Brasil

Sociedade blindada

Com o aumento da violência nos grandes centros, indústria da proteção tem um crescimento recorde

A tentativa frustrada de sequestro dos três filhos do empresário Jorge Paulo Lemann, ex-dono do Banco Garantia e um dos proprietários da cervejaria Brahma, está incrementando um dos poucos setores que não têm sofrido com a crise. A blindagem de veículos, recurso que segurou o impacto dos 15 disparos contra o Passat do empresário, é um mercado em expansão, com uma receita de R$ 100 milhões e um crescimento de 30% ao ano. Pelos cálculos do setor, existem mais de cinco mil automóveis blindados no País – superando a explosiva Colômbia –, fortalezas ambulantes que suportam desde projéteis até a explosão de granadas e minas terrestres. Só em São Paulo e Rio de Janeiro cerca de 50 veículos são blindados por mês. O arsenal custa caro, entre R$ 30 mil e R$ 80 mil, incluindo sirene e sistema de som com microfones e alto-falantes internos mas, com o incremento da violência nos principais centros urbanos brasileiros, o perfil do consumidor está se ampliando. Profissionais liberais se juntam a banqueiros e empresários em busca de proteção. A Defense, empresa de blindagem de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, recebeu vários telefonemas de consumidores depois do episódio de Lemann. "Uma professora ligou querendo blindar seu Palio 1.0", diz Ana Maria Ferreira, diretora da Defense. "Hoje temos entre nossos clientes profissionais que abrem mão de um segundo carro ou chegam mesmo a sacrificar férias, reduzindo despesas, para mandar blindar o carro principal da família", informa Henrique Moreschi, consultor da Armor Blindados.

A blindagem protegeu o Passat impedindo o pior, mas dois projéteis conseguiram romper um dos vidros ferindo o motorista da família, José Aureliano dos Santos. Não houve falha da blindagem, garante a direção da O’Gara Hess, responsável pelo "revestimento" do Passat de Lemann. Segundo a empresa, o que ocorreu foi uma concentração de disparos de projéteis de calibre 9 milímetros – munição militar – sobre uma pequena área envidraçada que estava preparada para resistir a até cinco impactos seguidos de uma arma dessa potência. O aperfeiçoamento tecnológico desse setor no Brasil posiciona a indústria nacional no patamar de nações européias e de Israel, um dos principais países produtores de equipamentos de segurança. A Defense, por exemplo, está produzindo uma placa cerâmica de baixo peso e alta resistência a impactos e é a única no País a utilizar tal tipo de material que foi desenvolvido em Israel. "Antigamente, os veículos tornavam-se excessivamente pesados em consequência da utilização das chapas metálicas de blindagem", explica Ana Maria Ferreira. Segundo ela, a cerâmica é capaz de resistir ao impacto de armas muito potentes como os fuzis de assalto AR-15 (americano), AK-47 (soviético) ou FAL (belga, mas fabricado no Brasil pela Imbel).

A blindagem é o último anteparo entre a vítima e o bandido. E, em geral, é adotada por pessoas que já mantêm outras medidas de segurança. O caso de Lemann é exemplar nesse sentido. Discreto e preocupado com a sua segurança e de sua família, ele mudou-se para São Paulo fugindo da onda de sequestros que tomou conta do Rio há alguns anos. Evita a badalação social, detesta ser fotografado, não fica depois das 22 horas em festas onde nunca leva a mulher e os filhos. Sua casa no Jardim Europa, um dos bairros mais elegantes da capital paulista, é discretíssima e ele já chegou a andar de Fusca para passar despercebido no trânsito. Mesmo assim na terça-feira 9, o que tanto temia quase aconteceu. Os assaltantes armados com pistolas semi-automáticas interceptaram seu Passat blindado que levava seus filhos, Marc sete anos, Lara seis e Kim três.

O motorista de Lemann, José Aureliano dos Santos não obedeceu a ordem para sair do carro e tentou fugir. Acionou a sirene, deu marcha à ré, mas ficou prensado entre o Tempra dos bandidos e uma caminhonete que vinha logo atrás, sendo atingido no braço direito por duas balas, calibre 40 e 9 milímetros, que atravessaram o vidro. Os ladrões saíram do local em alta velocidade. A blindagem do carro e um curso de direção defensiva salvaram a vida de Santos. Dois dias depois, na quinta-feira 11, em um dos cruzamentos do bairro do Itaim, o engenheiro Sérgio Luiz Machado dirigia uma caminhonete Toyota também blindada quando foi abordado por quatro bandidos armados com revólver calibre 38. Machado não se intimidou, acelerou e fugiu em meio a uma saraivada de balas. Na fuga, atropelou um dos ladrões, preso depois pela polícia. Os outros três fugiram em um Tempra prata.

É pela frequência de episódios como esses que as pessoas, além de transformar carros em couraças, tratam suas casas como bunkers. Em muitos condomínios paulistas a monitoração dentro e fora é feita por equipamentos dotados de ondas infravermelhas ou microondas. As ruas internas são circundadas por cercas eletrificadas e filmadas por um circuito fechado de tevês. O acesso se dá por cartões inteligentes onde constam os dados e as fotos dos moradores e de seus empregados. Sem precisar abrir o vidro do carro, uma antena lê o cartão e permite a entrada do condômino. O cartão de entrada dos empregados é programado para permitir a entrada nos horários de serviço. As rondas motorizadas dos guardas noturnos também são controladas por um computador acoplado a câmeras de tevê. Caso algum deles não cumpra os horários estipulados pelo roteiro o sistema é alertado em tempo real e outro segurança é enviado para o local. Segundo Sávio Ferreira de Melo, diretor da Techsystem, divisão de sistemas inteligentes da Graber, dependendo do condomínio, um arsenal de defesa desses pode custar de R$ 25 mil a R$ 1 milhão.

Carros roubados também já podem ser facilmente recuperados pelos proprietários. Isto se estiverem equipados com o dispositivo IFS que permite a uma central localizá-lo em qualquer lugar. Importado pela Electronic Spy, esta central pode, via satélite, guiar o automóvel, reduzindo a velocidade ou mesmo parando o veículo. Basta que o proprietário telefone assim que for assaltado. Outro recurso de segurança pessoal à disposição dos brasileiros é o AL22, uma espécie de lanterna que emite feixes de luze tão fortes que desorientam o ladrão o tempo suficiente para as vítimas fugirem. A empresa que vende esses produtos cataloga seus clientes para evitar o acesso de criminosos.

NOVAS TECNOLOGIAS DE SEGURANÇA DISPONÍVEIS NO MERCADO

INFRAVERMELHO EXTERNO Instalado em casas, o sistema aciona uma central quando seus feixes detectam intrusos

PASTA EXECUTIVA SB100 Acionada por intermédio de um controle remoto, dá choque e emite um alarme quando roubada

CFTV Equipamentos de vídeos com capacidade de cobertura de grandes áreas, são o recurso mais usado em condomínios

Colaborou Gustavo Chacra

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