Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

Ódio e intolerância. Passados 60 anos do início da Segunda Guerra Mundial, os sentimentos que alimentaram o nazismo alemão ainda assombram o mundo. E aqui no Brasil, por incrível que pareça, o fantasma também sobrevive. Ele está nos pensamentos e nas palavras de neonazistas integrantes de um grupo autodenominado White Power. Em Santo André, na região do ABC, em São Paulo, ISTOÉ encontrou quatro representantes desse movimento. Filhos de metalúrgicos, funcionários públicos e de profissionais liberais, os neonazistas pregam a discriminação racial como metralhadoras giratórias: eles não suportam judeus, mas não poupam negros, nordestinos e homossexuais.

“Nosso principal inimigo é o judeu, especialmente os sionistas”, afirma André (nome fictício), operário de 25 anos que está no movimento desde 1989. “São eles que controlam a mídia, as grandes corporações e estão patrocinando os movimentos em favor dos negros e dos homossexuais”, acredita André. A teoria que sustenta o ódio desses brasileiros é o revisionismo histórico, presente em uma série de livros que afirmam que o Holocausto – o extermínio em massa dos judeus durante a Segunda Guerra – não existiu. “Essa história é pura ficção. Não morreram seis milhões de judeus, nem existiram câmaras de gás e nem Hitler foi um assassino”, diz André. Para ele, tudo não passou de um golpe judaico para viabilizar a criação do Estado de Israel. “Eles são um câncer na nossa sociedade. Exploram os povos e mandam todas as riquezas para um país que há 50 anos nem existia.”

O sociólogo Túlio Kahn, da Universidade de São Paulo, explica que os neonazistas bebem de diversas fontes para formular sua ideologia. Uma delas seria o livro Os protocolos dos sábios de Sião, que afirma que os judeus querem dominar o mundo. “Este livro fez um estrago enorme, pois é uma das maiores falsificações da história, feita pela polícia secreta do czar russo”, conta o sociólogo. “Há pseudo-historiadores, inclusive no Brasil, que escrevem livros sem nenhuma base documental e nos quais esses jovens acreditam”, diz Túlio Kahn. Ele cita uma editora do Rio Grande do Sul, de propriedade do descendente de alemão Sigmund Ellwanger, como a principal divulgadora brasileira dos ideais nazistas. “Gente como esse editor é muito mais perigosa do que alguns moleques. Tem interesse comercial e político, enquanto os outros são contraditórios – falam de pureza de raça em um país miscigenado, se dizem nacionalistas, mas copiam um movimento nascido na Europa.”

Atentado – O perigo, porém, é mais latente do que se desejaria. Autor do livro Ensaios sobre racismo (editora Conjuntura), Túlio Kahn produziu uma cronologia dos casos envolvendo violência de grupos racistas no Brasil. Entre 1992 e 1996 contam-se mais de 60 episódios. “Todos os movimentos desse tipo são perigosos”, avalia Ben Abraham, 75 anos, presidente da Associação das Vítimas do Holocausto, que passou cinco anos e meio em campos de concentração na Polônia. “Quando Hitler começou também era seguido por um pequeno grupo de vagabundos. E basta um homem para fazer um atentado.” Em 27 de setembro deste ano, a polícia encontrou e desativou uma bomba de fabricação caseira dentro da sede da Anistia Internacional, em São Paulo. Junto ao artefato, havia o seguinte bilhete: “Vocês defendem homossexuais e negros, nós os matamos. Vocês são nossos inimigos. Morte a vocês.” Um grupo discriminatório, chamado Frente Anticaos, tem divulgado panfletos e produzido sites na Internet pregando contra homossexuais. A rede de computadores, por sinal, se tornou o melhor meio de comunicação para os neonazistas – ou melhor, “cyberfascistas”. “A rede é uma maneira segura de se compartilhar preconceitos com um grupo, pois as mensagens podem ser divulgadas sem enfrentar problemas judiciais”, aponta Túlio Kahn. Não é o que pensa o neonazista André. “Três integrantes do nosso grupo no Uruguai foram presos por terem uma página na rede. A Internet acaba se tornando uma arma contra a gente”, diz ele, que aplaude o atentado à sede da Anistia. “Só faria uma coisa mais organizada, para valer.” Para ele, qualquer organização que defenda os direitos humanos deve ser considerada inimiga.

O movimento White Power, contudo, está acuado. Em boa parte isso se deve a mudanças na legislação brasileira: se antes a Lei nº 7.716 definia o racismo como contravenção, hoje o considera crime. A isso somam-se a proibição pública de símbolos nazistas, como a suástica, e a abertura da primeira delegacia contra crimes raciais, em 1994.

Ignorância – As ações neonazistas, portanto, hoje não vão muito além da distribuição de panfletos, cartazes e fanzines com suas mensagens. “A gente não sai agredindo pessoas nas ruas, apenas reagimos quando nos sentimos agredidos”, afirma Rafael (nome fictício), 18 anos. “É muito cedo para pensar em terrorismo, não estamos preparados. Mas eu adoraria botar uma bomba debaixo do banco do Henry Sobel e ver o kipá subir quilômetros”, alardeia André. “Mas isso é quase impossível, pois há muita segurança.” Para Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista, não importa se é uma falácia ou uma ameaça verdadeira. “Confio nas autoridades brasileiras incumbidas da minha segurança. Mas a informação por si só pode constituir delito e, portanto, vou procurar tomar as providências cabíveis”, afirma o rabino. “O ódio desses grupos é fruto de ignorância e trai os valores da nação brasileira: a harmonia, o respeito mútuo e a convivência pacífica entre os diferentes.”

O perfil do neonazista brasileiro é heterogêneo. Tem até gente que estudou. Marcelo (nome fictício), por exemplo, tem 19 anos e já viajou para o Exterior mais de uma vez, está fazendo cursinho e pretende entrar numa Faculdade de Direito. “Eu sempre tive uma consciência racial. Quando comecei a ler uns livros, percebi o mal que os judeus fazem. Eles querem dominar o mundo e para isso tentam exterminar a raça branca”, afirma o jovem, que há três anos participa de reuniões neonazistas e se corresponde com outros racistas espalhados pelo Brasil, Uruguai, Argentina, Europa e Estados Unidos. Segundo Marcelo, seu grupo, chamado Império, conta com cerca de 60 integrantes apenas no Estado de São Paulo. Os neonazistas brasileiros são jovens, não bebem e não fumam, defendem o uso de armas e gostam de música hardcore. Muitos foram punks, carecas do subúrbio ou carecas do ABC, como o vendedor Paulo (nome fictício), 31 anos, que trabalha no centro de Santo André vestindo uma camiseta onde se lê “100% branco”. “Se os negros usam, porque eu não posso? Eles são mais racistas do que os brancos”, diz ele. Paulo é uma variável dos neonazistas. Define-se como separatista e fala mal de nordestinos, judeus, homossexuais e coreanos. “Acho errado São Paulo levar o Brasil nas costas” justifica. Mas ele anda meio ausente das reuniões neonazistas. A razão é prosaica. “Minha namorada não deixa.”