No aperto da praça

Ele não admitia que sua música “Ronda” tivesse se tornado o hino de uma cidade, porque ela fala de violência. É a história de uma prostituta que sai pela noite para matar o amante

O Brasil perdeu um grande cientista, um grande compositor e uma grande delicadeza – morreu Paulo Vanzolini, aos 89 anos, na São Paulo na qual ele tanto trabalhou e que tanto cantou. Mas Vanzolini foi maior que a cidade e foi maior que o País. Pelo seu trabalho como sambista e cientista, três décadas dirigindo o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo e o destacando como uma das mais respeitadas instituições científicas em todo o mundo, Paulo Vanzolini ganhou fama e respeito nos EUA, em alguns países da Europa e, poucos sabem, no continente asiático. Falou-se aqui em delicadeza, e é impossível recordar agora desse brasileiro falecido na semana passada sem lembrar também de que o próprio Brasil já foi mais delicado. Nos tempos de juventude, já formado em medicina pela USP e já de volta ao País após dois anos e meio de doutorado em zoologia na Universidade de Harvard, ele encontrou muito em voga a figura do lanceiro – era o trombadinha do centro da cidade de antigamente, o menor carente de verdade, que às vezes surrupiava uma carteira. Nada a ver com a insanidade de matar a fogo uma dentista. Não, Vanzolini, na tua São Paulo não se incendiava ninguém por R$ 30. O cientista-sambista, uma vez vítima de um furto bobinho, compôs um samba engraçado – e antológico. O lanceiro levou dele 25 cruzeiros (dinheiro da época) e junto o retrato da ex-namorada. A veia artística saltou: “há muito tempo eu devia ter rasgado e não podia/esse retrato cujo olhar me maltratava e perseguia/um dia veio o lanceiro/naquele aperto da praça/vinte e cinco francamente achei de graça”. A praça em questão era a Praça Clovis e a música leva esse nome (há uma excelente interpretação de Chico Buarque).

Enquanto revolucionava a zoologia, fazendo com que ela deixasse de ser apenas uma coleção de bichos mortos etiquetados com seus nomes científicos e passasse a existir na moderna visão geomorfológica da evolução, levando cérebros internacionais a reverenciar o Brasil nesse campo do conhecimento, Vanzolini continuava a compor. E fez “Ronda” (“de noite/eu rondo a cidade a te procurar/sem te encontrar/em meio a olhares espio/em todos os bares/você não está…”). Até no Japão a música estourou, e aqui foi eleita hino de São Paulo. Para quê? O delicado Paulo Vanzolini, num mundo onde tantos que nada fazem se cobrem de tanta glória, não se cansava de argumentar que essa música não era delicada o suficiente para ser hino de uma cidade: “Imagina, ela fala do submundo, de uma prostituta que sai à noite para matar o amante na boca do lixo, não tem nada de bom nem de moral nisso”. Aí via-se a combinação do homem de caráter, do cientista de caráter, do boêmio de caráter – boêmio dos idos da boate Jogral em meados dos anos 1900, na qual o elegante Vanzolini batia ponto para conversar com o também compositor Luiz Carlos Paraná – e, se o garçom faltava, ele vestia o jaleco e ia servir às mesas. Vanzolini vivia a repetir que “tudo tem jeito desde que se tenha vontade de dar jeito”. Eu proponho então nesse artigo que tenhamos a vontade, todos nós, de que a vida volte a ter jeito de paz e delicadeza. Ou, como diz outro imortal samba do imortal Paulo Vanzolini, proponho que o Brasil cante diante da brutalidade: “reconhece a queda/e não desanima/levanta/sacode a poeira/e dá a volta por cima”.

Antonio Carlos Prado é editor executivo da revista ISTOÉ 

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