Cultura

A outra face do gênio

Shakespeare apaixonado, que concorre a 13 Oscars, faz boa ficção em cima da vida e dos amores do autor inglês

Populares no mundo inteiro, as peças do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616) já deram origem a mais de 360 filmes e produções televisivas. Mas, pela primeira vez, o que tem atraído o público aos cinemas não são as dúvidas de Hamlet, os dramas de consciência de Macbeth ou os ciúmes de Otelo. Em Shakespeare apaixonado (Shakespeare in love, Estados Unidos/Inglaterra, 1998), comédia romântica de John Madden, com estréia nacional na sexta-feira 12, o protagonista é o próprio autor, flagrado no momento em que escrevia Romeu e Julieta, a mais famosa de suas 38 obras. Baseado no premiado roteiro de Marc Norman e do dramaturgo e cineasta Tom Stoppard, a produção indicada a 13 Oscars – dois a mais que o favorito O resgate do soldado Ryan –, mostra Shakespeare como um jovem aventureiro e ambicioso, lutando para se impor no concorrido negócio teatral da Londres elizabetana. No meio de um bloqueio criativo, que o impede de escrever sequer uma linha, Shakespeare – interpretado por Joseph Fiennes, irmão de Ralph Fiennes – se depara com uma loira de semblante suave e espírito vivaz chamada Lady Viola De Lesseps (Gwyneth Paltrow). Era a musa que buscava. Os dois se apaixonam, mas ela já estava prometida a um lorde calhorda, a mando da própria rainha Elizabeth I (Judi Dench). A história de amor impossível não soa familiar? Pois, de acordo com a velha fórmula de que a vida imita a arte, teria surgido daí a inspiração que faltava para Shakespeare colocar no palco a trágica história dos amantes de Verona.

No entanto, afora a presença de alguns personagens reais, como o dramaturgo Christopher Marlowe (Ruppert Everett), maior rival de Shakespeare, e os atores Ned Alleyn (Ben Affleck) e Richard Burbage (Martin Clunes), que entraram para a história como grandes intérpretes da época, quase tudo não passa de mera especulação. Não existe nada documentado sobre detalhes da vida pessoal e amorosa de Shakespeare, que se casou aos 18 anos com uma mulher bem mais velha e teve três filhos. Quando se mudou de Stratford-Upon-Avon para Londres, aos 28 anos, deixou a família para trás, engrossando as fofocas em favor de supostos amores clandestinos. Até mesmo porque, segundo a hipótese, Shakespeare se referiu em seus Sonetos a uma paixão nomeada apenas como "dama de preto". Daí a ser Lady Viola é pura imaginação.

Adiantando-se, o diretor Madden logo se defendeu dos chiliques de especialistas. "Conhecemos muito pouco sobre a vida pessoal de Shakespeare", diz, lembrando algumas anedotas a respeito dele. "Contam que ele pagou 50 libras para se juntar ao Curtain Theatre e que no seu testamento deixou a segunda melhor cama para a mulher."

Descontadas as licenças poéticas, contudo, a comédia oferece um painel exuberante de uma época na qual o teatro era o grande entretenimento popular. Em Shakespeare apaixonado, o roteirista Stoppard reconstruiu de alto a baixo a sociedade elizabetana – sua corte suntuosa, tabernas sujas e movimentadas vielas enlameadas – num enredo que mesmo não sendo autêntico esbanja magia e espirituosidade. Passada em 1593, a história começa com o dramaturgo, apelidado de Will, sendo pressionado por Philip Henslowe (Geoffrey Rush), empresário do teatro The Rose, a entregar uma nova peça, Romeu e Ethel, a filha do pirata, anunciada como uma comédia com muita ação e mordidas de cachorro. Encantada pelo palco num momento em que a profissão de ator era proibida às mulheres, Lady Viola se traveste de homem e se apresenta para o papel de Romeu. Shakespeare fica literalmente transtornado com sua interpretação de um trecho de Os dois cavalheiros de Verona, e persegue o pretenso ator até sua casa. Lá, depara-se com a jovem sem o figurino de Romeu. Sem perceber que é ela que interpreta o personagem, apaixona-se à primeira vista.

O que se segue é uma trama engenhosa na qual se cruzam artifícios comuns ao estilo de Shakespeare, como identidades trocadas, bilhetes truncados, aparição de fantasmas, com belos trechos de suas peças. Especialmente Romeu e Julieta, cujos versos surgem diretamente das cenas de amor entre o autor e sua amante. Primeira convidada para o papel da heroína, Julia Roberts deve estar-se roendo de ódio. O que não dizer de Winona Ryder que, sondada, deixou o roteiro jogado em sua sala? Por influência do destino, um belo dia a amiga Gwyneth Paltrow deu com os olhos no calhamaço. Não pensou duas vezes e hoje está indicada ao Oscar de melhor atriz, concorrendo com Fernanda Montenegro. Judi Dench, que disputa a estatueta de melhor atriz coadjuvante, foi outra que apostou no filme. Disse que participaria do elenco nem que fosse apenas para entrar por uma porta. Shakespeare apaixonado custou US$ 25 milhões, quantia considerada média para os padrões americanos. É um barquinho movido a poesia, seguindo a rota premiada do gigante Titanic.