Cultura

A Al Jazeera quer vir para o Brasil

A emissora de tevê árabe se liberta do estigma de porta-voz do terrorismo, conquista a simpatia de parte da população dos EUA e admite que precisa se instalar no País para crescer

A Al Jazeera quer vir para o Brasil

FÁBRICA DE NOTÍCIAS

Vivem no Brasil, segundo estatísticas oficiais, cerca de dez milhões de pessoas com ascendência árabe. Mais: o mundo todo reconhece o lugar de destaque que o País conquistou no cenário internacional nos últimos anos. Mais ainda: em 2014 será disputada aqui a Copa do Mundo e em 2016 os Jogos Olímpicos. O Brasil é notícia – e tudo isso o coloca agora como prioridade nos planos de crescimento da rede de televisão Al Jazeera, que pretende abrir um canal fechado em território brasileiro. “Precisamos e queremos estar no Brasil e já começamos a trabalhar nesse sentido”, tem dito o diretor-geral das transmissões em inglês da emissora, o britânico Al Anstey, que não adianta detalhes do projeto.

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O QG da Al Jazeera, em Doha, no Qatar (acima), e o logo
da emissora: conteúdo em inglês para 130 países

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A tevê Al Jazeera ainda oscila em audiência e na simpatia de muita gente em todo o planeta e isso se deve ao fato de ter carregado durante bom tempo o estigma de porta-voz do grupo Al Qaeda, porque exibia constantemente imagens e mensagens do terrorista Osama bin Laden. Foi o preço que pagou, e em parte ainda paga, pelas informações exclusivas que veiculava. Mas é certo que, bem menos atada à figura de Bin Laden, os especialistas em telecomunicação olham hoje para a Al Jazeera como um dos principais canais internacionais – e são seus próprios concorrentes de tevê fechada, em outros países, a admitirem, por exemplo, que a melhor cobertura da tragédia da boate Kiss, na cidade gaúcha de Santa Maria, foi feita pela emissora árabe com um quadro de apenas seis profissionais que já mantém no País – ainda um escritório de correspondentes, não um canal. Junto aos brasileiros, a pecha de tevê ligada ao terrorismo nunca colou. “Os entrevistados adoram contar aos amigos que foram ouvidos por nós”, diz o repórter Gabriel Elizondo. Quanto ao incêndio na boate que matou 241 pessoas, ele pondera que a matéria “foi extensa e profunda”, mas não é a melhor já produzida. “Considero nossos melhores trabalhos no Brasil as reportagens especiais sobre a usina hidrelétrica de Belo Monte e a seca no Nordeste.”

No início deste ano, a rede deu um passo bastante ousado. Se alguém falasse, tempos atrás, que a Al Jazeera pretendia comprar um canal de tevê nos EUA, seria considerado, no mínimo, maluco ou agente do terrorismo. Mas o tempo passou, Bin Laden foi morto e – quem diria ? – em janeiro a emissora comprou a deficitária rede de tevê Current. Detalhe: adquiriu o canal diretamente das mãos do ex-vice-presidente americano Al Gore. A guerra contra ela não é mais tão dura como antigamente, mas que a Al Jazeera colocou a mão num vespeiro, isso colocou. Nos EUA ela ainda é olhada com muita desconfiança e nem poderia ser diferente, pois afinal bombas acabam de explodir na maratona de Boston e o 11 de Setembro é trauma nacional incurável. As críticas mais ácidas saem do Partido Republicano e nenhuma voz é mais insistente do que a do diretor do jornal “Accuracy in Media”. Ele se chama Cliff Kincaid e repisa: “A Al Jazeera ajudou a matar americanos e ajudou a criar a guerra civil no Iraque.”

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Se parte da população segue o que diz o republicano Kincaid, também vale lembrar que a televisão em questão teve apoio da opinião pública na cobertura que fez das revoltas da Primavera Árabe, quando deu voz aos rebeldes e foi a primeira a noticiar a morte em 2011 do ditador líbio Muamar Kadafi. Em contrapartida, recebeu críticas por não ter aberto espaço, à mesma época, para os conflitos no Bahrein contra o governo sunita – o Qatar, que sedia e financia a Al Jazeera, é uma monarquia sunita. Mais inimaginável ainda do que o fato de essa tevê árabe ter comprado a Current de Al Gore seria pensá-la ganhando elogios do governo de Israel. Mas também isso se viu recentemente, quando autoridades israelenses declararam que a Al Jazeera “abre espaço para nossos pontos de vista”. EUA e Israel foram, assim, o grande teste de fogo. Se esse canal fechado desembarcar no Brasil como almeja – e tudo leva a crer que isso ocorra, embora por enquanto não seja revelada nem a quantia que se pretende investir –, a situação será bem mais tranquila. Haverá quem goste e quem desgoste, como tudo na vida. Será, no entanto, a qualidade de sua programação que estará sob o crivo da crítica popular, até porque os crimes de Bin Laden nunca deram “ibope” na alma brasileira.

Fotos: AFP PHOTO/KARIM JAAFAR; AP Photo/Al Jazeera