pelo PT de eventuais ataques. Também é uma maneira de Kassab colocar um pé no governo federal para poder negociar com mais facilidade, num eventual segundo mandato de Dilma, o aumento do seu quinhão na Esplanada dos Ministérios.

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AMBIGUIDADE POLÍTICA
Alckmin elogiou a nomeação de Afif:

"Nosso vice-governador haverá de
fazer ainda mais por São Paulo"

A 16 meses das eleições, a situação híbrida de Afif causou uma anarquia no tabuleiro político nacional. Neutralizou até as críticas de setores da oposição à criação do 39º ministério de Dilma, os quais antes afirmavam servir apenas para acomodar aliados. O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) elogiou a escolha de Dilma. “Ele é inteligente, um homem profundamente responsável”, disse Nunes. Constrangido, o governador Geraldo Alckmin (PSDB), que foi criticado pelos próprios tucanos pelo desfecho do caso, preferiu sublinhar os eventuais ganhos do Estado que governa. “São Paulo dá hoje mais uma contribuição para o Brasil. Nosso vice-governador haverá de fazer ainda mais por São Paulo”, disse Alckmin.

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A polêmica da dupla militância de Afif ainda será analisada pela Comissão de Ética da Presidência, já que ele resiste em afastar-se do governo do PSDB. O novo ministro da Micro e Pequena Empresa admite até assumir a cadeira de governador, em caso de viagem de Alckmin, e acumular os dois cargos. Sempre na oposição ao PT, Afif chegou a dizer em 2010 que Dilma não tinha “biografia política” para presidir o País. “É a mesma coisa que entregar um boeing para quem nunca pilotou um teco-teco.” Agora, ele diz que tudo não passou de “retórica de campanha”. Mas ela, agora, sabe pilotar?, questionou um jornalista. “Ela aprendeu rápido”, respondeu de pronto. Pelo visto, quem aprendeu rápido foi Afif.

Fotos: ADRIANO MACHADO/AG. ISTOÉ; Carlo Wrede/Ag. O Dia