Comportamento

Meu querido professor

Alvo de bilhetes e elogios declarados de seus alunos, os professores usam a técnica do "não é comigo" para não magoar nem incentivar fantasias

Paixão pelo professor? A primeira reação dos estudantes é tímida, mas logo se dissolve em confidências. "Tive um professor que era o máximo e eu imaginava como seria maravilhoso se saíssemos juntos", diz Gabriela Chiarioni, 17 anos. "Dei muitas indiretas e achei que a professora estava na minha. Mas o semestre acabou e ela saiu da escola", relata, frustrado, Diego Delboni, 16 anos. Desinibida, Lucília Coelho, 16, conta que chegou a mudar de turma só para estudar com um "gatinho". "Ele é superinteligente e conversamos muito. Não perco uma aula dele", diz a garota. Já com 19 anos, Hugo Ravazio lembra que "voava" nas aulas de História da quinta série. "Eu ficava olhando para a professora e, de repente, o pensamento ia longe."

Nenhum deles admite que tenha se apaixonado. Acham que o que sentiram ou sentem é uma mistura de atração física e admiração. Menos mal. Com brincadeiras, comentários maliciosos e muitas fantasias, convivem tranquilamente com esses sentimentos. O estudante Sérgio Santana, 17 anos, acha até que não há nada demais no envolvimento com um aluno, desde que não seja na escola. "Se os dois se encontrarem numa festa, o que é que tem? São duas pessoas como quaisquer outras", defende. A questão é que para o adolescente ou pré-adolescente que, às voltas com alterações hormonais, está experimentando novas e muitas emoções, nem sempre é assim tão tranquilo. Keyth Mendes tinha 12 anos quando ficou quase obcecada por um professor. Pensava e falava o tempo todo nele, e encheu páginas e páginas de seu diário com sua paixão. "Foi tão forte que minha mãe chegou a me levar a um psicólogo." A preocupação da mãe é compreensível, mas logo se viu que o interesse de Keyth era normal, saudável e passageiro. Hoje, dois anos depois, o foco de seu coração é outro. "Amo meu namorado."

O encantamento do aluno pelos mestres é às vezes providencial. Muitos melhoram as notas só para ser notados pelo professor. O desafio é lidar delicadamente com ele sem ferir a ética nem magoar crianças e adolescentes. "O professor que encanta é aquele que é apaixonado pelo que faz. O saber e o prazer de ensinar deslumbram. Se for bonito e atencioso fica mais fácil ainda", explica a psicanalista Débora Joan Cardoso, orientadora educacional do Colégio Oswald de Andrade, de São Paulo. O que acontece é que o aluno às vezes não desassocia a figura entusiasmante do mestre da pessoa física. "Na adolescência, os pais deixam de ser os heróis. Os amigos ganham importância e o professor também, pois é um adulto que pertence ao mundo do jovem", completa. Ela ressalta que se o adolescente em formação não tem maturidade para enxergar esses fatores, o mesmo não pode acontecer com um professor. "Cabe ao adulto mapear o sentimento com o aluno. Um caminho é mostrar que a paixão é uma idealização, que o seu deslumbramento se baseia no poder que o professor ganha por saber mais", aconselha.

Isso não quer dizer que seja fácil driblar a meninada. Nádia Ramirez Starikoff dá aula de Ciências para as sétima e oitava séries e vive recebendo bilhetes de seus alunos. "Levo na esportiva e não dou abertura para intimidade", diz. Há alguns anos, no entanto, dois alunos a tiraram do sério. "Me convidavam para sair e diziam que queriam casar comigo. Eu desconversava", lembra. Seu marido, o engenheiro Vinícius Pimentel, nem se abala com os bilhetinhos. "Sei como é. As meninas são ainda mais insistentes", afirma Pimentel, que também já deu aulas. Marcos Rogério Trotta, 27 anos, concorda. É que, assim que começou a lecionar, uma garota de 16 anos se encantou por ele e o assustou. "Ela não escondia suas intenções. Eu tinha que fugir para não ficar sozinho com ela", relembra. Amante da Biologia, conquistou facilmente os alunos do Colégio Porto União, onde dá aulas, e só uma coisa o retraia. "Não respondo a questões pessoais. Digo que não faz parte da aula", diz ressabiado.

Os cuidados redobram quando se está fora da instituição escolar. Nélson Badra Jr. faz programas de Educação Ambiental em diversas escolas e ouve muitos elogios. Mas não estranha. "Não se pode ignorar o deslumbramento. Um bom educador deve agir sem constrangimento e com firmeza", diz tranquilo. As aulas dadas ao ar livre propiciam muitas fantasias na cabeça dos adolescentes. "Fazemos caminhadas, observação do céu, mergulho e até escaladas, atividades que exigem certo contato físico", conta. A saída para evitar confusões, segundo ele, é a certeza do papel de cada um. "Quanto mais segurança e preparo temos para a aula, mais a tornamos interessante. Isso não deixa tempo para outros interesses."

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