Brasil

Eu sei que vou te amar

O brasileiro percebe que sem auto-estima e cidadania não vai vencer a crise e quer aprender a gostar do País

Dois acontecimentos recentes, um bom e um mau, sobressaltaram a auto-estima nacional. O mau é a crise financeira, que ressuscitou o fantasma da inflação e abriu um rombo no tecido ainda frágil da nossa confiança no sucesso. O bom é a indicação do filme Central do Brasil e da atriz Fernanda Montenegro para concorrer ao Oscar. Concorrer ao Oscar não traz nenhum benefício além da deliciosa sensação de pertencermos, por algumas horas, ao mundo dos grandes. É muito, num país povoado por colonizados e escravos, que virou Estado antes de se sentir Nação e não fortaleceu um olhar adulto sobre si mesmo. Mas, às vésperas dos 500 anos e de volta, após uma pausa, à beirada daquele velho precipício, já sabemos que vai ser necessário auto-estima e cidadania para sair do buraco. O Brasil quer aprender a gostar de si.

Em uma pesquisa de IstoÉ via Internet com seis mil leitores, 46,8% dos consultados afirmaram ter orgulho de ser brasileiros, um índice modesto de rejeição diante da crença de que o Brasil é um país tão mal-amado. (A resposta "não sinto orgulho" crescia vertiginosamente no horário do Jornal Nacional). "Temos uma baita auto-estima", afirma Fernanda Montenegro. Transbordando orgulho da cultura que ela vai representar em Hollywood, Fernanda celebra: "Não é ser uma vivandeira da alegria, mas vejo isso no País. Nós somos Ayrton Senna, somos Villa-Lobos, somos os irmãos Caruso, Clarice Lispector, Cora Coralina, somos o cantador de cordel, o homem que planta cactos no sertão quando não tem nada para comer." Ela não vê como sinal de insegurança desejar o reconhecimento do Oscar. "É para mostrar a imagem correta do Brasil. Mostrar que não somos a Geni do mundo", diz a estrela de Central do Brasil. Fernanda tem outro motivo para sua cintilante altivez "Os artistas têm um profundo espírito de resistência, de criação e amor-próprio."

O publicitário Washington Olivetto, que batizou sua agência de W/Brasil para afirmar sua confiança nas virtudes nacionais, propõe um ponto de vista pouco usual quando se fala em Oscar por aqui: "Pela vida, pela história e pelo talento de Fernanda, é uma honra para o Oscar ela ganhar." A maioria não ousa exprimir essa opinião. O psicanalista Jorge Forbes, presidente da escola Brasileira de Psicanálise, explica por quê: "Temos uma posição passiva de atribuir ao outro o julgamento a nosso respeito." Para Forbes, nem por isso falta amor-próprio ao brasileiro. Se faltasse, ele supõe, seríamos um povo deprimido, e no entanto somos aqueles que sabem aproveitar a vida com pouco. "O Brasil acabou de sofrer uma paulada com a desvalorização do real", diz Forbes. "Mas o drama é compensado com Carnaval, futebol e, agora, o Oscar.

Uma moeda forte nos deu por algum tempo a sensação de sermos tão poderosos quanto os ricos. Perder essa conquista é uma perspectiva dolorosa. "Por enquanto a gente ainda acredita, mas não sei até quando. Este sistema financeiro está acabando com a coragem do pessoal", reclama Pedro dos Santos Fernandes, 36 anos, que vende flores secas do cerrado na Catedral de Brasília. Há gente disposta a lutar para manter o que conseguimos. "Tem que conservar os preços baixos, não sujar a cidade e trabalhar muito, senão a crise piora", receita o feirante Ricardo Serra, 17 anos, de São Paulo, que mantém estável o preço de suas bananas desde 1994. "O brasileiro não pode deixar a inflação voltar", ele torce. Ricardo acha difícil se orgulhar do Brasil. "Tenho vergonha da má distribuição de renda", protesta.

 

Olhar estrangeiro O orgulho de Ricardo se recompõe quando ele observa a admiração dos estrangeiros pelas frutas que vende. "Os gringos não acreditam nas minhas bananas. As nossas frutas são excepcionais", elogia. A aprovação externa é importante, mas não é o único lado que pode pesar. "É o lado interno que dá consistência a esse sentimento e, em geral, estamos mais voltados para fora do que para nós mesmos", lamenta a psicóloga Lucy Pena.

A banqueteira e escritora Nina Horta, autora do livro Não é sopa (Cia. das Letras), sente os efeitos disso sobre os nossos cardápios. "Nenhum bufê pode oferecer arroz, feijão ou farofa", conta. "Parece que só salmão e endívias são aceitáveis", comenta a chef, para quem uma empadinha nada fica a dever a uma quiche. "É como se as nossas comidas não fossem chiques por serem simples, feitas com ingredientes do quintal", ela aponta.

A desvalorização do que é local provoca situações curiosas. Os moradores da cidade de Salitre, de cinco mil habitantes, no Ceará, não disfarçaram seu espanto ao saber que os membros de uma equipe da Universidade Solidária que visitou a cidade em janeiro chamavam-se Antônio, Paulo, Francisco e José Vicente. Existem na cidade alguns Michael Jacksons, Jordan Kennedy, John Kevin e Djullyanny. No resto do País já que bicicleta chama-se bike, liquidação, sale, e entrega, delivery, não há porque estranhar.

No Brasil, às vezes o lado externo é sinônimo de Estados Unidos. Daniela Rocha de Sá Freire, 24 anos, foi criada lá. Ela custa a se orgulhar do Brasil. "Gostaria de ser cidadã americana", diz ela. "Lá tudo é mais prático. Não tem essa de encher linguiça. Lá tem regra para tudo, há multa para quem joga lixo na rua. Não é esse oba-oba daqui", diz. E garante: "Estou três passos à frente de qualquer brasileiro. Como falo inglês fluente, acham que sou americana." Embora adore os Estados Unidos não aprova a indiferença deles pela cultura dos outros povos. Daniela, acredita que a auto-estima do brasileiro é baixa. "Aqui todo mundo acha que nada vai dar certo. Ninguém acredita em si."

A glamourização dos Estados Unidos tornou as filas de pedido de visto nos consulados americanos do País um retrato da nossa reverência. Na sexta-feira 19, o metalúrgico José Ronaldo Correia, 29 anos, deixou, o consulado americano em São Paulo com um visto para a Flórida. Vai conhecer a Disneyworld. "Fiquei supertenso. Achava que não ia conseguir, porque sou metalúrgico e tenho renda pequena", explicou. No mesmo dia, o estudante paranaense Fernando Hornung, 20 anos, chegou a São Paulo depois de oito horas de viagem de ônibus, vindo da cidade de Reserva, no Paraná. Foi pedir visto para viajar em julho para a Disney. Mas o visto foi negado e ele perdeu a ilusão de uma América hospitaleira. "Eles disseram que eu não tinha vínculos com o País. Puxa, meu pai tem uma madeireira e foi duas vezes presidente da câmara de vereadores de Reserva. Sou estudante e dependente deles. Por que fizeram isso?", desabafou humilhado. "Nem consegui pedir uma explicação. A funcionária apertou o botão, chamando o próximo."

 

Brasileiro, eu? A atmosfera dos países ricos tem o dom de encolher nosso amor próprio. A jornalista Cristiane Besen, 25 anos, que tem cidadania brasileira e italiana, evita identificar-se no Exterior como brasileira. "Lá fora prefiro ficar quieta a dizer que sou brasileira, e passo longe daqueles grupos barulhentos. Só mostro o passaporte italiano, pois o brasileiro tem fama de malandro e eu sou quase inglesa. Respeito fila e chego no horário." Ela sonha educar a filha, Alice, de um ano e meio, fora do País.

O publicitário Ricardo Freire, autor do guia Viaje na viagem – auto-ajuda para turistas, já viu centenas de vezes a cena: "Quando ouve alguém falando português, o brasileiro logo baixa a voz para não ser identificado. Bem diferente dos americanos, que quando se encontram fora do país, se aproximam para trocar dicas." Excluir-se daquilo que despreza é um traço do nosso comportamento. Aqui, só os outros são "o povo". Ou, como ironiza o publicitário, "povo é sempre alguém menos privilegiado que você".

A capacidade de se ver como um povo é um dos sinais de maturidade e tem efeitos sobre o amor próprio. "Tive muito orgulho de ser brasileira durante a campanha das diretas, em 1984", recorda a vendedora Sara Papi, 32 anos, do Rio de Janeiro. Passadas essas situações, volta o clichê do povo maravilhoso misteriosamente governado por políticos horrorosos. O eleitor nada tem a ver com seus representantes. O historiador Jaime Pinsky acredita que na raiz dessa atitude está o fato de o Brasil ter virado Estado antes de ser Nação. "Quando se criou a monarquia ela só foi comemorada por um pequeno grupo político, e isso gerou um processo acéfalo no Brasil. "A culpa é sempre ‘deles’. Não conheço ninguém que diga ‘nós’ quando fala do governo", diz Jaime Pinsky.

Para entender nossa auto-estima, Roberto Gambini, cientista político e analista junguiano, propõe resumir o povo brasileiro a um só indivíduo. "Esse sujeito seria filho de pai português e mãe índia. Na sua infância, o pai matou a mãe." Por isso, na origem do brasileiro não houve síntese, mas negação e a identidade nacional ficou incompleta. "Se ‘o brasileiro’ fizesse terapia iria conhecer sua outra metade." Ele precisaria também acertar as contas com sua história em relação aos negros. "A escravidão é uma ferida na alma do negro e uma culpa na alma do branco." O estudante Luiz Carlos Alexandre, 13 anos, não costuma correr pelas ruas de São Paulo porque é negro. "Podem achar que eu sou ladrão", explica o menino. "A polícia enquadra só os negros", protesta. "Tenho vergonha da história do País, da escravidão. É por causa dela que sou chamado de neguinho."

Alicerce pessoal No território individual, a construção da auto-estima começa cedo. "Pesquisas mostram que a mãe que não se gosta favorece a falta de amor-próprio do filho", diz a psicóloga Elisa Parahyba Campos. Mas é na adolescência que a auto-estima é colocada à prova. Cumprir padrões de beleza e de comportamento vira quase obrigação. "Engordar e emagrecer demais, não se cuidar, não usar camisinha, são sintomas de desamor", diz o psicanalista Fabio Herrmann, que pesquisa a relação médico-paciente no Hospital das Clínicas de São Paulo. O iatista Lars Grael diz que sua auto-estima aumentou depois que ele perdeu uma perna. "Ganhei uma força extra para ir em frente", diz Lars. "Estou vivo e tenho todas as condições para ser feliz."

Brasileiros que vencem no Exterior produzem ondas de orgulho nacional. Funcionário do Comitê de Imprensa do Palácio do Planalto desde 1961, José Henrique Nazaré, apelidado de Very Well, gaba-se de nossas vitórias na área diplomática. "Pessoas como o embaixador Oswaldo Aranha e como Rui Barbosa fizeram muito pelo Brasil", comenta. Mas o esporte tem sido a maior fonte de patriotismo. O carregador Silvio Ricardo Cabral, 20 anos, confirma: "Quando os brasileiros trazem um título para o País também me sinto importante. Tenho vergonha é de ver tanta gente desempregada." Diogo Silva, 16 anos, joga na equipe da escola Pequeninos do Jóquei, em São Paulo, e vai fazer um teste nesta semana no Santos. Nas duas vezes em que jogou na Europa, ele sentiu o respeito conquistado por várias gerações de boleiros. "Aqui sou apenas um jogador. Lá fora, sou um jogador brasileiro."

"O brasileiro é muito vibrante e cada vitória ou derrota, é como se fosse sua", diz o tenista Guga Kuerten, 22 anos. Tostão, tricampeão mundial em 1970 compara: "O futebol é a vingança do brasileiro, seja ele jogador ou torcedor. Em época de Copa ele se sente parte do primeiro mundo", afirma. Em 1988, surgiu um outro herói nacional. O piloto Ayrton Senna venceu o Grande Prêmio de Detroit, um dia após a eliminação do Brasil na Copa do México, e para sacramentar a vitória, exibiu no final uma bandeira verde e amarela, um gesto que se tornaria um símbolo.

Colaboraram: Bruno Weis, Chantal Brissac, Gisele Vitória e Ivan Padilla (SP); Sidney Garambone e Valéria Propato (RJ); Isabela Abdala (DF)