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O mistério de Safra

A morte de Edmond Safra, às vésperas da conclusão de um negócio bilionário, encerra a trajetória de um dos mais poderosos banqueiros do mundo

O edifício Belle Époque, apesar de construído no final do século passado, é equipado com vários artefatos de segurança deste fim de milênio. Localizado na avenida d’Ostende, 17, a poucos metros do famoso Cassino de Montecarlo, em Mônaco, conta com detetores de metais e câmeras de segurança na sua entrada. Motivos para tanta precaução não faltam. Grandes bancos internacionais, como o Republic National Bank of New York e o Paribas, têm agências no luxuo-so prédio de seis andares. E o próprio dono do Republic National, o judeu libanês naturalizado brasileiro Edmond Safra, 67 anos, um dos homens mais ricos do planeta, morava nos dois últimos níveis, num dúplex cinematográfico. Mesmo com todo esse esquema de proteção, dois homens encapuzados e portando apenas facas invadiram a residência de Safra na madrugada da sexta-feira 3 e puseram fogo numa das alas do local. A fumaça matou por asfixia Edmond e sua enfermeira Viviane Tourront, que estavam refugiados num banheiro. “Os invasores aparentemente não levaram nada do local. Foi um trabalho de profissionais e, ao que parece, um atentado contra Safra”, afirmou a ISTOÉ o promotor Daniel Serdet, que cuida do caso. A polícia ainda não sabe quem matou ou ordenou a morte do banqueiro, mas há alguns caminhos a seguir. Safra negociava há meses a venda dos seus dois bancos – o Republic National e o Safra Republic Holdings, de Luxemburgo – para o HSBC e teria informado ao FBI que a máfia russa usava as agências de seu banco para lavagem de dinheiro. Edmond tinha inclusive encerrado 40% dos negócios na Rússia. Antes disso, veio à tona o fato de que investidores japoneses foram prejudicados em cerca de US$ 1 bilhão pela corretora Princeton Economic International, que tinha o aval do Republic National.

O ataque – A história toda dará muito trabalho à polícia de Mônaco e da França – em cujo território o principado está situado – que já foi acionada. Outro fato intrigante é que além da parafernália de segurança no prédio em que residia, Safra era conhecido também por ter contatos com o Mossad, serviço secreto de Israel. Seus seguranças eram, inclusive, treinados pela força de elite israelense. Os invasores do Belle Époque sabiam, portanto, muito bem o que estavam fazendo. A mulher do banqueiro, Lilly, só escapou da morte porque morava em outra ala da residência e dormia no momento do crime. Safra sofria do mal de Parkinson e era acompanhado de enfermeiros. Foi um deles que acionou o alarme. “Ele encontrou os invasores e disparou o alarme às 5h30. Depois de esfaqueá-lo, os assassinos colocaram fogo na residência”, explicou Serdet. A outra enfermeira se trancou no banheiro e morreu com Safra. Lilly, que é a única herdeira da rede de eletrodomésticos Ponto Frio, escapou viva das chamas e da fumaça e o enfermeiro foi levado ao hospital. A morte do banqueiro chocou sua família. Logo na manhã de sexta-feira, seus irmãos Moses e Joseph deixaram São Paulo em direção a Mônaco.

Edmond Safra, um dos banqueiros mais influentes e bem-sucedidos do mundo, era um nômade do mercado financeiro. Ergueu seu império pelo mundo afora, das margens do lago de Genève, na Suíça, à Quinta Avenida, no coração de Nova York. Considerada a 94ª pessoa mais rica do mundo pela revista americana Forbes, no ano passado, com uma fortuna de US$ 2,5 bilhões, Safra era o homem forte de um clã de oito irmãos, com tradição secular na área financeira. No final dos anos 40, a pressão anti-semita que assolou o Oriente Médio após a fundação do Estado de Israel obrigou a família a deixar o Líbano. Após uma passagem pela Itália, Edmond Safra chegou ao Brasil. Tinha apenas 24 anos quando fundou o Banco Safra, que acabou vendendo aos irmãos Joseph e Moses em 1962 – atualmente o Safra é um dos dez maiores bancos privados do País. Pelo menos Jo-seph, hoje com 67 anos, o tratava como um guru, consultando-o antes de concluir cada grande negociação. Quatro anos depois, Edmond fincou sua bandeira na América ao fundar o Republic National Bank of New York. Em pouco tempo, o banco de Safra passou a pilotar boa parte das transações de compra e venda de cerca de 60 toneladas de ouro por dia na Bolsa de Valores de Nova York.

Homem do ouro – A partir da década de 80, Safra se transformou na principal referência no mercado internacional do ouro. Para se ter uma idéia de sua importância, o dia no mercado mundial do ouro começava às 10h da manhã (horário local de Nova York) quando o Republic abria sua cotação. No início deste ano, Safra decidiu vender o Republic, atualmente o 22º maior banco em capital dos Estados Unidos, para o inglês HSBC. Um dos motivos seria o fato de Safra estar com o mal de Parkinson, doença revelada por ele no ano passado ao doar US$ 50 milhões para uma fundação que estuda o assunto. O negócio, porém, ficou emperrado durante alguns meses por causa de um possível envolvimento do Republic com a Princeton Economic International, empresa americana acusada de fraude em operações de venda de títulos no Japão, que resultou num prejuízo de US$ 1 bilhão a investidores japoneses. Durante as investigações sobre as operações da Princeton, descobriu-se que o Republic New York Securities, um braço do grupo de Safra, fazia a custódia dos títulos, ou seja, dava o seu aval aos negócios. Apesar de não ter ocorrido nenhuma acusação formal contra o Safra, o episódio causou mal-estar em Wall Street.

O impasse só foi resolvido no mês passado, quando o banqueiro decidiu reduzir em US$ 450 milhões o valor da venda do banco, que era de US$ 10,3 bilhões. Além disso, ele concordou em pagar outros US$ 180 milhões no caso de possíveis indenizações decorrentes do processo contra a Princeton. Em nota oficial sobre a morte de Safra, o HSBC informou que o processo de aquisição do Republic deve ser con-cluí-do, conforme as condições previamente nego-ciadas, até o final deste ano. Não foi a primeira vez que Safra enfrentou uma tempestade de areia no mundo dos negócios. Em 1983, ele vendeu por US$ 250 milhões o Trade Development Bank, com sede na Suíça, para o American Express. Algum tempo depois, abriu outro banco para competir com os americanos. Enfurecidos, os diretores do American Express iniciaram uma campanha difamatória contra o banqueiro. Ele foi à Justiça e ganhou. A indenização de US$ 4 milhões foi doada a uma instituição de caridade escolhida pelo próprio banqueiro. Com ligações tão extensas e polêmicas quanto sua fortuna, a morte de Edmond Safra guarda o mistério dos grandes crimes internacio-nais e deve alimentar uma série de especulações sobre suas causas.