Seu bolso

Ressaca de caipirinha

Crise do real agrava a recessão na Argentina, aumenta a insatisfação da população e gera incertezas sobre o futuro do bloco econômico

"He venido por última vez, he venido a contarte mi mal/ Vim pela última vez, vim para te contar meu mal", diz um trecho do tango Caminito. Encaixa como luva. Na ruela El Caminito, batizada em homenagem ao tango e que abriga uma feira de artes, no bairro portenho La Boca, os turistas brasileiros são cada vez mais escassos e não param de queixar-se da falta de dinheiro. "Brasileiros eram 10% do total de turistas. Chegavam a 100 aos domingos, mas no último domingo só vi três. Os que não puderam cancelar seus pacotes a Buenos Aires olham, mas não compram e nem sequer pechincham", conta o vendedor de fotos Jorge Medina, com a autoridade estatística de quem ocupa as tardes de sábado a quarta-feira conversando com os passantes. Até 1998, a Argentina recebia 4,8 milhões de visitantes por ano – 13% deles gastadores brasileiros. Segundo cálculos da agência Agaxtur, um casal deixava em média na "Europa latino-americana" US$ 350 por dia. Em tempos de real valorizado, Buenos Aires era programa até de fim de semana, e muitas vezes os brasileiros batiam à porta da Secretaria de Turismo da cidade reclamando da falta de hospedagem. Eufórica, a cidade abriu no ano passado 11 hotéis.

Agora, tudo mudou. Com o abominado 13 de janeiro, data em que o Brasil começou a levar o real à lona, houve um revertério nessa euforia, principalmente para quem tinha nos vizinhos sul-americanos sua principal clientela. Em meados de fevereiro, o movimento de brasileiros já havia caído quase 50%. Mirtia Rodríguez é dona de uma loja de artigos de couro no centro da capital, a Uru Sweaters, com produção própria no subsolo. Ela costumava vender 1,5 mil peças por mês, 70% para brasileiros que sonhavam com casacos e calças. No mês passado, com a debandada, vendeu 800. De início, o preço em dólar parece razoável ao turista brasileiro. Mas, quando se refaz a conta com o novo câmbio, poucos se arriscam, e colocar a despesa no cartão de crédito nem pensar. A saída alternativa ao desespero foi negociar preços mais baixos com os fornecedores e viabilizar descontos de até 30%. "Brasileiro sempre barganhou, mas antes eu fazia um ‘chorinho’. Agora faço abatimento mesmo", explica a empresária, com fé no aquecimento das vendas na Semana Santa, quando começa a alta temporada. Até lá, a cotação do real nos patamares atuais é pensamento que a indústria do turismo prefere afastar da cabeça. Dá pânico.

Subsídios
Tanto quanto o turismo, quem vem penando é o setor exportador, acostumado a mandar para o Brasil 30% de tudo que sai da Argentina. As vendas externas caíram 23,3% em janeiro e não pouparam ninguém: indústrias automobilísticas, têxteis, alimentícias, siderúrgicas, além dos produtores rurais. Os agricultores foram pedir subsídios e refinanciamento de dívidas ao presidente Carlos Menem. Os produtores da maçã, que destinaram ao Brasil 42% da exportação da safra de 1997, reclamam que os tradicionais clientes não querem mais comprar. Na porta da Casa Rosada, onde despacha o presidente, enfileiraram-se também os industriais. A poderosa União Industrial Argentina (UIA), assustada com a retração de 6,3% da produção em janeiro e o vislumbre de encerrar o primeiro trimestre de 1999 com um abismo de 9%, elaborou um plano salva-vidas e aguarda resposta do governo. Pleitos: eliminação de impostos municipais, castigos para produtos que entrem com preços vis, financiamento aos exportadores e por aí afora. Em uma pesquisa capitaneada pela Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Trabalho de Buenos Aires, com 100 empresários, 60% dizem que tiveram suas exportações afetadas pela turbulência no Brasil e 72% temem, mais do que a crise asiática, a brasileira.

A Argentina previa uma inversão na balança comercial com o Brasil, hoje superavitária em US$ 700 milhões, devido a uma possível invasão de produtos brasileiros nos supermercados. Os dados divulgados pelo governo dissiparam a especulação. A Argentina comprou 36,8% menos do Brasil em fevereiro. Motivo para comemorar? Não. A tradução disso tudo é que a Argentina passa por um período de recessão. "Vou ao supermercado apenas atrás das ofertas, e há muitas. Os preços estão baixando", afirma a gerente de uma clínica geriátrica, Clara Moran. Na verdade, a crise da desvalorização do real foi o fermento que fez crescer o bolo da incerteza no país. Ou incertidumbre, a palavra que mais se escuta nas ruas de Buenos Aires. Os argentinos são capazes de desfiar uma teia de apelidos para as seguidas crises que vêm atropelando sua economia. Efeito tequila, México 1995. Efeito arroz, Ásia 1997. Efeito vodca, Rússia 1998. E, finalmente, efeito caipirinha, Brasil 1999.

Recessão
A flutuação do real encontrou a indústria argentina com quatro meses e meio de queda na produção e seis meses de declínio nas exportações. O mercado interno estava contraído e o desemprego – hoje 13% – já era alto. Os níveis de pobreza na capital federal e na Grande Buenos Aires dispararam no ano passado, com 200 mil novos pobres, e o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 0,5% no último trimestre de 1998. Nas estatísticas mais recentes, 70 mil trabalhadores estão de molho em casa, esperando a economia se reerguer, e é difícil dizer o que é culpa da crise do real. Mas o fato é que o Brasil foi um gatilho importante. Nos dois restaurantes Hereford, dos criadores da raça homônima de gado, o movimento caiu até 30%. "É um somatório da retração do mercado interno e da queda do turismo brasileiro", informa um dos sócios, Jorge Camin. Eles também exportam carne, 15% dessa fatia para o Brasil, e já pensam em como substituir esse mercado. As vendas de veículos foram um dos negócios mais afetados, com queda de 50,4% na produção em fevereiro. Brasileiros não estão comprando carros argentinos – nem os próprios argentinos. A concessionária Ford em San Telmo, bairro de classe média, registra movimento 30% mais fraco. Lá, apela-se, sem muito sucesso, para descontos e financiamento em até 24 meses com juro zero.

Dominó
O tombo da indústria automobilística saiu fazendo vítimas nos setores mais inesperados. O hotel Crowne Plaza Panamericano é uma delas. Cerca de oitenta por cento da ocupação desse cinco estrelas, que recentemente mais do que dobrou o número de quartos, é de viajantes de negócios, executivos de grandes empresas, como as montadoras. Em março, a taxa de ocupação deve cair 20%. Os administradores já pensam no estrago que podem sofrer com uma eventual crise no turismo chileno.

Argentinos de todas as classes estão muito bem informados sobre a crise brasileira. Cena insólita: um homem abordou uma brasileira em Buenos Aires e pediu dinheiro para comprar remédio. Percebendo sua procedência, disse: "Brasileña?", e apontou o polegar para baixo. Nas esferas políticas, tourear essa crise é ganhar ponto na corrida presidencial para as eleições deste ano. O candidato da Alianza em oposição ao peronismo, Fernando de la Rúa, atual prefeito de Buenos Aires, esteve no Brasil na semana passada para cobrar do presidente Fernando Henrique Cardoso algumas definições. Ouviu promessas de que o País buscará mecanismos para que as exportações argentinas não sejam prejudicadas, e ocupou boa parte do noticiário argentino. Um discípulo de De la Rúa faz coro. "Não devo dizer o que o presidente Cardoso tem de fazer, mas no Mercosul não pode haver subsídios ou freios à importação", alfineta o secretário de Indústria de Buenos Aires, Rafael Kohanoff. Ele até defende que as empresas imponham limites nos seus negócios para evitar desequilíbrio comercial entre os países do Mercosul. É enredo para tango de Gardel.
 

 

O confisco no Equador

Confisco de depósitos bancários. Supermercados que se recusam a aceitar cartões de crédito ou cheques. Pagamento, só à vista. E em dólares. Uma onda de saques que atinge estabelecimentos comerciais em várias cidades. O Exército e a polícia mobilizam cerca de 20 mil homens para manter a ordem em todo o país. Uma semana de feriado bancário e a decretação de um "estado de emergência nacional" por dois meses. Sindicatos chamam uma greve geral de 48 horas. Quatro pessoas morrem em violentos confrontos entre manifestantes e a polícia. Não, não é uma cena brasileira. Por enquanto. O palco desses conflitos é o Equador, mergulhado na mais grave crise econômica das últimas décadas. Na sexta-feira 12, para tentar "restaurar a confiança dos investidores e evitar o colapso do sistema financeiro", o governo do presidente Jamil Mahuad, que está no poder há apenas sete meses, baixou mais um duríssimo pacote de austeridade. O governo congelou depósitos bancários, incluindo as contas correntes, e da poupança, aumentou preços de combustíveis em 165% e prolongou ainda mais o feriado bancário que já dura uma semana. Dias antes, Mahuad já havia eliminado subsídios para combustíveis e eletricidade e desvalorizado o sucre, a moeda local, em 15%. É um esforço para tapar um rombo de US$ 1,2 bilhão nas contas do governo. Outras medidas, como o aumento do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) de 10% para 15%, dependem da aprovação do Congresso. Esse aumento de impostos pode representar um ganho de US$ 300 milhões em arrecadação.

Nas últimas duas semanas, cerca de US$ 400 milhões já deixaram o Equador, uma verdadeira sangria para um país de 12 milhões de habitantes cujo PIB não supera os US$ 20 bilhões. Em um mês, a desvalorização do sucre chegou a 60%. O país teve a mais alta taxa de inflação da América Latina em 1998 (43,4%) e experimentou um crescimento de apenas 0,8% do PIB. A crise se agravou no ano passado, quando as enchentes provocadas pelo fenômeno El Niño devastaram a produção agrícola, provocando um prejuízo de cerca de US$ 2,6 bilhões. A situação piorou ainda mais com a queda nos preços do petróleo no mercado internacional, que abalou seriamente as finanças do Estado. É a mais grave crise dos últimos 70 anos, como o próprio presidente Mahuad admitiu. O quadro lembra o de dois anos atrás, quando um brutal programa de austeridade provocou tamanha comoção nacional que acabou levando o Congresso a afastar o então presidente, Abdalá Bucaram, sob a alegação de "incapacidade mental".

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