Comportamento

Projeto sossego

A boa-vida de quem deixou a confusão das grandes cidades para montar pousadas no campo ou na praia

Um dia eu largo tudo e monto uma pousada." Com a vida nos grandes centros urbanos cada vez mais feroz, isso se tornou uma fantasia comum. Investindo, em geral, até R$ 200 mil (o equivalente a um apartamento novo de 120 metros quadrados em bairro nobre do Rio ou São Paulo), sonhadores dotados de espírito prático montam seus negócios no campo ou no mar. Os que se adaptam bem ao ofício vivem uma vida mais amena e se divertem. Enriquecer é raro, mas, no caso deles, não é prioridade.

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Foi o acaso que levou o paulista Edgar Rua, 47 anos, a realizar seu sonho. Em 1980 ele comprou um terreno em Caraíva, praia no sul da Bahia com menos de mil habitantes. A aquisição coincidiu com um assalto à sua confecção, no Rio de Janeiro. Ao receber o dinheiro do seguro, ele teve a inspiração. "Percebi que os ladrões tinham resolvido meus problemas", recorda-se. Montou um restaurante em Porto Seguro, mas em 1991 achou que o lugar estava muito agitado e se mudou para Caraíva. "Desci do caminhão de mudança e comecei uma nova etapa", exulta. O lugar se encheu de turistas, que fugiam da aglomeração de Arraial da Ajuda e Trancoso. Só no último réveillon desembarcaram em Caraíva 3.500 visitantes.

Hoje, Edgar acorda às 5h para andar na praia deserta. Sua única rotina é regar as plantas. Na alta temporada, ele não dorme mais do que duas horas por noite, mas não reclama. "A festa acaba com dia claro e o breakfast começa às 8h", revela. Durante o ano, entretanto, pode passar até um mês sem receber nenhum hóspede. É sossego puro.

A fluminense Tania Pellicano, 37 anos, encontrou no vilarejo de Conceição de Ibitipoca, no alto da serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, o cenário para seu sonho. Há 15 anos, depois de passar férias ali, ela e o marido, Marco, decidiram mudar de vida, junto com as filhas Rafaela, 11 anos, e Bruna, 10. Construíram a Repousada, com 11 chalés, lareira e piscina aquecida. Não tardou para que o local virasse referência para turistas. Comandante de aviação, Marco se divide entre o refúgio mineiro e vôos internacionais, mas pretende em breve fincar pé em Ibitipoca. Enquanto isso, a família vive em Petrópolis, onde as garotas estudam.

"Não larguei tudo; juntei o aprendizado de uma vida para me realizar", diz o empresário Aurasil Brandão Joly Júnior, 54 anos. Ele foi garçom, morou na Itália, onde trabalhou na tevê e fez sucesso como violonista, além de cultivar especiarias para culinária. De volta, virou dono de um motel, no interior de São Paulo. Ganhou dinheiro e nos anos 80 descobriu seu lugar em Ilhabela, litoral norte de São Paulo. Levou três anos construindo sua pousada, a Maison Joly. "Passei um ano indo a demolições e leilões", lembra ele, que já recebeu hóspedes ilustres como os Rolling Stones (duas vezes), o rei Gustavo e a rainha Silvia, da Suécia, entre outros. No restaurante, onde ele é o chef principal, instalou, entre obras de arte, um bar e um piano de cauda em que ele mesmo ou um dos hóspedes dão uma canja durante o jantar. Embora uma diária de casal em sua pousada possa custar até R$ 290 na alta temporada, o empresário revela que ganha mais qualidade de vida do que dinheiro. "Quando sobra uma graninha, saio comprando novidades para incrementar o hotel." Sua meta é um título de relais-chateau, outorgado pela rígida associação hoteleira mundial com sede na França.

Ampliar e equipar a casa também é prioridade para a mineira Sônia de Oliveira, 46 anos. Há um ano, quando comprou uma fazenda que pertenceu ao conde D’Eu, ela está em lua-de-mel com a Serra da Bocaina, reserva florestal entre São Paulo e Rio de Janeiro. A pousada Conde D’Eu surgiu da reforma da antiga sede, no Parque Nacional da Serra da Bocaina, a 1,8 mil metros de altitude. A casa, com 11 suítes, é rústica. Na sala de estar, paredes cor-de-rosa contrastam com os móveis coloniais. Sônia investiu cerca de R$ 100 mil na reforma. "Gastei tudo o que tinha e gastaria mais, se tivesse. Fico olhando os campos em volta e imagino chalés, campos de golfe e trutas no lago." Os campos e o lago já estão garantidos.

Colaboraram: Chantal Brissac e Ivan Padilla (São Paulo) e Celina Côrtes (Rio)

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