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Entrevista

Luciano Pavarotti

Tenor glutão

Tenor glutão

Às vésperas de se apresentar em São Paulo, na turnê Os 3 tenores, Luciano Pavarotti fala com exclusividade a ISTOÉ sobre música e comida

Osmar Freitas Jr
Edição 12/07/2000 - nº 1607

O tenor italiano Luciano Pavarotti é um chef de respeito. Daqueles que sabem preparar à perfeição um dos pratos mais difíceis do cardápio internacional: o espaguete ao molho de tomate e manjericão. Somente os verdadeiros artistas do forno e fogão são capazes de transformar itens prosaicos numa experiência gustativa digna dos deuses. Afinal, já se disse, Deus é simplicidade. Pavarotti aplica a mesma receita ao canto. Algo que, ele explica, deve ser simples como o choro de um bebê. Não à toa, depois de Enrico Caruso, “O Maestro” – como é chamado pela vasta criadagem de sua casa à beira do mar Adriático, em Pesaro – se transformou no maior tenor de um século de grandes tenores. A prova está na sua popularidade. Há quase 40 anos, Pavarotti vem agradando aos paladares mais variados. Sua voz é reconhecida nos exigentes cantões do lendário teatro La Scalla, de Milão, nas lojas de discos – em que disputa as vitrines com roqueiros e cantores pop campeões de vendagens – e até em locais pouco afeitos à música erudita como o Estádio do Morumbi, em São Paulo, onde ele se apresenta, no sábado 22, dentro da turnê Os 3 tenores, ao lado dos espanhóis Placido Domingo e Jose Carreras, numa produção orçada em cerca de R$ 3,6 milhões.

Aos 64 anos, Pavarotti não dá sinais de que vá parar de servir seu imenso banquete de prazeres, apesar de os críticos mais exigentes torcerem o nariz para suas performances mais recentes. Os altos e baixos do tenor que costumava ter apenas pontos altos são consequência, segundo o próprio, de um estômago maltratado por medicamentos que lhe obrigaram a tomar por causa de um problema na perna. Mas, a exemplo do prato de macarrão, Luciano Pavarotti está acima do bem, do mal e das críticas. Antecipando sua vinda ao Brasil, semana passada ISTOÉ teve uma conversa exclusiva com Pavarotti, na qual ele diz que não cantará nada de Carlos Gomes – talvez fique apenas na suavidade de Luís Bonfá e sua Manhã de Carnaval, em parceria com Antônio Maria. Houve alguns assuntos espinhosos, mas em nenhum momento eles provocaram azedume. Só extremos de gentileza e simpatia.

ISTOÉ – Nesta sua vinda ao Brasil com Domingo e Carreras, os senhores planejaram alguma composição do brasileiro Carlos Gomes?
Luciano Pavarotti

Não, infelizmente não.

ISTOÉ – Existe alguma canção brasileira prevista para esta apresentação?
Luciano Pavarotti

Provavelmente: Manhãããã/Tão Boniiiiita Manhããã!/Lariiii, larariii, lararaaaa!

ISTOÉ – Algum cantor brasileiro já chamou sua atenção?
Luciano Pavarotti

Não, eu não gostaria de fazer comentários neste tópico. Não me peça para fazer comentários sobre este assunto. Não quero favorecer um ou outro.

ISTOÉ – Como é sua relação com os outros tenores? As pessoas costumam ver rivalidades expostas até em pequenos gestos, é verdade?
Luciano Pavarotti

Nossa relação é fantástica. Não há outro modo de descrever nosso relacionamento a não ser com o adjetivo fantástico. É uma amizade maravilhosa. Trata-se de uma velha amizade e um longo caminho percorrido em nome da música.

ISTOÉ – O sr. já disse que a técnica para o canto é muito simples. Poderia explicar melhor?
Luciano Pavarotti

Ah!, meu amigo, é simples mas requer muitos anos de trabalho. Em sua simplicidade, a técnica do canto pode ser demonstrada por um bebê. Observe um bebê chorando em seu berço. Ele grita o dia inteiro e, no entanto, nunca perde a voz. Por quê? Isso ocorre porque a voz é sustentada muito bem pelo diafragma desta criança. Então, cantar é manter a voz e manter a voz é uma questão de saber controlar o diafragma. Este é o segredo. Mas é claro que além deste fato existem vários outros itens que devem ser observados por um grande cantor. Por exemplo, a entonação. A técnica verdadeira vem do diafragma, que deve ser coberto, não fechado, o que torna a voz mais elástica, e, em alguns casos, mais nobre.

ISTOÉ – A esta altura da carreira, o sr. ainda estuda com afinco outros tenores? Quem o sr. ouve?
Luciano Pavarotti

Quando eu vou gravar ou cantar algo novo, estudo todos os tenores que cantaram aquela peça específica. Depois eu canto do meu jeito. Aprendo muito com os outros. Observo o modo como eles aproximam uma passagem em particular ou mantêm uma nota. Veja bem, não se trata de copiar as soluções. Mas com este estudo, posso dar minha solução individual. Acho que quem me ouve reconhece logo o meu trabalho e não vai confundi-lo com o dos outros. Canto ao meu modo, que é distinto.

ISTOÉ – O sr. foi o primeiro a dar um recital com piano no Metropolitan Opera, de Nova York, e também foi o primeiro a fazer concertos de arena, bem populares. Qual será a próxima novidade?
Luciano Pavarotti

É preciso mais? Fiz tantas outras coisas além das que você citou. Não sei se sobram mais coelhos em minha cartola. Já faço concertos em estádios, numa busca de popularizar cada vez mais a ópera, e me orgulho disso. Em Modena eu faço o Concurso de voz Pavarotti, que reúne centenas ou até milhares de cantores novos. Sobre este evento eu costumo dizer que se nós não conseguirmos reunir um mínimo de 150 novos talentos internacionais a cada ano, o gênero estará morto. Também em Modena faço Pavarotti e seus amigos, que é uma abertura para a música popular e uma chance de ajudar instituições de caridade e causas que atendem principalmente às crianças. Estou fazendo o concerto Os 3 tenores e ainda dou os últimos retoques no disco Aida no Met, que inclui a Tosca. Assim, não dá tempo para tentar outras novidades.

ISTOÉ – Os novos cantores revelados na competição de Modena são muito diferentes da velha escola a que o sr. pertence?
Luciano Pavarotti

Cada bom tenor tem sua individualidade. Mas de resto, não existem diferenças entre o que você chama de nova ou velha escola. Todo mundo canta do mesmo jeito. No presente, no passado e no futuro é sempre o mesmo: se você canta bem, é o que basta e este é o termômetro pelo qual todos são julgados.

ISTOÉ – Por que o sr. e seus colegas tenores mergulharam com tanta intensidade na música pop?
Luciano Pavarotti

O que apela à minha sensibilidade é a boa música. Qualquer tipo de boa música. Trata-se de um prazer para minha alma musical, além de uma oportunidade excelente de ajudar causas que beneficiem a infância no mundo.

ISTOÉ – Qual é o futuro da ópera?
Luciano Pavarotti

É brilhante, magnífico. Cada vez mais existem novos talentos despontando. Muitos cantores, muitos regentes, muitos diretores. Há 40 anos, quando eu começava, não existiam tantos. Ópera é um gênero cada vez mais popular. Não é à toa que Os 3 tenores faz tanto sucesso. E as temporadas nas grandes casas de espetáculo estão cada vez mais lotadas. A ópera triunfa!

ISTOÉ – Há uma longa história sua no Metropolitan Opera, de Nova York, mas parece que sua estréia por lá foi um tanto atabalhoada. O sr. tem algum problema em relembrá-la?
Luciano Pavarotti

Não, foi em 1968. Eu estava doente, com uma terrível gripe, a influenza de Hong Kong. Péssimo. Tinha pela frente três meses de performances e a situação foi beirando o catastrófico. É o que se chama de uma má experiência na vida. Era meu começo de carreira e me sentia também muito nervoso por estar na presença de tanta gente famosa, cantores e o principal maestro da época, Francesco Molinari-Pradelli. Ele foi muito gentil comigo e disse: “Luciano, se você quiser cantar, cante! Mas se você estiver muito mal, não se preocupe, pois no ano que vem você estará de volta.” Eu cantei, mas fui obrigado a parar no meio. Fiquei arrasado. Em compensação, o pessoal do Met me disse que o grande senhor (Carlo) Bergonzi – que eu acho um dos maiores tenores da história – fez um papelão maior que o meu. Ele pisou no palco do Metropolitan e começou a falar, em vez de cantar. Assim, eu considerei meu episódio como um sinal de boa sorte futura e, de fato, não me enganei. Naquela casa tive momentos dos mais gloriosos.

ISTOÉ – Qual a diferença entre cantar no Metropolitan e no Scalla de Milão?
Luciano Pavarotti

As platéias são diferentes. As proporções das casas são também distintas. O resto é mais ou menos o mesmo. Você não muda a técnica nem muda o sentimento. Faz tudo do mesmo jeito.

ISTOÉ – Quais as diferenças entre platéias americanas e européias, principalmente as italianas?
Luciano Pavarotti

Não, não! Não vou diferenciar. Só vou dizer que ambas, quando vêem alguém cantando bem, ficam satisfeitas. Caso minha performance, por algum motivo, seja inferior, estas platéias vão reagir de modo menos satisfatório.

ISTOÉ – Mas no Met as pessoas não vaiam as más apresentações. Enquanto no La Scalla, não só vaiam, como jogam tomates e ovos.
Luciano Pavarotti

No Met eles também vaiam.

ISTOÉ – Mas nunca o vaiaram. Enquanto no La Scalla…
Luciano Pavarotti

É porque as apresentações, como eu já disse, foram diferentes. Quando tive grandes performances as platéias me aplaudiram. Além disso, no Met o público se lembra sempre dos serviços que o cantor já prestou. Se numa certa noite não estava bem, o público do Met vai para casa e diz: “Hoje ele não estava bem. Quem sabe na próxima vez ele estará melhor.”

ISTOÉ – De uns tempos para cá os críticos andam implicando um pouco com Luciano Pavarotti. São justificáveis estes maus humores?
Luciano Pavarotti

Há dois ou três anos minha voz experimenta alguns altos e baixos. É tudo decorrência de problemas que tive em minha perna. Fui obrigado a tomar um certo medicamento que me fez muito mal ao estômago. E o estômago, claro, fez mal à minha voz. Esta foi a razão que me levou a fazer uma operação na perna. Aliás, me operaram as duas pernas. Um pouco no joelho, um pouco no quadril, um tanto aqui, e outro tanto ali. Supostamente isso me fará um homem novo. E meu estômago vai parar de atormentar minha voz. Já noto a diferença e acredito que os críticos também vão notando o mesmo.

ISTOÉ – Até 1997 existia um rumor muito persistente de que o sr. não sabia ler música. Naquele ano o jornal Corriere della Sera confirmou o fato. O sr. teria algo a acrescentar?
Luciano Pavarotti

Eu estou constantemente estudando música. Mesmo quando não estou cantando, minha mente não pára de estudar música.
 

ISTOÉ – A ópera La bohème, de Puccini, teve um papel marcante na sua vida. O que sente por esta obra?
Luciano Pavarotti

Esta ópera em particular foi o meu début. Na noite em que a cantei pela primeira vez foi também a noite em que tomei consciência de que minha profissão tinha mudado. Saí da condição de professor primário e me transformei em tenor. Tenho por La bohème a mesma relação do filho com a mãe. La bohème me viu nascer.

ISTOÉ – Quais são seu compositor e ópera favoritos?
Luciano Pavarotti

Em termos de compositores, existem três modos de vê-los. O compositor total, o mais completo, é certamente Mozart. Compositor de ópera é certamente Verdi. E compositor sinfônico, o melhor, sem dúvida, é Beethoven. Minha ópera favorita não posso dizer, pois existem tantas que eu cometeria graves injustiças caso escolhesse apenas uma.

ISTOÉ – Vamos pular da ópera para outro prazer que o pega pela boca, a comida. O sr. é melhor cantor ou cozinheiro?
Luciano Pavarotti

Sou melhor comilão. E, sendo italiano, a culinária de minha preferência é a italiana. Uma massa ligeira, preparada ao modo italiano, é meu prato predileto. Para mim, um grande chef tem de saber fazer à perfeição um espaguete ao molho de tomate e manjericão. Este para mim é o prato mais difícil de se fazer. Trata-se de um segredo que nem todos conseguem desvendar.

ISTOÉ – O sr. planeja se aposentar em breve?
Luciano Pavarotti

Mais cedo ou mais tarde vou me aposentar. No momento, espero com grande entusiasmo celebrar meus 40 anos de carreira, no ano que vem. Depois, tenho de fazer outros planos. Temos de considerar que estou levando tudo muito bem. Meu pai tem 88 anos e ainda canta muito bem. É muito difícil dizer quando vou me aposentar. Mas tenho certeza de que, se eu não estiver muito bem, vou me aposentar rapidamente após esta conclusão. Caso contrário terei grande prazer em continuar cantando para vocês.



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