Cultura

Eleja o escritor do século

Especialistas consagraram nomes esperados e incluíram algumas surpresas entre os 30 selecionados. Mas a palavra final será do leitor

Não consta que Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, preguiçoso e dado aos prazeres da carne, tenha algum dia encontrado Riobaldo, velho jagunço ancorado às margens do rio São Francisco, envolto em redemoinhos de palavras que sopram amores impossíveis e um tenebroso pavor do demônio. Contudo, os protagonistas de Macunaíma (1928), do paulistano Mário de Andrade, e de Grande sertão: veredas (1956), de Guimarães Rosa, mineiro de Cordisburgo, estabelecem um diálogo imaginário que pode valer por 100 anos. Os dois autores foram apontados como os brasileiros mais importantes do século XX na Literatura por um seleto júri indicado por ISTOÉ. "Mário de Andrade era um pioneiro, um dos primeiros a perceber que o Brasil arcaico e rural, mítico e pré-lógico, dava lugar a um País moderno e urbano, racional e lógico. Mas foi Guimarães Rosa quem construiu a ponte entre os dois mundos. Essa ponte sobre um país múltiplo e caótico é a melhor síntese do século XX", afirma o professor José Hildebrando Dacanal, que lecionou literatura brasileira na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) durante 24 anos.

Depois da definição do Esportista (Ayrton Senna) e do Músico (Chico Buarque) – o encarte com os brasileiros mais importantes das Artes Cênicas sairá no final de março –, o leitor de ISTOÉ tem a oportunidade de eleger o Brasileiro do Século na Literatura. A lista elaborada pelo júri inclui exatos 30 nomes (ao contrário do que ocorreu nas categorias anteriores, desta vez não houve empate nas últimas colocações). Caberá ao leitor também indicar quais, entre eles, terão suas biografias publicadas em fascículo especial, em abril. Entre os concorrentes, está Machado de Assis, que morreu em 1908. O critério foi incluir todos os escritores que viveram o século XX, ainda que apenas algumas décadas ou anos. Machado de Assis continuou ativo em seus derradeiros anos de vida e, se é verdade que sua obra foi construída, em sua maior parte, no século XIX, é igualmente verdadeiro que ela transcende a sua época e é mais atual do que nunca. "Machado ilumina a literatura brasileira do século XX", anota o roqueiro e escritor (especializou-se em histórias de suspense) Tony Belloto, guitarrista dos Titãs, um dos nossos jurados.

No total, 230 pessoas foram lembradas pelo júri. Algumas já o haviam sido em outras categorias, como o dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues, forte candidato ao prêmio em Artes Cênicas. É um caso semelhante ao de Ariano Suassuna. Um já foi até eleito pelos leitores como um dos Músicos do Século, o poeta e diplomata Vinícius de Moraes.

Em contrapartida, entre os que foram esquecidos está o mago Paulo Coelho, o mais bem-sucedido escritor brasileiro da atualidade do ponto de vista comercial. Não recebeu sequer uma indicação. Alguém poderia argumentar que, ao em vez de uma bancada de jurados, convocamos uma autêntica banca de acadêmicos, mas isso não corresponde à realidade. Embora tenham sido contatados especialistas como o crítico José Castello, o professor de Português Pasquale Cipro Neto e o poeta e jornalista Bruno Tolentino, o gosto popular estava também representado. Um exemplo é o jogador de futebol Ronaldo Rodrigues de Jesus, o Ronaldão, zagueiro da Ponte Preta. Sabe dar chutões para o alto quando é necessário, mas é também um leitor voraz, que fez bonito ao indicar seus escritores favoritos. Cometeu só o descuido de incluir na lista o poeta português Fernando Pessoa. Outro que, à primeira vista, pode parecer fora do lugar é o general Otávio Costa, ex-combatente da FEB (Força Expedicionária Brasileira) na Itália. Embora tenha passado a vida lidando com as armas, o general – hoje na reserva – sabe também enveredar pelas coisas do espírito. Prova disso é que lembrou do vampiro de Curitiba, Dalton Trevisan, que não está na lista de candidatos.

Para alguns, a escolha do Brasileiro do Século se confundiu com a luta entre a vida e a morte. O diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa, 61 anos, criador do irrequieto e combativo Teatro Oficina, estava no meio do processo de escolha quando foi internado no Incor (Instituto do Coração), em São Paulo, com angina. Antes do imprevisto, ele havia escrito no computador, em sua casa, uma primeira lista. Submetido a um exame de cateterismo para constatar se suas artérias estavam entupidas ou não, ainda na cama do hospital, pediu um laptop para concluir a sua relação dos Brasileiros do Século, como se fosse uma tarefa urgente e necessária.

A lista de Zé Celso chegou à redação junto com um bilhete emocionado, em que ele conta ter escolhido os nomes inspirado mentalmente por seu amigo de infância, o escritor Ignácio de Loyolla Brandão (que, por sinal, também ficou fora da relação dos concorrentes ao prêmio). Veja como o processo de escolha de Zé Celso tem o clima de um sonho: "Quando ISTOÉ me pediu 30 nomes da literatura, antes de ficar pirado com essa escolha difícil chamei mentalmente meu adorado amigo de infância de Araraquara (SP). ‘Eu te ajudo, vamos lá’, ele disse, e começamos a lembrar juntos, passeando pelo Ibirapuera…. Aí fui pro computador e coloquei os nomes… Caí anginado. Fui pro UCO (Unidade Coronariana) do Incor. Hoje, dia 19, aqui no paraíso, em recuperação, tomei um susto ao perceber que não incluíra o nome de Ignácio! Estava tão comigo que eu o esqueci. Para este meu coração em busca de artérias novas, vi Ignácio, o anjo me viu, Ignácio é o mais belo, dos 30 o mais coração."

 

E o prêmio vai para …
Escolha o Brasileiro do Século na Literatura

Guimarães Rosa Médico e diplomata, João Guimarães Rosa (1908-1967) fez da saga do homem rústico do interior de Minas (o escritor nasceu em Cordisburgo) uma obra-prima da literatura universal. Em Grande sertão: veredas, de 1956, revela minucioso conhecimento de plantas, bichos e até da cartografia da paisagem sertaneja. O idioma peculiar dos personagens é recriado até virar uma prosa quase experimental, próxima à poesia. 28 votos.

Mário de Andrade Um dos principais nomes do Modernismo, o paulistano Mário Raul de Morais Andrade (1893-1945) adotou a narrativa fragmentada e abrasileirou a prosa com expressões de cunho popular. Foi contista e poeta, além de pesquisador de música e folclore. Escreveu Macunaíma (1928), romance em que utiliza um mito indígena para sintetizar a essência do caráter do homem brasileiro. 28 votos.

Clarice Lispector Instrospectiva, de estilo marcadamente pessoal, assim era Clarice Lispector (1925-1977), que tinha só dois meses de vida quando veio da Ucrânia para o Brasil. Em sua obra, o esmagamento fortuito de uma barata pode conduzir a uma reflexão angustiada sobre a existência de Deus, assim como o enterro de um cão força o dono a meditar a respeito do sentimento de culpa. 27 votos.

Carlos Drummond de Andrade Um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, mineiro de Itabira (1902-1987), viveu a infância numa fazenda e formou-se em Farmácia. Em Belo Horizonte, fundou A revista, em 1925, apoiando o Modernismo. Em 1933, mudou-se para o Rio, onde virou funcionário público do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Em A rosa do povo (1945), engajou-se ao lado dos que lutam por um mundo justo e belo. Em Claro enigma (1951), flagrou o vazio da vida, sem abandonar o humor. 26 votos.

João Cabral de Melo Neto Nascido no Recife (PE), em 1920, é o poeta do verso "nítido e preciso", como ele próprio define. Contrário à idéia de inspiração, não tolera o sentimentalismo. Faz poesia de crítica social, com destaque para Morte e vida severina, que virou peça de teatro musicada por Chico Buarque nos anos 60. 25 votos.

Graciliano Ramos Autor de Vidas secas e São Bernardo, alagoano de Quebrângulo (1892-1953), foi prefeito de Palmeira dos Índios (AL), em 1927. Lançou-se escritor, aos 40 anos, em Caetés. Em 1936, acusado de comunista pelo governo de Getúlio Vargas, foi preso em Maceió. A experiência foi relatada em Memórias do cárcere (1953). 24 votos.

Érico Verissimo Durante décadas, era um dos raros escritores brasileiros que conseguia viver do ofício. Gaúcho de Cruz Alta (1905-1975), influenciado por Adous Huxley e Somerset Maugham, na primeira fase de sua obra adotou técnicas do romance moderno (como a narrativa de diversas histórias paralelas). A obra-prima, no entanto, é O tempo e o vento, romance épico sobre a colonização do Rio Grande do Sul. 24 votos.

Manuel Bandeira Um dos principais poetas do Modernismo, nascido no Recife (1886-1968), peregrinou por casas de saúde para tratar de graves problemas pulmonares, que se transformaram em poemas como Pneumotórax. Vou-me embora para Pasárgada é um de seus poemas mais conhecidos. 24 votos.

Jorge Amado Lirismo, sensualidade e crítica social marcam a obra desse baiano de Itabuna, nascido em 1912, um dos mais populares escritores brasileiros. Dona flor e seus dois maridos e Gabriela se transformaram em sucesso no cinema e na televisão. 23 votos.

Cecília Meireles Carioca (1901-1964), sua obra reflete atmosfera de sonho e fantasia. Embora tenha sido influenciada no início pelo simbolismo, é apontada como a poetisa moderna, de estilo pessoal e inovador. 21 votos.

Nelson Rodrigues Pernambucano que escandalizou as platéias do País com peças trágicas, protagonizadas por personagens incestuosos, é também um escritor talentoso. Entre os romances (na verdade, folhetins publicados em jornal e mais tarde editados em livros), destaque para Meu destino é pecar (1944), A mulher que amou demais (1949) e Asfalto selvagem (1960). 20 votos.

Lygia Fagundes Telles Paulistana de 1923, começou como contista aos 15 anos, gênero em que se destacaria depois com Histórias do desencontro (1958) e O jardim selvagem (1965). Escreveu também romances como Ciranda de pedra (1955) e As meninas (1973). 18 votos.

Oswald de Andrade Poeta, romancista e ensaísta que encarnou o espírito rebelde do Modernismo (1890-1954), era antes de tudo um agitador cultural. Inventou a Antropofagia – em vez de imitar, o melhor é devorar criticamente a cultura das metrópoles. 18 votos.

Monteiro Lobato Paulista de Taubaté (1882-1948), escreveu livros infantis muito populares, como O sítio do picapau-amarelo, gênero que ele considerava "vasto e nunca tentado" e que consolidou no Brasil. Seu nome está ligado também ao personagem Jeca Tatu (arquétipo do homem puro do interior, marginalizado e empobrecido) e a campanhas como a de busca de petróleo em território nacional. 17 votos.

Vinícius de Moraes Mais popular como letrista de canções da bossa nova, esse advogado e diplomata carioca (1913-1980) destacou-se antes como poeta. Até 1938, com Novos poemas, fazia poesia mística, e a partir de 1943, com Cinco elegias, os versos chegaram mais perto do mundo material. 16 votos.

Euclides da Cunha Como repórter, acompanhou a fase derradeira da revolta de Canudos, em 1897. Suas reportagens foram reunidas em livro, após sua morte, em Os sertões (publicado em 1902), obra fundamental de denúncia das reais condições de vida no Nordeste. 16 votos.

José Lins do Rego As lembranças de infância constituem a matéria-prima da ficção do paraibano José Lins do Rego (1901-1957), que fez uma série de romances sobre o ciclo da decadência da cana-de-açúcar, na Zona da Mata nordestina. O principal título é Menino de engenho (1932). 16 votos.

Lima Barreto Carioca (1881-1922), o pai era zelador de um manicômio. Ele próprio foi internado, dependente da bebida. Não foi reconhecido em vida, mas é admirado hoje como escritor de dramas humildes, ao qual não faltou sarcasmo para retratar os meios políticos de sua época. 15 votos.

Machado de Assis Para muitos, o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Nascido no morro Jumento, no Rio (1939-1908), filho de um mulato e de uma lavadeira portuguesa, foi o primeiro presidente e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1896. Escreveu Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1900). 14 votos.

Rachel de Queiroz Sua obra revela a miséria do nordestino. Cearense de 1910, descendente de José de Alencar (uma das avós era prima do escritor), é a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras (1977). 14 votos.

Rubem Fonseca Diz a lenda que todo autêntico carioca nasceu em Minas. É o caso de Fonseca, de Juiz de Fora, em 1925. De estilo áspero e contundente, escreveu Feliz ano novo (1975). 12 votos.

Mário Quintana Poeta gaúcho (1906-1994), de humor sutil e fina sensibilidade, morou a vida toda em hotéis de Porto Alegre, cenário e inspiração de sua obra. 10 votos.

Dionélio Machado Esse gaúcho de Quaraí (1895-1985), escritor e psiquiatra, em Os ratos (1935) descreve em minúcias a angústia de um modesto funcionário público preocupado por não ter como pagar o leiteiro na manhã seguinte. 10 votos.

Murilo Mendes Mineiro de Juiz de Fora (1901-1975), integrado ao movimento Modernista, compôs desde sátiras e poemas-piadas até versos de inspiração religiosa. 10 votos.

Antônio Calado Natural de Niterói (RJ) (1917-1997), foi jornalista, teatrólogo e ficcionista. Sua obra mais conhecida é Quarup (1967), romance sobre as mazelas políticas do País cujo desfecho se dá numa das mais importantes festas de nossos índios. 9 votos.

Ferreira Gullar Poeta maranhense de 1930, fez parte do movimento Concretista. Afastou-se depois para assumir uma postura de engajamento político. 9 votos.

Ariano Suassuna Dramaturgo, poeta e romancista, nascido em 1927 em João Pessoa (PB), sua obra é marcada pela fé no catolicismo. Trouxe à tona as raízes árabes da cultura popular do Nordeste. 8 votos.

Gilberto Freyre Sociólogo e escritor, é autor de Casa-Grande & senzala, principal obra sobre as raízes étnicas do País. 8 votos.

Darci Ribeiro Antropólogo, educador e escritor, é um dos políticos mais importantes do final do século. Projetou a Universidade de Brasília e escreveu O povo brasileiro. 8 votos.

 

Na ponta do lápis
Ecletismo é a marca do júri escolhido por ISTOÉ

Heloísa Buarque de Holanda Escritora paulistana, lançou em 1998 o livro Esses poetas.
Ivan Junqueira Ensaísta, tradutor e poeta carioca, tem 26 obras publicadas, entre elas, O fio de Dédalu (1998).
Arrigo Barnabé Compositor paranaense, é autor do sucesso Canção dos vagalumes.
Hamilton Vaz Pereira Autor e diretor carioca, é roteirista do programa Muvuca da Rede Globo.
José Sarney Ex-presidente da República, é ensaísta, poeta e cronista.
Waly Salomão Escritor e letrista, é parceiro de Caetano Veloso, Gilberto Gil, entre outros.
Dias Gomes Dramaturgo e autor de novelas, possui mais de 40 obras, entre elas a peça O pagador de promessas e a novela Roque Santeiro.
Sérgio Sant’Ana Escritor carioca, tem 14 romances publicados e ganhou três vezes o Prêmio Jabuti.
José Hildebrando Dacanal Jornalista gaúcho, foi professor de Literatura Brasileira na UFRS.
Márcia Abreu Professora do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.
Pedro Bial Jornalista carioca, é apresentador do Fantástico. Escreveu os livros Leste Europeu e Crônicas de repórter.
Sábato Magaldi Crítico teatral há 38 anos, é membro da Academia Brasileira de Letras.
Cristovão Tezza Escritor catarinense, é professor do Departamento de Linguística da UFPR.
Lúcia Maria Glück Camargo Jornalista paranaense, é secretária Municipal de Cultura de Curitiba.
Rodolfo Konder Jornalista e escritor, é secretário Municipal de Cultura de São Paulo.
Fernando Santos Paulistano de 47 anos, é diretor de Livros do Ática Shopping Cultural.
Léo Gilson Ribeiro Escritor e jornalista mineiro, é autor de Crônicas do absurdo, entre outros.
Roberto de Oliveira Brandão Professor de Literatura Brasileira da USP há mais de 30 anos.
Lya Luft Escritora há 36 anos, suas obras mais destacadas são Reunião de família e O rio do meio.
Tony Belotto Guitarrista e escritor, escreveu os livros Bellini e a esfinge e Bellini e o demônio.
Bruno Tolentino Jornalista e escritor carioca, é editor das revistas República e Bravo!
Márcio Souza Escritor e presidente da Fundação Nacional de Arte, tem 17 livros publicados.
Moacyr Scliar Gaúcho de Porto Alegre, é autor de 50 livros (romances, contos, crônicas, ensaios).
Otávio Costa Foi tenente da FEB na Itália na II Guerra Mundial. É general e historiador oficial do Exército.
José Celso Martinez Corrêa Ator e diretor de teatro, dirige o Grupo Oficina, em São Paulo, há 40 anos.
José Castello Jornalista carioca, é colunista do jornal O Estado de S.Paulo.
Pasquale Cipro Neto Professor de Português e apresentador do programa Nossa língua portuguesa da Rede Cultura.
Hilda Hilst Escritora há 49 anos, seu livro de maior sucesso é Caderno rosa de Lory Lambi (1988).
Ronaldo Rodrigues Ex-jogador da seleção brasileira na Copa de 1994.
Eva Wilma Atriz com 46 anos de carreira, fez 28 peças de teatro, 18 filmes e dezenas de novelas.