Brasil

Um banquinho, um violão e muita malcriação

Na inauguração da casa paulistana de espetáculos Credicard Hall, João Gilberto reclama demais por causa do som e a platéia responde com vaias

Tinha tudo para ser uma noite engalanada. Afinal, depois de os cinco sócios do Credicard Hall terem investido R$ 34 milhões naquela que é considerada a maior casa de espetáculos da América do Sul, em área construída, a expectativa era de que a sua inauguração na quarta-feira 29 fosse de um luxo correspondente. Mas a errada estratégia de convidar o imprevisível e perfeccionista João Gilberto para fazer com Caetano Veloso um show que poderia ser histórico fez desabar o evento numa cascata de constrangimentos. Devidamente acomodado em mesas, poltronas e camarotes luxuosos, regados à espumante prosecco e uísque oito anos, o público de 4,8 mil pessoas convidadas aguardou até às 22h05, quando finalmente o mito da bossa nova pisou no imenso palco acompanhado de Caetano. Nem bem exercitou um banquinho e um vio-lão, João reclamou do vento do ar-condicionado. Entre os músicos é sabido que o frio do equipamento desafina cordas e prejudica a garganta. Ainda mais em se tratando de João.

Há quem afirme que só Caetano Veloso ensaiou, portanto João Gilberto – que teria ganho US$ 60 mil pela performance – não tinha a menor idéia de como seria o som. Deu-se a primeira música. João reclamou do eco vindo em sua direção. Caetano Veloso, sempre na imutável posição de discípulo embevecido, sorriu. Veio a segunda canção, a terceira, a quarta e o músico continuou reclamando do tal eco. Chegou o momento solo de João. Aí o clima piorou. “Se fosse um artista estrangeiro, processaria esta casa.” “Nunca mais piso aqui.” As frases se suce-diam num crescer raivoso. O show, é claro, tornou-se burocrático. Clássicos como Garota de Ipanema e O pato ou o desfile de canções de Tom Jobim foram ouvidos sem a habitual destreza do papa da bossa nova. Mesmo porque – perdoem a possível heresia – João Gilberto não é mais o mesmo. Sua voz não alcança os agudos de outrora, ele saiu do tom quando cantava Coração vagabundo, tudo agravado pelo seu ódio ao eco. Na platéia, bem à sua frente, roqueiros como Roberto Frejat, vocalista e guitarrista do Barão Vermelho, e Charles Gavin, baterista dos Titãs, concordavam que havia eco. Para a maioria do público tudo não passava de exagero. Até porque tinha muita gente mais interessada em atender e falar ao celular do que prestar atenção no palco.

Na realidade, foi o show errado no lugar errado. Apesar da opulência, o Credicard Hall não está preparado para espetáculos intimistas como o da inauguração. Aliás, em seu discurso de abertura, Fernando Alterio, um dos sócios, lamentou não passar o vídeo de apresentação justamente por um problema de som. Quer dizer, João Gilberto tinha sua dose de razão. “De fato, nas três ou quatro primeiras fileiras estava dando eco. O João Gilberto estava certo, só exagerou na ênfase”, declarou Alterio. “Nós já revestimos a parte frontal dos camarotes com um material acústico absorvente e pusemos cortinas de veludo nas janelas das suítes.”

Naquela noite fatídica, no entanto, a atmosfera de animosidade aumentou quando parte do público soltou uma imensa vaia. João retrucou mostrando a língua. “Vaia de bêbado não vale.” Caetano Veloso entrou em cena. E quando Caetano resolve entrar em cena é para valer, todos sabem. “Eu não vou falar nada. Mas vou falar sim”, determinou. “Aquelas pessoas que vaiaram aqui João Gilberto não me são aceitas no coração.” Ele está certo. Não se vaia um mito como João Gilberto. Mas a insistência reclamante do cantor deixou todo mundo nervoso e as pessoas, a esta altura divididas, se manifestavam como num festival. Citando um dos versos da definitiva Sampa, de Caetano Veloso, cantada em dupla, no fim da noite sobrou a sensação de que tudo fora o avesso do avesso do avesso.