Cultura

Morte para o monstro

Chefe de bando racista que torturou e assassinou um aposentado negro no Texas é condenado à morte por um júri majoritariamente branco

Já passava das duas e meia da madrugada de um domingo em Jasper, uma minúscula cidade do leste do Texas, EUA, quando James Byrd Jr., um negro de 49 anos, voltava a pé para casa, depois de se divertir na festa de uma sobrinha. Daquela noite de verão, ele não esperava mais nada a não ser chegar em casa para dormir. Byrd certamente considerou uma sorte quando três rapazes brancos numa picape velha lhe ofereceram carona. Agradeceu e subiu na caçamba. O caronista não tinha como ver que aqueles moços – dois com 23 anos e o outro com 31 – ostentavam um cipoal de tatuagens racistas, com símbolos nazistas, da Ku Klux Klan e de um outro grupo supremacista branco chamado Cavaleiros Confederados da América. O líder deles, John William King, tinha a figura de um negro enforcado misturada a outros desenhos espalhados pelo corpo. Byrd só deve ter começado a perceber que algo estava errado quando a caminhonete tomou o rumo de uma estrada deserta que corta uma floresta no condado de 7,5 mil habitantes.

Longe das vistas e dos ouvidos de qualquer morador, os garotos pararam a picape junto a uma clareira, seguraram Byrd e começaram uma sessão de pancadaria, com socos e pontapés, que deixou o homem quase desacordado. Em seguida, abaixaram as calças da vítima e prenderam uma corrente de 7,5 metros em seus tornozelos. Na outra ponta estava a traseira da caminhonete. Sem hesitação, King pisou no acelerador, arrastando a vítima pela estrada. Incapaz de se desvencilhar da corrente, Byrd tentou manter a cabeça erguida, apoiando seus cotovelos no chão. Enquanto sua carne era dilacerada pelo asfalto, uma longa e quase contínua mancha de sangue ia se estendendo pelo percurso. A corrida só acabou depois de quatro quilômetros, quando Byrd, ainda com vida, chocou-se violentamente contra uma canaleta de concreto à beira da estrada, e teve sua cabeça e o braço direito arrancados. O torso de Byrd foi encontrado naquela manhã, 7 de junho do ano passado, a cerca de 1,5 quilômetro da cabeça e do braço. O selvagem assassinato foi considerado o crime racista mais bárbaro das últimas décadas. Na quinta-feira 25, um júri composto por 11 brancos e um negro condenou John William King, hoje com 24 anos, à pena de morte por injeção letal. Os outros dois acusados, Shawn Berry e Lawrence Brewer, estão presos aguardando julgamento.

A prisão dos três aconteceu no mesmo dia do assassinato. Um dos primeiros a chegar ao local do crime foi o xerife Billy Rowles. Ele viu a marca do sangue na estrada e notou que ela não corria paralela ao caminho dos pneus. "Me ocorreu que alguém tinha arrastado alguma coisa. Quando eu encontrei um isqueiro com o emblema da Klan, comecei a pensar no pior", disse o xerife (até os anos 50, era comum negros serem arrastados até a morte por cavalos ou veículos). Os policiais chegaram a Shawn Berry, que entregou os outros dois amigos.

Após a detenção do grupo, as evidências contra eles se tornaram mais sólidas. Bilhetes que King escreveu na cela para Brewer foram interceptados pelos carcereiros e tornaram-se uma prova na corte. "Nós fizemos história e seremos lembrados com orgulho se tivermos que morrer", escreveu. Embaixo, completou: "com muito amor, respeito e honra arianos…" e assinou seu apelido "Possum", com as letras SS grafadas em forma de raio, imitando a tropa especial nazista. Segundo sua família, King, adotado pelos pais antes de completar um ano, tornou-se racista durante sua primeira passagem pela prisão, entre 1995-97, quando aderiu aos Cavaleiros Confederados da América, uma gangue de presos. Para o procurador Guy James Gray, o assassinato de Byrd foi um ritual que marcaria o início de um grupo racista liderado por King, os Soldados Rebeldes do Texas.

Apesar da forte comoção na cidade, a reação ao assassinato de Byrd, que vivia de pensão governamental por conta de um defeito físico, acabou sendo mais positiva do que se poderia imaginar. Os crimes de ódio nos EUA, que segundo o FBI somaram mais de dez mil em 1996, com 11 assassinatos, geralmente provocam choques entre negros e brancos. Isso não aconteceu em Jasper. Ironicamente, 18 membros da Ku Klux Klan local chegaram a fazer uma manifestação na cidade para condenar o assassinato. Membros armados de um grupo chamado Novos Panteras Negras, que foi a Jasper para "defender negros de qualquer agressão branca", voltaram para casa depois de perceber que a população, mesclada quase meio a meio por brancos e negros, estava tranquila. Há um mês, dezenas de voluntários brancos e negros, desmontaram a grade de ferro que desde 1836 dividia o cemitério da cidade. Preso a uma cadeira de rodas, o pai do condenado, Ronald, 68 anos, chorou muito durante o julgamento, pedindo pela vida do filho. Mas deixava claro que não concordava com suas idéias. Uma das filhas da vítima abraçou Ronald um dia antes de sair o veredicto. "Eu disse a ele que não era sua culpa. E que Deus o abençoasse."