Cultura

Vale a pena ver de novo?

Nunca se copiou tanto nas novelas, em que personagens e tramas se repetem à exaustão, o que prova a crise de criatividade cada vez maior dos autores

Não é por acaso que a novela global Suave veneno vem atingindo os piores índices do horário das oito, com a média de 33 pontos na medição do Ibope. Escrita por Aguinaldo Silva, o mesmo da ótima A indomada, ela tem intoxicado o espectador com situações e personagens já vistos em outras tramas. Entre poucos acertos, destacam-se apenas as divertidas aparições do vidente Uálber Cañedo (Diogo Vilela) e de seu partner Edilberto (Luís Carlos Tourinho). No mais, salvam-se Nívea Maria como a socialite falida Naná e o Alceste Berganti de Sérgio Viotti. Mas Sérgio Viotti é Sérgio Viotti. Os quatro, no entanto, são raras exceções na trama de gosto requentado, que faz da máxima de Chacrinha "nada se cria, tudo se copia" um mote cada vez mais atual. Nas histórias que se repetem, mais uma vez e outra e outra, Glória Pires, por exemplo, já pode atuar com o piloto automático ligado. Afinal, na pele de Inês ela novamente vive uma intrusa dissimulada, de passado nebuloso, que entra repentinamente na vida de um milionário com previsíveis segundas intenções. Não é preciso esforçar muito a memória para lembrar que ela mesma viveu um tipo parecidíssimo, fazendo a Rafaela de O rei do gado, entre 1996 e 1997. Aliás, a primeira fase da novela Estrela de fogo, da Rede Record, assinada por Yves Dumont, seguiu o mesmo princípio de O rei do gado.

Mas, se no texto de Benedito Ruy Barbosa, Glória Pires – normalmente uma atriz de bons recursos dramáticos – não conseguia dar a necessária ambiguidade exigida pela personagem, tudo indica que desta vez ou ela foi escalada para o papel errado ou sua caixa de surpresas se esgotou. Qualquer telespectador sabe que em Suave veneno a atriz se daria melhor no papel da perversa Maria Regina, defendida por Letícia Spiller, com os excessos típicos dos dramalhões mexicanos. A Inês de Glória Pires, inclusive, não é cópia recente. Em Plumas & paetês, antigo sucesso dos anos 80, Elizabeth Savalla na pele de Marcela sofria um acidente automobilístico, fingia perder a memória e, ufa!, se imiscuía numa família endinheirada. Parece incrível, mas a própria Plumas & paetês já era um plágio descarado de A intrusa, levada ao ar pela antiga TV Tupi, nos anos 60. As "coincidências" em Suave veneno ainda vão além. Aguinaldo Silva baseou-se no clássico Rei Lear, de William Shakespeare, que por sua vez já havia inspirado Roda de fogo, de Sérgio Jockyman, exibida na TV Tupi, em 1978 – não confundir com Roda de fogo produzida pela Rede Globo em 1986. A diferença é que em Suave veneno, a disputa das filhas é pela marmoraria, enquanto na trama de Jockyman a briga se dava pela sucessão num grande jornal.

Um fã de novela pode até gostar de situações que lhe são familiares, mas não a esse ponto. A professora e escritora Renata Pallottini, do Núcleo de Telenovelas da Universidade de São Paulo (USP), admite que muitas vezes esses chavões costumam surtir efeito no inconsciente do público. "Eles são repousantes", diz ela. O pior é que o jogo dos iguais, atualmente extrapola o horário das oito. Em Meu bem querer, de Ricardo Linhares, exibida às sete, a autoritária Custódia de Marília Pêra é uma espécie de reencarnação da autoritária Perpétua de Joana Fomm, em Tieta, de Aguinaldo Silva. Até recentemente, Custódia escondia embalsamado no quarto o corpo do antigo noivo. Perpétua também preservava a memória física do marido, só que mutilada. Perpétua guardava numa caixa aquela parte…

Cair no já visto é um dos maiores temores, mesmo para novelistas tarimbados como Benedito Ruy Barbosa, que até agora assinou 25 folhetins e no momento escreve a substituta de Suave veneno. "Todo autor corre o risco de se repetir. Eu me angustio com medo que isso aconteça comigo", confessa ele. A crise do folhetim de Aguinaldo Silva, no entanto, não é isolada. Apenas demonstra que o gênero já teve momentos mais criativos. Para a professora Maria Aparecida Baccega, uma das coordenadoras do Núcleo de Pesquisas de Telenovelas da USP, faltam ousadias. "Os autores têm que correr mais riscos", alerta. Bem ou mal as novelas vêm resistindo há 36 anos. Tanto é que a primeira delas, 2-5499 ocupado, de 1963, ganhará uma nova versão na Rede Record com o título de Louca paixão. Desde aquela época foram exibidas no Brasil cerca de 615 chamados seriados ficcionais, ou seja, novelas, minisséries e microsséries. Uma conta enorme até para quem é fanático pelo assunto como Mauro Alencar, mestre em telenovela pela USP e consultor da Globo (leia abaixo). "Se todas as histórias foram contadas, o segredo passa agora a ser como contá-las", profetiza. O desafio é grande.

 

O especialista

Aos 11 anos, a primeira paixão do paulistano Mauro Alencar chamava-se Shirley. Não por coincidência, mesmo nome da personagem Shirley Sexy, interpretada por uma platinada Marília Pêra na novela O cafona, de 1971, que ele havia assistido quando tinha nove. A namorada escolhida, porém, não era loira. Mas, para compensar, tinha o cabelo moreno cortado igualzinho ao da Serafina, interpretada pela mesma Marília em Uma rosa com amor, de 1973. Era o que bastava para aquele garoto ganhar ainda mais notoriedade entre os colegas de escola exibindo um vasto conhecimento sobre novelas. O problema é que a mania virou obsessão. Hoje, com 36 anos, ele coleciona tudo o que diz respeito ao assunto, incluindo mais de duas mil fitas de vídeo gravadas. "Até aquele remake de Ossos do barão, do SBT, que era bem ruinzinho", conta.

Como consultor e pesquisador de novelas da Globo, Alencar ganha em torno de R$ 10 mil. Ele foi notado quando, por ocasião da reprise de Escrava Isaura, com sua meticulosidade ligou para a emissora dizendo que a abertura original estava alterada por efeitos de computador. A direção imediatamente quis conhecer "aquele maluco". Acabou empregado no Vídeo show depois de mostrar que sabia os créditos da novela Carinhoso de cor. Sua aspiração agora é difundir a cultura noveleira pelo Brasil. "Essa é minha missão na Terra", garante ele, falando da maior de todas as suas obsessões, Escrava Isaura "A Isaura foi minha Tiazinha", diz ele, que tem até um chicotinho igual ao que Leôncio (Rubens de Falco) castigava a escrava.

C.F.