Medicina & Bem-estar

A saúde no real

Com a desvalorização da moeda nacional, os preços dos exames e medicamentos começam a doer no bolso

Ficar doente é sempre um transtorno. E o que é pior: na atual crise, cuidar da saúde pode representar um desfalque na carteira. Afinal, muitos medicamentos, exames, materiais cirúrgicos e dentários são importados e têm seus preços taxados de acordo com o dólar. Para tranquilizar e tentar proteger a população, o Ministério da Saúde se apressou em fazer um acordo com a indústria farmacêutica a fim de segurar os preços de medicamentos durante o mês de fevereiro e assumiu o compromisso de evitar o desabastecimento na área. A paz do consumidor, contudo, está ameaçada. Para se ter uma idéia, 70% da matéria-prima utilizada pelos laboratórios farmacêuticos vem de fora. A Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica comunicou que seus fornecedores aumentaram em 9% o preço dos vidros e das bisnagas e 20% o preço das embalagens de papel e dos laminados de alumínio. Isso significa que para produzir os medicamentos a indústria terá que gastar mais.

E há quem já esteja sentindo o custo pesar no bolso. A psicóloga Maristela Cancellieri, 33 anos, por exemplo, pagava, em janeiro, R$ 60 por um kit de 50 fitas para dosagem de glicemia, um item fundamental para o controle de seu diabetes. Na primeira semana de fevereiro, o susto: teve de desembolsar R$ 84 por um kit idêntico. Ou seja, um aumento de 40%. "Não posso ficar sem as fitas. Uso três por dia para medir a glicemia e saber o quanto tomar de insulina", explica Maristela. Sem as fitas, o diabético tem de recorrer a exames de urina, menos precisos, para não perder o controle da doença. Quem está tratando dos dentes também viu a conta crescer. Alguns dentistas pagaram mais caro por materiais de restaurações e repassaram o custo aos pacientes.

Outro prato cheio para os aumentos são os procedimentos cirúrgicos e testes laboratoriais. Um simples exame de sangue para dosagem do nível de colesterol depende de reagentes (componente líquido que identifica se há algum problema no material coletado) e de computadores sofisticados (para a análise do sangue) vindos dos Estados Unidos e da Europa. O Laboratório Fleury, um dos mais respeitados de São Paulo, emprega algum item importado (reagentes, filmes para raios X, equipamentos de diagnóstico por imagem) na análise de 90% dos seus quase 900 tipos de exames. "Se o dólar continuar a subir, teremos que repassar uma parte ao consumidor", diz Evaldo Russo, superintendente do laboratório. Até agora, só não houve repasse de preços por dois motivos: de um lado, os laboratórios aguardam maior definição do valor do dólar para negociar com seus fornecedores. Do outro, os convênios médicos, maior fonte de lucro dos laboratórios, se negam a pagar mais caro pelos procedimentos, uma vez que, por determinação do governo, por enquanto não se podem elevar as mensalidades.

Uma coisa é certa: se houver aumento generalizado, o consumidor deverá ficar atento para não ser lesado (leia quadro). Saber exatamente a porcentagem de material importado utilizado ajuda. Há exames em que a quantidade de reagente é pequena, como o Papanicolaou (previne câncer de útero). Nesse caso, teoricamente, não haverá alteração de preço. Os exames mais sofisticados e caros são, em geral, os que mais dependem de material importado e, consequentemente, representarão o principal encarecimento. O acréscimo vai afetar ainda as vacinas infantis. Médicos da Clínica Especializada em Doenças Infecciosas e Parasitárias e em Imunizações de São Paulo (Cedip) prevêem, por isso, queda de 20% de sua clientela, uma parcela da população que deve migrar para a rede pública. O pior é que a rede não dispõe de algumas vacinas, como a varicela (catapora) e a haemophilus (contra um tipo de meningite). "Vacina é prioridade. Já tem tanta doença grave que não podemos evitar que a vacinação deveria ser obrigatória", defende Inaiá Cunha Avelino, 22 anos, mãe de Nicholas, um ano e seis meses. Mas, ao que parece, vão começar mesmo a faltar medicamentos e materiais. Há duas semanas, pacientes que procuraram o Hospital das Clínicas da Universidade de Campinas para fazer tomografias deram com a cara na porta. Duas máquinas foram desativadas porque o hospital não conseguiu um acordo com seus fornecedores sobre o preço das peças que estão em falta. É impossível, portanto, separar o atendimento médico da saúde financeira do País.