Comportamento

Heróis da quebrada

Rappers e pagodeiros viram líderes comunitários construindo escolas e áreas de lazer na periferia

Na música Gente da gente, do Negritude Júnior, o pagodeiro Netinho e o rapper Mano Brown cantam juntos os problemas da periferia de São Paulo: "Essa gente já sofre demais/São tratados como animais/E só querem um pouquinho de paz/E precisam ouvir Racionais", sugere o sambista. Em Fim de semana no parque, composição dos Racionais, Brown e Netinho dão novamente o seu recado: "Pode crer, Racionais MC’s e Negritude Júnior juntos. Vamos investir nós mesmos (na periferia) e mantendo distância das drogas e do álcool." A mensagem não ficou só no discurso. Amigos desde a adolescência, os dois frequentavam, no final dos anos 80, os bailes funks da equipe Chic Show, em Santo Amaro. Mano Brown, líder do grupo de rap Racionais MC’s, e Netinho, do grupo de pagode Negritude Júnior, querem agora reverter um pouco do que ganharam com o sucesso em prol da comunidade dos bairros pobres onde viviam. Hoje nomes famosos na música brasileira, o Racionais e o Negritude vendem milhares de discos e têm até griffe. Os dois grupos passaram a usar o prestígio e a fama para ajudar a construir centros de artes e esportes a fim de afastar crianças carentes das ruas e das drogas. Mano Brown ajuda a manter uma escolinha de futebol para 300 crianças de sete a 16 anos na Cohab Adventista, no Capão Redondo, onde morava até um mês atrás. Planeja construir ainda uma quadra de esportes, um centro de treinamento de boxe, uma escola de música e uma rádio comunitária para formar DJs (disc-jóqueis). Já o projeto de Netinho está em atividade há cinco anos. Quando ainda não era famoso, criou uma escola na Cohab de Carapicuíba, na Grande São Paulo, com 30 crianças. Agora, o projeto Família Negritude abriga mais de 300 crianças e oferece aulas de reforço escolar, inglês, informática, música, percussão, dança e teatro, além de serviços de psicólogos e fonoaudiólogos. "Até o final do ano, pretendemos atender 1.500 alunos", comemora José de Paula Neto, o Netinho, 28 anos, que gasta mensalmente R$ 16 mil com a manutenção da escola.

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As idéias sobre projetos sociais nasceram em rodas de bate-papo em finais de semana na Cohab Adventista. E o exemplo dos dois amigos acabou sendo reproduzido também por outros grupos de rap – como o DMN, por exemplo –, que organizam desde debates sobre a questão racial a campanhas de arrecadação de roupas e alimentos. Brown e Netinho moraram na infância e adolescência no mesmo bairro da zona sul, o Parque Ipê, nas proximidades da Cohab Adventista. Mesmo depois do sucesso, o vocalista do Negritude continuou frequentando a região, onde seus pais ainda residem. E sempre que pode passa na casa do amigo rapper para provar o feijão de dona Ana Soares, mãe de Brown.

 

Carandiru Esse mundo da Cohab retratado nas canções dos dois amigos é praticamente desconhecido pela classe média. As Cohabs são conjuntos habitacionais formados por dezenas de prédios com pequenos apartamentos e minúsculas janelas que chegam a lembrar o presídio do Carandiru. São verdadeiras cidades. A metade dos cerca de 500 mil moradores de Carapicuíba, por exemplo, vive nesses prédios. Nessas áreas, não existem cinemas, teatros, bibliotecas, parques de diversões, praças ou qualquer outro tipo de opção de lazer. Netinho, hoje morador de Alphaville, um condomínio luxuoso na Grande São Paulo, cresceu na Cohab de Carapicuíba e hoje fala do local com orgulho. Em dezembro, lançou a campanha 100% Cohab, com a venda de camisetas, bonés e CD. O dinheiro arrecadado vai para o projeto Família Negritude. Até há pouco tempo, Netinho animava os "pagodes na Cohab no maior astral", como diz uma de suas composições mais famosas, em frente à lanchonete – a Carolina –, agora nacionalmente conhecida de tanto ser citada por ele. Já Mano Brown dizia que jamais sairia do prédio humilde em frente ao campinho de terra onde gostava de jogar peladas na Cohab Adventista. No entanto, acabou se mudando, há um mês, para um apartamento de classe média na mesma região.

Brown e Netinho seguiram rumos diferentes na carreira musical, mas já estiveram no mesmo barco. O mais famoso rapper brasileiro tocava repique de mão em casas noturnas. Negros e de origem pobre, os dois têm a mesma história de vida. Brown, que não conheceu o pai, desde menino trabalhou como balconista em farmácia e ajudante em supermercado. Netinho vendeu doces em estações de trem dos sete aos dez anos de idade. Teve um irmão que foi assassinado por um policial. Os dois viram muitos amigos se acabarem no crack e na cocaína. Outros foram mortos pela polícia ou por gangues rivais. O nome do centro esportivo criado por Brown vai levar o nome de Geovani Caetano de Lima, um desses amigos mortos no ano passado. Geovani é irmão de Guilherme, vocalista que acompanha o Racionais na música Jorge de Capadócia, gravada no último disco Sobrevivendo no inferno. "Estivemos muito perto de desandar. Foi por um fiozinho. Eu, o Brown, o Ice Blue (outro membro do Racionais)… Tive uma base familiar e isso ajudou muito. Mas meu irmão morreu por um desvio de percurso", lembra Netinho.

 

Diferenças Apesar da barra de vida, o vocalista do Negritude Júnior é um bonachão, boa praça, canta músicas fáceis e previsíveis que falam de amor e diversão. Mano Brown é contundente e radical e chega a chocar os ouvidos da classe média com letras duras e agressivas que atacam a polícia, o sistema e a playboyzada. Netinho aparece na mídia a toda a hora. Brown, por outro lado, se recusa a falar com a "grande imprensa burguesa", apesar de aparecer nos clipes da MTV. "Isso era um sonho que a gente tinha desde pequeno, ao ver na tevê os grupos de rap americano", costuma dizer. Mesmo em favor de uma boa causa, como a divulgação do seu centro esportivo, ele não mudou de idéia. Apesar da diferença de estilos, os dois são manos, segundo a linguagem do rap e do movimento hip hop que define os moradores pobres da periferia. Os líderes dos Racionais e do Negritude estão engajados no movimento negro, têm um discurso afiado contra o racismo e o preconceito e querem ampliar seus projetos na área social. Hoje, não há um estudante de escola pública na periferia que não conheça as músicas dos Racionais. "O rap atingiu a maturidade. O Brown sabe que não adianta só reclamar e criticar o sistema. Agora, o pessoal acredita que tem a solução dos problemas. Eles estão indo nas escolas, dando palestras, ensinando. Cada um tem que fazer a sua parte. E nós estamos fazendo", argumenta Netinho.

Na política, os manos têm posturas um tanto diferentes. Brown assume posição partidária, sempre fez campanha por Lula e por outros candidatos do PT. Netinho diz que é simpatizante da esquerda, mas toca para qualquer candidato que lhe paga. Cada um à sua maneira, eles estão fazendo política social. Brown, que está sempre acompanhando as obras, agora tem ido atrás de amigos jogadores de futebol como Viola, Edinho e Marcos Assunção para conseguir ajuda. Precisa de R$ 150 mil para ampliar o projeto. "Eu gosto daqui e sou fã do Mano Brown. Meu sonho é ser cantor", diz Uandel Nunes da Silva, 11 anos, aluno da segunda série, que ainda não sabe ler nem escrever. Netinho, presidente do Família Negritude, também visita duas vezes por semana o seu projeto. Analisa as contas, faz pagamentos e conversa com as crianças. Depois de ganhar uma área de 29,6 mil metros quadrados da Prefeitura de São Paulo, está ampliando o programa. O custo total é de R$ 1,6 milhão. "Vamos buscar parcerias com empresas. O ideal hoje era que cada companhia se encarregasse de cuidar de algum projeto no seu bairro. Os empresários precisam olhar um pouco mais para a comunidade. Se cada um der sua contribuição, a gente muda essa realidade", sinaliza Netinho.

 A politização dos manos

 

O hip hop – movimento que engloba o rap, o break (dança) e o grafite – tem hoje uma presença forte na periferia e vem mostrando preocupação com a área social. Organizado nos quatro cantos de São Paulo, o movimento se espalha para outros Estados. Os Racionais MC’s seriam apenas um dos dez mil grupos de rap que atuam hoje na periferia paulistana, não só na música mas também em movimentos sociais e até em articulações políticas. Os rappers se reúnem nas chamadas posses (que teria o mesmo sentido de gangues ou turmas, só que com um caráter pacífico). Nesses locais, são realizados shows, campanhas de arrecadação de roupas e alimentos para famílias carentes, mobilizações para reivindicar parques e bibliotecas e até debates sobre marxismo. Na Cidade Tiradentes, extremo da zona leste de São Paulo, por exemplo, um grupo de rappers está dando aulas de música, capoeira e pintura – além de noções de higiene e reforço escolar – para crianças que vivem em um conjunto de prédios abandonados, no meio do lixo e dos ratos. Nas últimas eleições, os rappers tiveram até um candidato próprio a deputado estadual em São Paulo: o professor de História Edmilson Souza, do PT, que não conseguiu se eleger, mas teve seis mil votos. A maioria dos manos se considera de extrema esquerda. "Apoiamos o PT, mas ele também deixa a desejar. É o menos pior de todos os partidos. Infelizmente, nossa relação com os petistas só se estreita em época de campanhas porque a gente leva público para eles", diz Markão II, integrante do grupo DMN. Markão, ex-office-boy e ajudante de marceneiro, é um dos responsáveis pelo Projeto Rappers, organizado em conjunto com a ONG Geledés. "Falamos a realidade dos pretos e pobres da periferia. E levamos essa discussão para escolas, faculdades e centros comunitários", explica.

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